Annapurna, sua linda

A noite me traz lembranças de infância em Campos de Jordão. Opção cruel entre fazer xixi na cama ou levantar do sleeping bag em um frio de rachar e além de tudo ter que procurar não apenas o banheiro mas o meu bigulinho totalmente encolhido a -5C, em um lugar sem nenhum aquecimento.

Acordo antes do sol nascer. Se o céu estrelado é espetacular, o reflexo dos primeiros raios de sol batendo no topo das montanhas não fica devendo nada.

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Reta final até Annapurna

Começamos a andar. Hoje será rápido. São pouco mais de 2 horas de subida constante para chegarmos ao acampamento base. 4200m.

Uma curva para cá, outra para lá e Annapurna surge inteira na nossa frente. Linda, deusa, majestosa. Mais de 8000m, uma das dez montanhas mais altas do mundo. Avisto o memorial para todos aqueles que morreram tentando escalá-la. A montanha tão pacífica e soberana é aquela que proporcionalmente mais mata alpinistas. Desde 1950, quando foi escalada pela primeira vez, foram poucos os que tentaram atingir o seu cume (menos de 200), o problema é que cerca de um terço não voltou para casa. Para efeito de comparação, menos de 4% dos alpinistas que se aventuram no Everest acabam morrendo.

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Memorial para os alpinistas que morreram tentando escalar Annapurna

Estatísticas e métricas a parte eu sigo em frente, caminhando em direção a um glaciar que começa kilometros acima. Estou sozinho. Fico sentado observando. O silêncio é total, só quebrado pelo barulho do gelo que se parte em algum lugar desconhecido. O céu é azul de cartão postal. Sempre sonhei vir para um lugar assim. Acho que esta é a catedral da minha religião. Natureza bruta que te coloca em seu devido lugar, com a sua merecida insignificância. Fotos e vídeos não captam como o lugar é bonito. As nuvens começam a aparecer, lembrando que tudo aquilo também muda e que era hora de voltar. Fica na memória.IMG_3901.jpg

Soletre: Machhapuchhere

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Rumo a Machhapuchhere

O objetivo agora é chegar no Machhapuchhere Base Camp e a caminhada será morro acima. Embora Machhapuchhere, tenha o seu pico a 7000 m, seja uma montanha sagrada para os locais e portanto proibida para escalada, neste trekking ela é tratada como uma espécie de primo pobre do Annapurna. Oscar de montanha coadjuvante. Ninguém fala na coitada e ela deve ir para a terapia, sofrendo de complexo de rejeição. Como o nome da montanha é impronunciável, convencionou-se chamá-la de Fish Tail, ou rabo de peixe. O apelido deve ter vindo de algum mochileiro em um momento de delírio da altitude potencializado por alguma droga ilícita, porque de peixe a montanha não tem nada.

A vegetação que antes parecia a mata atlântica, vai escasseando e mudando de cor, primeiro aparece uma floresta de bambus, depois uma floresta de plátanos e finalmente apenas vegetação rasteira. A paisagem de montanhas é incrível e começa a ser companhia constante no trekking. Talvez deslumbrado demais, consigo a proeza de escorregar em uma pedra e mergulhar em um riacho gelado. Cena ridícula, perigosa e aquele pensamento de “o que estou fazendo aqui ?” veio a tona. Lembro de alguns amigos que desconfiados do meu estado atlético disseram que se encarregariam de buscar as minhas cinzas caso eu ficasse pelo Nepal…quase vieram.

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Banho não programado

Roupa trocada e seco, continuamos. A trilha é cada vez mais vertical e a caminhada vai ficando mais lenta também por conta da altitude. Estamos acima de 3000m. Meu guia me recomenda que eu tome chá de alho na próxima parada para ajudar na aclimatação. Não sei se foi isto o responsável por eu não ter sentido nenhum sintoma mas me garantiu um bafo de leão por horas.

Começa a garoar, a garoa vira uma neve leve e a montanhas ficam escondidas atrás das nuvens. Baixa um fog gigante.

Chego na hospedaria que já está a 3700m. Sou agraciado com um quarto a ser dividido com um senhor búlgaro que tem aparência de espião da KGB. Hora de esquecer as vaidades e observar em volta as montanhas soberanas. O visual é maravilhoso. O fog dissipa, o céu tem tantas estrelas como carros no trânsito de São Paulo e o nascer do sol ilumina os picos nevados. Estou onde eu queria estar.

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Uau…

Termas e Namaste

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As termas no Trekking – Ghorepani

Começo o dia descendo para a tal da terma que havia ficado pendente do dia anterior. O guia (o nome dele é Joti Lamsal, tem Facebook, está aberto a fazer amigos de todas as partes do mundo e se comunica bem em um dialeto que é uma mistura de inglês com nepalês), meu fiel escudeiro, vem comigo e  tranquilão, mergulha de cueca sem medo de ser feliz.Mesmo do outro lado do mundo e sem ninguém me observando, eu prefiro ser mais conservador e levo um shorts.

Recompostos, recomeçamos a trilha. Começar a fazer exercício depois de ter ficado em imersão em água morna, tipo frango na canja não foi das idéias mais iluminadas que já tive. Caminhada dura, muito, muito íngrime e eu naquela moleza pós banho termal. Cheguei ao Nepal preocupado com os sintomas da altitude, começo a sentir os sintomas da falta de comunicação e suas perspectivas. Quanto mais andamos em direção às montanhas mais escassas as chances de celular, wi-fi , eletricidade etc…será um detox. Na teoria estava preparado mas não lido muito bem com isto. Não há escolha. A paisagem é bonita, verde intenso, cachoeiras, rios cristalinos, macaquinhos saltitantes. Lembra a serra do mar. Faz calor e eu caminho de bermuda e camiseta.IMG_0914.jpg

O esquema de como será o trekking agora está ficando claro…cada um dos vilarejos por onde iremos passar tem algo para os turistas . Ou melhor, os turistas fazem com que exista o vilarejo. Na maioria dos casos, só abrem na temporada e são instalações bem rústicas onde você pode comer e dormir. O critério de reserva de acomodação é o seguinte: chegou primeiro pegou uma cama (eu disse cama, não um quarto). Se não  tiver lugar, caminhe por mais 2 horas e tente a sorte no próximo. Tem bastante gente na trilha, alguns como eu, subindo em direção ao Annapurna Base Camp e aqueles que já estão em viagem de volta. Você encontra pessoas de todos os cantos mas há uma alta concentração de coreanos e russos. É obrigatório se cumprimentar com Namaste, saudação local. Acho meio ridículo e respondo “Vai Corinthians…”. Quando a pessoa resolve colocar as mãozinhas em forma de emoji, eu subo um nível e respondo “Aqui é Corinthians, porra”. Todos sorriem e agradecem.

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Namaste ? Aqui é Corinthians

Depois de 7 horas em marcha chegamos na nossa segunda parada, Dovan. Já estamos mais altos – 2800m e o clima muda completamente. Faz mais frio, as árvores tem cores de outono. Pago US$ 2,00 por um banho quente – só veio a água, o calor ainda não chegou. Pés doem, formigam com a água gelada. Jantar é pontualmente às 6. Sensações estranhas. O esforço do corpo na maior parte do tempo bloqueia os pensamentos…de vez em quando porém, entro em um modo piloto automático e as idéias vão e voltam. Saudades e mais do que tudo a angústia de não poder se comunicar. A natureza me alimenta. O esquema perrengue de acomodação ainda me irrita.

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