Crocs Rocks

Descobri que uma das piores invenções da sociedade contemporânea está completando dez anos: os calçados Crocs.  Quando pensei que os crocodilos já estavam condenados a extinção, me dou conta de que estão mais vivos do que nunca e pior do que isto: comemorando ! A Crocs,que um dia foi uma empresa de um calçado apenas, hoje tem uma linha com mais de 300 produtos, para todas as épocas do ano e um faturamento superior a US$ 1 bi . Criou até o site crocsaroundtheworld.com para que os aficcionados possam narrar as suas experiências com a marca e celebrar a data.

Tenho certeza que daqui alguns anos, qualquer criança que olhar as suas fotos  da infância e constatar que os pais a obrigavam a usar Crocs ,terá uma reação de revolta parecida com a minha quando vejo as minhas imagens do passado, vestindo macacão de frentista de posto Shell e cabelo tigela, como se eu fosse uma versão miniatura dos Beatles.  É terapia na certa…

Para os adultos que um dia tomaram a decisão consciente, sem estarem sob o efeito de nenhuma droga ilícita, de comprar um par de Crocs para uso próprio, o flagelo será ainda maior. Se adquiriram Crocs forradas de pele de carneiro e colocaram pins…punição dupla e nem duas sessões de análise por semana ajudarão a livrá-los do trauma por  terem cometido um atentado contra a estética universal. 

Os argumentos de que Crocs são confortáveis e práticas não bastarão e um dia todos serão condenados aos mesmos pesadelos eternos que acometem aqueles que tem que ver suas fotos do passado com  mullets nos cabelos, vestindo blazer com ombreira, calças baggy ou calçando tênis xadrez. Um dia o bom senso vencerá e pelo bem da humanidade espero que as Crocs não comemorem muitas décadas de vida…

Olho maior que a barriga

Durante esta semana estou em um daqueles hotéis gigantescos, com restaurantes igualmente enormes e aqueles buffets de um kilômetro.  Talvez em um restaurante por kilo as pessoas fiquem um pouco mais inibidas em encher os seus pratos, temendo que a sua gula seja punida pelo seu bolso. Nestes hotéis, em que tudo está incluído, esta restrição não aparece e todos  desfilam orgulhosos com seus pratos cheios de comida empilhada, que ficam parecendo miniaturas das pirâmides do Egito.

Além da torre alimentar em forma de monumento , impressionam as misturas.  As pessoas iniciam sua romaria pelo buffet pela panela do arroz e vão agregando carne, peixe, frango, salada, verduras, massas e um pãozinho para completar. É verdade que a organização do buffet, linear, com uma surpresa a cada caçarola, não ajuda a composição harmônica do prato. Todos colocam um pouco de cada coisa em seus pratos instintivamente, sem grandes reflexões.  Formam-se pratos que são verdadeiros mosaicos alimentares  que devem gerar pesadelos em nutricionistas.

Ir andando e não se servir,  por sua vez,  parece gerar uma sensação de insegurança, como se todos estivessem  em um campo de refugiados na Etiópia, sem acesso a alimentos e condenadas a inanição permanente.  Com este temor, vários entopem os seus pratos com uma quantidade de comida capaz de alimentar um batalhão por uma semana.

No final, desta jornada gastrônomica sempre sobra comida…Para combater o desperdício, a solução deveria ser  pesar o que restou no prato de cada um e cobrar pelos excessos.  Simples como isto. O bolso sempre ajuda a combater os excessos do olho maior que a barriga…

Fora dos trilhos

Em semana de greve de metrô e caos no trânsito sempre surgem discussões intermináveis sobre a escassez e a qualidade dos transportes públicos no Brasil.  Tudo parece estar fora dos trilhos…as linhas de metrô não atingem um nível de cobertura minimamente aceitável, servindo apenas um pedacinho de  São Paulo. Quando parece que o metrô irá crescer, uma hora aparece um buraco sugador de carros, depois um superfaturamentozinho que embarga as obras e aí surge a gente diferenciada, que se une e prefere se manter dependente dos carros. Estamos algumas décadas atrasados neste assunto…Não sei se na minha encarnação serei capaz de conseguir chegar de metrô até o aeroporto de Guarulhos…quem sabe os meus netos…Não precisava nem ir de trem bala…me contentaria com um trem estilingue ou uma  maria-fumaça, mas até isto está difícil.

Enquanto isto, como estímulo para aguardar o tempo passar, vale a pena ver este flash mob no metrô em Copenhagen…Violinos,flautas…Ficaria feliz se tivéssemos algo parecido por aqui, desde que começássemos  pelos trilhos e vagões…o ritmo dos músicos deixamos para discutir daqui uns 40 anos (até lá, quem sabe o sertanejo universitário tenha desaparecido).  Será uma longa viagem até o futuro…

Salsinha e coentro

Esta semana tive que entrevistar diversas pessoas para uma série de posições diferentes. Candidatos de perfis distintos, com competências e experiências variadas  e alguns com virtudes e defeitos bastante claros. Há um grupo de pessoas no entanto, que me intriga por se  encaixar em um perfil complexo: os medianos. São aquelas pessoas que se destacam por não se destacarem em absolutamente nada. Tem um perfil morno, sabor de chuchu e com isto não geram nem paixão nem tampouco grandes antipatias.  Falam corretamente o que os entrevistadores querem ouvir,  não derrapam, tem  experiência profissional mas não se posicionam e não conseguem brilhar em absolutamente nada.  São médios em tudo e vão sobrevivendo em função das rejeições que os demais candidatos causam ao longo do processo.

Para quem não é muito acostumado com o mundo corporativo, diria que estas pessoas são mais ou menos como a salsinha que se coloca para decorar o prato…não muda o gosto da comida, não agrega nada mas ninguém se incomoda e ela vai ficando…é muito diferente de um coentro por exemplo…capaz de gerar repulsas e paixões em função de sua personalidade. O pior é que os candidatos salsinha quando competem com um candidato coentro, daqueles que provocam indigestão na área de recursos humanos, tem grandes chances de vencer os processos, mesmo com uma personalidade sem graça, bege, da cor das divisórias. Se depender de mim, entrarão em extinção…hoje consegui erradicar uns dois salsinhas que estavam caminhando para a glória . O mundo corporativo precisa de mais personalidade, cor e de tempero…chega de salsinhas, chega de bege.

Papo cabeça

Em alguns eventos sociais nos últimos dias tenho identificado a proliferação de pessoas que adorariam ser classificadas como intelectuais. Querem fazer isto transformando qualquer conversa mundana em um papo cabeça…Você quer conversar sobre o Chelsea, campeão da Champions League, e quando vai ver o papo já derivou para o papel do futebol como elemento manipulador das massas. O assunto é cinema ? Alguém fala sobre “Os Vingadores” e  a pessoa resolve discorrer sobre o filme paquistanês em exibição no Cine Sesc. Falar sobre livros ? Nem pensar…O cidadão tentará te humilhar dizendo que na visão dele o jovem escritor etíope é barbada para o Prêmio Nobel de Literatura daqui a 2 anos (avalia que o etíope em questão ainda não atingiu o apogeu de sua maturidade criativa para merecer o prêmio em 2012). A postura é cheia de prepotência, querendo reforçar que existem os intelectuais como ele, membros de uma casta superior e os plebeus, simples mortais (no caso, você ). Realmente existem pessoas com o intelecto privilegiado  mas a minha estatística (viciada, é verdade) mostra que os verdadeiros intelectuais são aqueles que menos querem divagar em papos cabeça, ou melhor: sabem a hora e o local certo para fazerem isto. São diferenciados não apenas por verem filmes , lerem livros e ouvirem músicas que a grande massa não lê (isto é fácil !) , mas sobretudo porque conseguem transmitir o seu conhecimento e sua cultura de uma maneira acessível e simples, gerando reflexão e admiração. Hans Rosling é um estatístico sueco que consegue fazer isto…em 50 segundos, no meio da rua, apenas com palavras e com algumas pedrinhas .

Lenço branco

Estava dirigindo, trânsito engarrafado, motoboys barbarizando e de repente vejo surgir na janela do ônibus ao meu lado, a mãozinha do cobrador, me informando que eu seria gentilmente fechado pelo nobre coletivo. O gesto era suave, um leve balançar de mão direita, como se estivesse de posse de um lenço branco em uma cerimônia de despedida. Fiquei pensando se aquilo não era uma alucinação. Estamos em 2012 , todos os veículos  são dotados de pisca pisca, ninguém mais paga passagem de ônibus em dinheiro e ainda se o fizesse, poderia fazê-lo diretamente ao motorista. O fato é que os cobradores sobrevivem. Se reinventam…ajudam pouco na cobrança de passagens mas se transformaram em uma espécie de co-pilotos ou navegadores dos motoristas de ônibus . É uma tripulação a bordo ! Devo estar subestimando as outras virtudes dos distintos cobradores …de repente, se os passageiros não gostarem das habilidades do motorista ou se o condutor tiver algum contratempo, um mal súbito, convoca-se imediatamente o cobrador para asumir o volante . Ou pode ser que  esta seja a estratégia de Recursos Humanos das companhias de ônibus, treinamento on the job para sucessão de motoristas…um back up plan imediato, um banco de reservas  compostode cobradores. Sei lá, sei que se algum dia a minha profissão também ficar ameaçada de extinção, gostaria de ter a mesma capacidade de sobrevivência e reinvenção dos cobradores. Vou começar a treinar acenos pela janela desde já.

Express kidnapping and ATM blasting

Depois de uma semana tomada por jantares corporativos e jogos críticos da Copa Libertadores, finalmente o blog retoma o seu ritmo de produção. A freqüência  destes jantares, muitas vezes com platéias repetidas, esgotou minha pauta de assuntos e curiosidades sobre o Brasil para entretê-los. Falar sobre o tamanho da população japonesa em São Paulo, conforme já descrevi em outro post, não foi suficiente. Constatei que o tema triste mas que fascina os gringos é a violência na cidade. Eles já chegam procurando histórias sobre o assunto…Começam perguntando se assaltos ocorrem por toda a cidade, se o hotel deles está em uma região perigosa, relatam coisas que ouviram de outros viajantes.

A catarse começa  quando descrevo o que é um “express kidnapping” , o transe prossegue com um breve relato sobre o processo de  “ATM blasting”   mas o ápice de fascinação é saber que algumas pessoas na mesa possuem carros blindados. Explicar para um canadense de Halifax que cidadãos normais, funcionários da mesma empresa que ele e que não são o Obama ou o Bento XVI, dirigem “armored cars é uma experiência antropológica. Ele não acredita…pede detalhes… e tenho certeza que saiu do jantar com a convicção que veio visitar o velho oeste, terra sem lei. Falei sobre o Brasil que cresce, que a nossa economia é a sexta do mundo, que seremos sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas, que temos praias lindas, riqueza cultural, florestas , um povo legal, uma democracia consolidada  mas tenho que admitir que o “awareness” do assunto violência foi bem maior. Triste mas real.

O Bom Pastor

Hoje ao assistir a corrida de Fórmula 1 e ver a vitória do venezuelano Pastor Maldonado no GP da Espanha, fiquei feliz pelo cidadão. É sempre legal ver algum novato ganhar pela primeira vez.  Durante a prova torci para  ele conseguir segurar o Alonso … Torcer pelo mais fraco é das coisas que mais dá prazer no esporte (embora se eu fosse  ser consistente com os mais fracos, deveria abrir um fã-clube coletivo para o Massa e para o Senna mas por eles, confesso que não está dando nem para torcer…). Como o milagre foi grande demais, durante a festa da equipe, pegou fogo nos boxes da Williams…Foi a famosa alegria que durou pouco…

O que não gosto nem de pensar é no uso político que farão da vitória do cidadão quando ele aparecer em Caracas. O nosso bom Pastor, corre patrocinado pelos muitos dólares da PDVSA, a companhia petrolífera estatal da Venezuela e é, nada mais nada menos,  que garoto propaganda de Hugo Chavéz. Misturar dinheiro público com esporte para mim é uma combinação bem esquisita. Nunca entendi nadadores patrocinados pelos Correios ou  judocas com quimonos de companhias elétricas . É monopólio, para que precisa de patrocínio ?  Com o Maldonado,  já consigo imaginar o desfile em carro aberto, o discurso em um estádio, Chavéz ao seu lado…a pregação do Pastor…Fora o rapaz, o governo da Venezuela patrocina outros 6 pilotos que estão na GP2, a categoria de acesso à Fórmula 1. Neste ritmo em breve teremos as 24 horas de Maracaibo ou as 500 milhas de Los Roques nos calendários automobilísticos mundiais…Valeu pela vitória mas confesso que seria mais legal se parasse por aqui, sem exploração messiânica do Pastor, mas pelo que aconteceu quando ele ganhou o campeonato da GP2, podemos esperar uns 3 dias de feriado nacional na Venezuela…

Bife com batatas

Ontem fomos jantar no L’Entrecote d’Olivier , mais um daqueles restaurantes que tem apenas um prato. Você vai lá e o máximo que faz é escolher a sua bebida e o ponto de sua carne. O resto está definido: salada verde, o entrecote (um bife com grife) e as batatas fritas. Não é muito diferente de ir ao Bolinha com sua feijoada ou a outros lugares que fizeram sua fama baseados em um prato só, como o Bar do Alemão com seu Bife à Parmeggiana. Sempre fiquei pensando na moleza que é administrar este tipo de restaurante em que todo mundo pede a mesma coisa: fornecedores definidos, compras em escala, giro mais rápido de mesa, menos treinamento dos garçons. Deve ser o sonho de qualquer dono de restaurante.

Durante o jantar  no entanto ,tive um insight na outra direção: como  deve ser difícil gerir a frustração do chef…O coitado não pode criar nada, não está autorizado a colocar sequer uma salsinha para enfeitar o prato e se o restaurante sobreviver, tem uma perspectiva de ficar fritando bifes com batatas pelas próximas décadas . Experiências em seu currículo ? Fritar bifes com batatas…Fiquei pensando no Olivier tentando motivá-lo…ninguém frita bifes como você ! A sua batata frita é a melhor do mundo, continue assim ! E os feedbacks ? Sinto que você pode melhorar no seu bife mal passado…ajuste um pouco mais a espessura da batata para que ela fique mais crocante… Deve ser um tédio… o coitado do chef tem que fazer produção industrial na sua cozinha e absolutamente ninguém reconhece as suas potenciais virtudes de inovação. Sensação parecida deve ter o diretor de arte premiado com leões em Cannes fazendo campanhas de dia das mães para as Casas Bahia…um verdadeiro choque de realidades em que a criatividade não tem muita vez. Ah, o jantar ? Comida honesta, mas a companhia estava bem melhor que o bife com batatas.

“Imagem e ação” virtual

O “Draw something” já se transformou no aplicativo mania dos últimos meses para Ipads e Iphones… Milhões e milhões de downloads nas últimas semanas e consequentemente, milhões de jogadores viciados. Para quem vive em outro planeta, o “Draw Something” é um tipo de “Imagem e Ação” virtual, em que você tenta advinhar o desenho feito na tela por um parceiro virtual. Na medida em que você e seu parceiro acertam, vão ganhado pontos que permitem a compra de novas cores e uma sotisficação maior dos desenhos. Você pode jogar e interagir com seus contatos, a quem se conecta via e-mail e Facebook, ou com estranhos espalhados por todos os cantos do mundo.

Os desenhos e a maneira de jogar falam muito sobre como são as pessoas na “vida real” e assim como na vida, no “Draw Something” se faz uma escolha dos parceiros com os quais você gosta de se relacionar. A vantagem do jogo é que é fácil romper relações…No meu caso, quando jogo com alguém que escreve a palavra ao invés de tentar desenhá-la, está decretada a sentença de morte…Eu erro de propósito e ainda coloco na minha resposta palavras meigas na tela. O pior de tudo é quando você faz um desenho que acredita ser espetacular , padrão Leonardo da Vinci, e que tem certeza que até seus sobrinhos de dois anos acertariam…algumas pessoas erram e fico com uma enorme vontade de aplicar um teste de QI online no meu oponente. Delicadamente o elimino de minha lista de oponentes…

Existem porém, as relações duradouras, em que você vai ganhando confiança e em que os estilos parecem combinar. Não conseguir advinhar o desenho e errar, te força a começar do zero depois de dezenas de rodadas. Algo deu errado…mas como a “amizade” é “velha”, vale a pena insistir e recomeçar em um exercício de tolerância e compreensão. Vamos ver quanto tempo a moda dura, mas confesso que o “Draw Something” tem sido um ótimo companheiro e definitivamente tomou o lugar das leituras que eu fazia no banheiro.

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