Posteridade

Várias vezes quando estou andando pelas ruas e avenidas da cidade fico pensando quem foi o cidadão que fez por merecer a homenagem de ter o seu nome eternizado pela prefeitura naquela obra. O engenheiro Roberto Zuccolo é um dos meus favoritos. A ponte que um dia se chamou Cidade Jardim, leva o seu nome e acho que exceto pela sua família, ninguém sabe quem ele foi ou é. Hoje vi que o ex-jogador Sócrates que morreu recentemente é candidato a virar nome de praça…
Em momentos egocêntricos, fico imaginando que tipo de homenagem a sociedade me prestará quando eu partir desta dimensão para novos desafios no reino do além… De modo humilde, acho que não gostaria de ser perpetuado sob a forma de uma ponte ou uma avenida. Caminhões bateriam em mim, haveria buracos, enchentes…Enfim, minha memória seria mais xingada do que reverenciada. Além disto, homenagem depois de morto não serve para muita coisa…
Minha fonte de inspiração no momento é o tenor espanhol Plácido Domingo. Em comemoração ao seu aniversário de 70 anos, ele teve um avião da Iberia batizado com seu nome. Foi o primeiro espanhol a ter esta honra em vida.
Legal para ele e para quem voa a bordo do Plácido Domingo! Quem sabe um dia ele não de uma colher de chá a bordo e cante “Perhaps Love” para os outros passageiros ? Talvez em função da minha falta de habilidade no karaoke a TAM ainda não tenha decidido copiar a Iberia e batizar um avião em meu nome. Vou treinar mais…

Crônica de quase natal

O natal está chegando e com ele vem junto aquele momento do ano em que o amor predomina. Começa pelo processo fácil de se pensar em quem merece presente e o que comprar. Algumas famílias adotam o empolgante amigo secreto e discutem por semanas qual a regra mais justa. Bem coerente com o espírito de natal,se fazem alianças, conchavos e artimanhas para que os favoritos não sorteem os chatos…Outras famílias abdicam da troca de presentes e agora fazem apenas doações para crianças desamparadas e lares de velhinhos. Existe um grupo mais conservador que estabelece informalmente que os homens troquem entre si caixas contendo camisas da Richard’s com variação da cor da listra e que as mulheres se surpreendam com a fragrância do sabonete L’Occitane que ganharão (será Verbena, Oliva ou Chá verde ?).
As avós competem para ver quem entrega o maior embrulho para os netos, tias distantes distribuem a todos pares de meias sociais, os amigos que gastam pouco dizem que não é um presente e sim “apenas uma lembrancinha”, um tio gordo se veste de papai noel com barba de algodão e todos, inclusive as crianças, morrem de medo. Já os casais discutem e brigam para ver se comerão o perú com a família de um e a sobremesa com a família do outro, ou vice-versa . Não estar presente na hora em que o perú é fatiado é prova de falta de amor e desperta sentimentos de vingança eterna.
Enfim, muda o endereço, o tamanho do embrulho, os personagens mas o enredo é quase o mesmo. É época de natal…Odiamos, reclamamos mas adoramos. É quando a família é mais família. É difícil viver sem…

Tem gente querendo resgatar a Comic Sans das trevas…

Quem utiliza o computador há bastante tempo e foi criado sob a dominação do Word, tem como membros da família as fontes oferecidas pelo programa. Times New Roman, Arial e Comic Sans são velhos conhecidos. No meu caso particular, eu optei há alguns anos por expulsar da minha vida e deserdar completamente o Comic Sans.
Para quem não teve o prazer de ser apresentado, o Comic Sans é um tipo de letra que tenta reproduzir a escrita de uma criança de mais ou menos cinco anos. Tem a aspiração de ser engraçadinha e fofinha (no diminutivo mesmo). Já a vi sendo utilizada no mundo corporativo nos mais diversos documentos: coisas sombrias e macabras como documentos que tratavam de desligamentos de funcionários e projetos de viabilidade de fábricas eram alegremente redigidos de forma saltitante em Comic Sans. Esta exposição excessiva, nos locais menos adequados, contribuiu muito para a minha completa aversão a coitada da fonte. Descobri que não estava sozinho e existem sites como o http://www.bancomicsans, pedindo que a Comic Sans seja erradicada da Internet. Do meu mundo, ela já sumiu…foi para as trevas.
Como este é um espaço democrático, informo que na contramão da minha visão de universo, descobri no
http://www.mashable.com que dois designers franceses,Thomas Blanc and Florian Amoneau estão liderando um projeto para resgatar a imagem da Comic Sans. A base do projeto é mostrar para as pessoas como seria o mundo se as logomarcas mais conhecidas da face da terra utilizassem a fonte perseguida. Em alguns dias no ar, o site deles (http://comicsansproject.com/) recebeu uma chuva de manifestações de solidariedade a causa.

O que eles pretendem conquistar agora ? Inspirados pela “fama” repentina pretendem arranjar empregos em agências de publicidade em Paris. Quero ver se terão coragem de mandar os seus currículos redigidos em Comic Sans…

Tweet seats

Outro dia escrevi sobre a minha experiência no show do Ben Harper, filmando, tirando fotos, usando o socialcam, tweetando e até de vez em quando, vendo o espetáculo e ouvindo música. Pois bem, parece que pessoas com este perfil, digamos assim, de hiperativo digital, estão se espalhando pelo mundo e gerando oportunidades de mercado.Li no http://www.nbcbayarea.com que alguns cinemas e teatros nos Estados Unidos estão criando assentos especiais para que as pessoas usem os seus equipamentos enquanto as peças e filmes se desenvolvem ! Os tweet seats ,como estão sendo chamados, ficam afastados dos demais para que as outras vítimas que compraram seus ingressos com boas intenções, não sejam perturbadas pelo brilho das telas dos smartphones e possam prestar atenção integral no palco ou na tela. A idéia é que o público também possa interagir com os diretores das peças,enviando perguntas em tempo real, comentando a performance dos atores e recebendo informações exclusivas sobre a produção…Ninguém sabe ao certo qual será o desfecho da experiência mas já tem gente disposta a cobrar mais por assentos assim e outros que estão topando pagar. Fiquei pensando em quem poderia ser pioneiro neste segmento no Brasil e não me ocorreu outro nome de artista além do João Gilberto, sempre tão aberto e simpático a participações da platéia.
O único problema é se ele tiver que faltar novamente aos shows marcados por causa de um novo surto de gripe infinita. Se devolver o dinheiro para os assentos “reais” já pagos é difícil, a devolução do dinheiro dos “tweet seats” com certeza seria em 140 parcelas, uma para cada caracter de elogio a sua santidade.

Campeonato Espanhol é igual campeonato de par ou ímpar

Ontem foi dia de Barcelona e Real Madrid. Para variar um pouco, o Barcelona ganhou. Campeonato Espanhol de Futebol é mais ou menos como você fazer uma emocionante competição de par ou ímpar ou dançar com as suas primas em uma festa. Não tem surpresa, não tem variação. Ou ganha um ou ganha outro. Super clássico, mega rivalidade ? Concordo…mas falta graça.
A rivalidade entre Barcelona e Real Madrid vai muito além do futebol e neste aspecto ela é muito mais interessante. O Real representa a realeza e o poder central de Madrid,já o Barça joga representando a Catalunha e seu desejo de independência e de diferenciação. Basta ver que a mega-rivalidade ocorre entre times que não são da mesma cidade. O Real é muito mais rival do Barça do que do Atlético de Madrid…o Barça idem em relação ao Espanyol. Enfim, milhões de euros, Messi x Cristiano Ronaldo, Mourinho x Guardiola, recorde de telespectadores mas para mim falta surpresa, novidade. Para mostrar a importância do jogo para os Espanhóis, aí vai uma campanha da Audi (patrocinadora oficial dos dois times) para anunciar a partida. Será que um dia teremos algo equivalente para os nossos clássicos locais ?

Um show à parte durante o show do Ben Harper

Ben Harper

Ontem fomos ao show do Ben Harper. Para os mais desavisados, o Ben Harper é mais conhecido por ficar desejando “good luck” para a Vanessa da Mata em uma música chamada “Boa Sorte” e que fez muito sucesso alguns anos atrás. A parceria daquela época me lembrou um pouco Jane e Herondy, mitos da década de 70, mas tudo bem e o Ben é mais do que isto.

Jane e Herondy, possível referência para Ben e Vanessa


Foi separado no nascimento do Jack Johnson e tem uma série de músicas legais. Enfim, está no playlist oficial da minha casa com “She’s only happy in the sun”, “With my own two hands” e outras que também nunca ouvi falar mas que a minha esposa como fã diz que são incríveis e coloca para tocar com freqüência (dá para perceber que eu não tenho carteirinha de sócio do fã-clube dele mas estou em processo de evolução contínua).

Ben, em versão cabeludo, com Vanessa, ainda mais cabeluda


Algumas vezes um pouco entediado com longos solos de bateria, além de ouvir as músicas, resolvi prestar atenção no universo ao meu redor. Além das fotos do show e da gravação de trechos das músicas favoritas com meu telefone resolvi brincar com um aplicativo do IPhone chamado “Socialcam”. O que ele faz ? Permite que você grave um vídeo e na hora já publique na sua conta de Facebook,Twitter e Youtube. Ou seja, transmissão quase ao vivo. Como vocês verão no vídeo que coloquei no post a definição ainda não é perfeita, falta zoom mas a interatividade é total. Outro entretenimento paralelo para mim foi ver o que as pessoas estavam achando do show, acompanhando os tweets que continham #benharper. Uns escrevem que é o melhor show da vida, outros dizem que estão chorando de emoção, já eu para testar a reação do povo, postei um #benharper chega de solos para encher linguica e vamos cantar ! Não tive eco…Fiquei frustrado…ninguém se manifestou. O smartphone foi um show à parte para mim.

Modeletes

As modelos sempre vivem entre a cruz e a caldeirinha ou para adaptar-me ao tema de hoje, entre o cabide e o armário. O mercado espera que elas sejam magras,tábuas,desprovidas de curvas. Quando depois de ingerir toneladas de alface e passar por uma série de privações elas conseguem chegar lá, sempre aparece alguém para dizer que estão com cara de anoréxicas e que isto é um péssimo exemplo para as adolescentes que aspiram seguir a profissão… Aí elas resolvem dar uma derrapadinha, encaram uma pizza, uma batatinha frita, tomam um sorvete escondido e na hora do desfile de bíquini aparecem as mortais celulites ou um pequena saliência abdominal (ou pneu). O que acontece ? Novo ataque da mídia e um traço contido de felicidade das demais mulheres mortais que se sentem vingadas.
Pois bem, a rede sueca de roupas H&M resolveu eliminar esta discussão. Não queria mais mulheres palito ou ter que explicar porque as suas modelos estavam mais cheinhas. Em seu site, a H&M divulgou suas roupas utilizando apenas modelos com corpos virtuais, absolutamente iguais e fazendo a mesma pose. As “cabeças” continuavam sendo de modelos reais, “implantadas” digitalmente em corpos artificiais. A HM esqueceu de avisar que estava fazendo isto e advinhem o que aconteceu quando a mídia descobriu ? Uma chuva de ataques pelo fato da empresa não respeitar os desvios e as imperfeições das mulheres de verdade. Não é mesmo fácil a vida das modeletes…até as virtuais apanham ! A resposta da H&M ao ser questionada sobre porque havia feito isto foi bem nórdica: simplificação do processo de Photoshop e foco nas roupas. “Nós vendemos roupas e não modelos”, disse o diretor da rede. Li no http://www.psfk.com

Reparem no corpo das modelos do catálogo da H&M


Santíssima trindade

O Twitter acabou de divulgar a relação dos temas que geraram o maior volume de Tweets por segundo em 2011. Antes de ver a lista, fiquei tentando imaginar. Minhas apostas foram de que o tema número 1 seria ou a morte do Steve Jobs ou o ataque ao Bin Laden ou se as pessoas estivessem mais sensíveis, o casamento real do príncipe William com a Kate.

Errei…o tema que gerou maior volume de mensagens por segundo foi o anúncio da gravidez da cantora Beyonce que foi feito durante a sua apresentação no MTV Music Awards, em Agosto !

Beyonce anunciando a sua gravidez durante o MTV Music Award


Para ela liderar este ranking houve uma conjunção de astros e de uma santíssima trindade de temas que geram enorme volume de mensagens…música, celebridade e fofoca. Nós brasileiros também podemos nos orgulhar: ao conseguimos a proeza de sermos eliminados da Copa América de futebol errando todos os pênaltis no jogo contra o Paraguai, asseguramos posição top 5 no ranking !
Não conseguimos derrotar a Beyonce e nem o Paraguai mas ganhamos das minhas apostas Osama,casal real e Steve Jobs.

O extreme makeover da cenourinha

Quem convive com crianças e adolescentes sabe como é difícil convencê-los a comer qualquer coisa que eles identifiquem com um vegetal, especialmente se for uma verdura ou um legume. A fruta ainda tem uma reputação melhor…. Falar de abobrinhas,chuchus,espinafres parece tempo perdido e resta a esperança de que quando crescerem se converterão em aficcionados pela rúcula e pelo agrião. Ao mesmo tempo, o fascínio exercido pelos salgadinhos é impressionante. Quanto mais junkies e artificiais eles forem, mais atraídas e viciadas as crianças parecem ficar. Existem concursos para criação de novos sabores e surgem no mercado coisas bem esquisitas tipo Fandangos sabor Presunto, Cheetos sabor estrogonofe, Doritos sabor churrasco e outras excentricidades que não sou capaz de listar. Há uma correlação entre o gosto da juventude e a nível atingido pelo salgadinho na escala trash…
Nos Estados Unidos a rejeição aos vegetais não está limitada a juventade. Todas as idades parecem ter este adoração pelos salgadinhos barra pesada. Os produtores das Baby Carrots perceberam isto. Eles desistiram de tentar vender o produto como um “snack natural” e passaram a posicioná-lo como junk food ! Nada de apelo orgânico, frugal, com cara de fazenda e produto natural da terra …Agora as embalagens são berrantes, pretas com laranja, as campanhas tem super heróis, personagens e um posicionamento “temos orgulho de ser trash”.

Cenourinhas com cara de salgadinhos


Ou seja, nada de falar que a cenourinha é uma cenoura ! Tudo é feito para convencer o pessoal de que a cenourinha é digamos assim, um Baconzito cor de laranja e um formato diferente. Se o negócio der certo, fico pensando nas extensões de linha e as enormes oportunidades que se abrirão para os plantadores dos outros vegetais…Jumbo Combo Baby Carrots com pepino, Mega Blaster Cenourinha vitaminada com ervilhas. Não sei não mas o meu pressentimento é de que a cenourinha será desmascarada em breve e voltará a ser o que é…

Corinthiano,maloqueiro e sofredor

Não gosto muito de discutir paixões clubísticas…cada um tem direito de escolher seu time e todos devem se lembrar de que apesar de tudo, futebol é apenas um esporte. Rivalidade é gostosa, serve para você atormentar os seus colegas de trabalho quando o seu time ganha e também para ser atormentado quando perde. Violência por causa time de futebol é ridícula e coisa de homem das cavernas…
Para mim, mais do que paixão, futebol serve para quebrar gelo e construir pontes, em qualquer ambiente, com qualquer classe social em todos os lugares do mundo. Ainda não encontrei nada mais universal e que fosse tamanho ponto de conexão entre as pessoas.
Ser corinthiano dentro deste contexto é uma dádiva. O que conecta e integra os corinthianos não é um sobrenome italiano como os que tem os palmeirenses, o orgulho de ser da elite como imaginam ser os são-paulinos ou uma devoção eterna ao passado como a que tem os santistas. Ser corinthiano é ser maloqueiro e sofredor mesmo quando se paga uma fortuna para conseguir um ingresso da final no câmbio negro e se volta para casa de carro importado. É estado de espírito. É diferente e por isto é especial. Os outros times também tem torcida (pequenas é verdade) mas é a torcida do Corinthians que tem um time e determina o seu espírito e quais são os seus valores. É “top down”…ou se adapta ou não joga…Quem já pulou e cantou com o grito de que “Aqui tem um bando de loucos” sabe do que estou falando. Quem participou do minuto de silêncio pela morte do Sócrates entende…

O estádio inteiro de punhos cerrados em homenagem ao Sócrates.


Nesta hora não tem cor, não tem renda, pode ter ou não ter dente…A saída de ontem pelo portão principal do Pacaembu com a turma do Pavilhão Nove e da Gaviões foi uma aula avançada de etnografia. Todos diferentes, cada um vindo de um canto mas coesos: naquela hora éramos todos corinthianos, maloqueiros, sofredores….e felizes.

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