Macarronada

massas_macarronada_da_mamaQuando você vai a um açougue sabe que pagará mais caro por um pedaço de carne macia e sem gordura. Existe até um senso comum de nomear a peça como sendo de primeira ou de segunda categoria…Você não paga pelo coxão duro o que paga por um filet mignon e os destinos de ambos nas panelas são bastante diferentes. O seu paladar reconhece esta nobre segmentação bovina e indo até um pouco além do universo dos ruminantes, há até um dito popular que diz que não se deve comprar gato por lebre. Churrasquinho de gato é facilmente reconhecível…

Mas e o glorioso macarrão, de origem chinesa mas verdadeiro orgulho mamas e nonas ?  Alguns fatos moldaram a minha percepção sobre o nobre alimento e distorcem um pouco o meu julgamento:  a) era a comida típica de minhas viagens de estudantes quando todos precisavam se alimentar e gastar pouco; b) era um elemento que aparecia na mesa apenas quando minha mãe não queria ter muito trabalho na cozinha; c) era a versão com sotaque italiano do “colocar água no feijão” que eu encontrava na casa de amigos, ou seja aquela travessa cheia de spaghetti pronta para alimentar um batalhão (incluindo os visitantes de última hora). 

O que diferencia um fantástico macarrão de um macarrão de segunda ? A qualidade da farinha ?? Para mim macarrão é macarrão e pronto.  Ando um pouco assustado em  me deparar em restaurantes com pratos de pasta (chamar o macarrão de massa também ficou obsoleto) que se aproximam velozmente dos três dígitos, em ritmo inversamente proporcional ao seu tempo de cozimento e complexidade de preparo. Muda a forma (chatinho, gravatinha, parafusinho, tubinho) , muda a cor (tem aqueles tingidos de espinafre e beterraba) mas o produto final é rigorosamente igual. Macarrão vai para a panela e fica pronto em menos de dez minutos . Tenho uma tese que garante que o lugar certo de macarrão é em fast food, sendo pago com ticket, modelo Spoletto. Não sou adepto da argumentação dos restaurantes italianos chicosos de que o “nosso molho é feito com tomates frescos e selecionados”. O molho é verdadeiramente melhor mas Isto só  ajuda a não sentir a azia que eu sentia com as latas de Pomarolla…o macarrão é igualzinho ao do fast food…

Sabor de infância

images-2 imagesNeste final de semana estive em uma festa de aniversário. Está certo que rever vários conhecidos foi gostoso e trouxe boas lembranças, mas o grande reencontro do dia foi com um sujeito que eu julgava mais extinto do que os dinossauros: a bala de coco. Junto ao bolo de chocolate, repousavam balinhas brancas que eu não via há décadas. Pensei que fosse uma miragem, mas o sabor daquela mini bomba calórica não deixava nenhuma dúvida. Em que momento da história, as balas de coco, aquelas  embrulhadas em papel crepom colorido e cheias de franjas, foram abandonadas ? Não existia festa de aniversário sem bala de coco…Qual foi o motivo ? Será que alguma promoter engasgou com uma ? Será que contém glutén ?  As “personal party organizers” de hoje em dia mataram um pedaço da minha infância…Trocaram o coitado do coco, elemento de resistência nordestina e ícone da vida tropical, pelos indefectíveis cupcakes . Nada contra, mas eu não quero comer cupcake ! Cupcakes não te propiciam aquela maravilhosa sensação de encher os bolsos malandramente na saída da festa e achar que ninguém está olhando. Isto é algo que as balas de coco sempre me deram (de vez em quando eu também tenho esta sensação  com os bem casados, mas festas de casamento estão escasseando hoje em dia. As pessoas só vão morar juntas e diminuíram o mercado de bem casados)…Estou órfão deste pequeno prazer. Mesmo depois de dois ou três dias , a cada balinha comida, eu tinha a sensação de que a festa não tinha acabado. No próximo protesto que tiver, eu já tenho a minha causa: irei às ruas para defender a bala de coco contra o imperialismo do cupcake !images-1

Hamburger plácido do Ipiranga

IMG_1988São Paulo se orgulha de ter milhares de restaurantes que oferecem todos os tipos de comida para todos os bolsos. Quando penso em quais deles eu frequento, chego a conclusão que o meu hábito se sobrepõe a abundância de oferta . Conto nos dedos das mãos os lugares em que vou. Coloquei como meta fugir por um tempo do circuito gastronômico de dia a dia e do mundinho Jardins. Garçons modelo, com barbinha rala, tatuagens de caveira e camisetas pretas estão me dando uma certa preguiça. Nada de preconceito..É uma fase transitória…um dia eu volto…
IMG_1989O primeiro passo foi dado. Finalmente fui me encontrar com o hamburger do Seu Oswaldo, que fica no bairro do Ipiranga. O lugar não faz concessões a Milk Shakes, batatinhas com queijo cheddar e nada que passe perto de ser qualificado como gourmet. Você vai lá para comer o hamburger e ponto final. Ambiente simples,esquema balcãozão. Fila de espera grande… Nada de hostess com senhas eletrônicas que vibram e piscam como árvores de natal. Te chamam no grito mesmo, afinal estamos no Ipiranga e efetivamente o ambiente parece estar igual desde os tempos de Dom Pedro. E a comida ? O X-Salada tem o charme de substituir rodelas de tomate por um molho com tempero caseiro…Meu sanduíche veio um tanto esmagado  e precisei comer dois para compensar o tamanho microscópico. Foi Gostoso. Mas acho que melhor do que o sabor foi a experiência. Valeu o programa.IMG_1997

Menu confiança

Cardápios tem sido uma coisa menos complexa do que eu imaginava aqui no Japão. Não são todos os restaurantes que possuem versão em inglês mas todos tem uma vitrine que coloca em exposição as réplicas dos pratos oferecidos. Não sei que material eles usam nas réplicas mas é uma arte ! Certamente devem existir milhares de “maqueteiros de comida” e do jeito que as coisas são por aqui, devem levar uns quinze anos de estudos até serem capacitados. O peixe parece que tem mesmo escamas, o tempurá fica com casquinha crocante e até nos restaurantes que servem comida ocidental você encontra réplicas de pizza com borda crocante e queijo derretendo. O fato de ver os pratos porém, não significa que você tenha a menor idéia do que é aquilo, o que comprova que o cardápio é de fato irrelevante…Sopas misteriosas, vegetais que você nunca viu, uma quantidade de peixes e frutos do mar que nem o Jacques Costeau deve ter encontrado…o cardápio é mesmo um detalhe. Geralmente você escolhe o que te parece mais apetitoso e manda vir, por mímica mesmo. É um “menu confiança” atrás do outro.

Manual do sushi

Comer aqui no Japão tem os seus desafios. Esqueça algumas das idéias que você tem sobre restaurante japonês com esteira rodando, shimeji na manteiga , duplinhas de Luizinho com cream cheese e banana caramelada com sorvete de creme. Algumas constatações: não pense que você irá encontrar sushi em cada esquina…Cada restaurante é especializado em um tipo de comida. Tem o restaurante de tempurá, de yakisoba , de noodles e assim por diante. Você não encontra sushi no restaurante de noodles, assim como não come feijoada na churrascaria. A lógica é a mesma, embora eu nunca tivesse pensado nisto.

Esqueça a sua preferência pelo salmão. Salmão por aqui está para o sushi assim como o acém está para os apreciadores de carne no Brasil…Ou seja: é tratado como ingrediente de terceira categoria, inexistente nos restaurantes. O rei dos mares e das mesas por aqui é mesmo o atum que dependendo do seu tamanho chega a ser vendido por vários milhares de dólares no mercado de Tokyo. Pedir salmão é equivalente a comer pizza de frango com catupiry. É uma espécie de crime contra o patrimònio…

Nem pense em mergulhos acrobáticos de seu sushi em piscinas de shoyu. Esqueça também pedir mais raiz forte para incrementar o sabor de seu sushi. Ela já foi colocada na preparação do prato e acredite: o sushiman entende disto.. A mensagem é que o sabor do peixe deva prevalecer e ele deve ser a estrela da festa, não o molho de soja ou outros ingredientes criativos como maionese ou manga. Um último comentário: peça um barco cheio de sushi e sashimi, o que nós chamamos de “combinado” e se prepare para afundar a sua conta bancária. O barquinho será o Titanic de seu bolso. O sushi custa caro…você sentirá saudades de conseguir pagar a conta de sua comida japonesa com o ticket refeição…

Yuko,Waza-ari e Ippon

O mundo já está em ritmo de Olimpíadas de Londres. Primeiro veio a abertura..horas e horas de desfile de delegações.  Serviu para ampliar o meu repertório geográfico e ter enormes vantagens competitivas caso eu jogue “Stop”, afinal Quirguistão, Tadjiquistão e Palau  certamente valerão dez pontos pois praticamente ninguém os conhece .  Cerimônia de abertura de Olimpíadas para mim está na mesma categoria de desfile de escola de samba ou musicais da Broadway . Ou seja: serve para você ter assunto durante o jantar em família com a sua avó mas se você tiver alguma coisa melhor para fazer na hora que estiver passando na TV, faça.

Depois da festa, ontem finalmente começaram as competições e a participação do Brasil. A judoca Sara Menezes avançava e resolvi acompanhá-la em suas lutas. Foi muito interessante…Fiquei feliz por ela ter ganho a sua medalha de ouro mas tenho que admitir que não tenho a menor idéia de porque ela foi a vencedora. Entender o judô para mim foi um enigma digno de esfinge. As lutas levam cinco minutos. Durante mais ou menos quatro minutos e cinquenta e oito segundos a única coisa que acontece é uma lutadora ficar puxando a manga do judogui da outra (japonês para leigos: não, o traje dos judocas não se chama kimono… kimono quer dizer apenas “roupa” enquanto judogui quer dizer “roupa para a prática do judô”). Elas se agarram, a faixa na cintura se solta e os cabelos ficam todos desarrumados. Fica parecendo um duelo de descabeladas, Jumas Marruás sobre o tatame. O juiz para a luta, as lutadoras se arrumam e segundos depois voltam a se atracar . De repente alguém cai…se caiu de lado é uma coisa, se caiu de costas é outra e se caiu de cabeca não é nada…De uma hora para outra cartão de advertência para uma das lutadoras. Será que é porque o cabelo ficou desarrumado ? A faixa ficou fora do lugar ? Xingou o juiz ? Sei lá. Foi complexo…

Para o  espectador ignorante como eu ,Yukos, Waza-aris e Ippons foram como aquelas primeiras visitas a um restaurante japonês, tentando diferenciar sunomono, harumaki e misoshiro. Você sabe que são coisas completamente diferentes mas não as reconhece… sabe apenas que é melhor ter confiança no garçom do que tentar aprender…Você não tem idéia  do que comeu mas gostou da experiência…com o judô e seus golpes tive uma sensação bem parecida. Incríveis yukos (?), waza-aris (??) e ippons (???). Ouro para a Sara. Isto é o que importa…

Sorvete Napolitano

Durante um almoço em família  me reencontrei com um clássico da minha infância, o sorvete napolitano. Para quem não sabe, o sorvete napolitano vem em um pote, daqueles de 2 litros, com três sabores: creme, chocolate e morango. A dinâmica de consumo parece que  se manteve intacta nos últimos trinta anos….todas as crianças continuam se servindo gulosamente dos sabores creme e chocolate e o sorvete de morango sobrando, abandonado como um patinho feio do mundo dos gelados.

Como adulto consciente, preocupado com o desequilíbrio social e vendo o preconceito imperar naquela mesa, resolvi intervir. Sorrateiramente, enquanto distraía as crianças, passei a colocar nas suas taças, uma bolinha de sorvete de morango, camuflada, cercada por sorvete de creme e chocolate. Acreditava que estaria contribuindo com o bem estar da sociedade ao agir, ainda que veladamente, a favor da diversidade. Rapidamente porém, o meu plano de dar vazão ao estoque de morango e desacelerar o consumo dos outros sabores, se mostrou infrutífero. As crianças identificaram a trapaça e rejeitaram ainda mais o coitado do sorvete de morango. Por alguns instantes procurei ser solidário ao sabor morango…ele deve se sentir mais ou menos como a irmã da Gisele Bunchen. Todos dizem que é parte da família, que o Napolitano não existiria sem ele, mas na hora do vamos ver, as preferências aparecem e o coitado vai pouco a pouco se derretendo, envergonhado e abandonado, com uma baixíssima auto-estima. Para recuperá-lo estou pensando em expor os meus filhos a um pote de sorvete de Passas ao Rum…aí sim, eles verão que a discriminação contra o sorvete de morango é descabida e que existe coisa bem pior no mundo.

Olho maior que a barriga

Durante esta semana estou em um daqueles hotéis gigantescos, com restaurantes igualmente enormes e aqueles buffets de um kilômetro.  Talvez em um restaurante por kilo as pessoas fiquem um pouco mais inibidas em encher os seus pratos, temendo que a sua gula seja punida pelo seu bolso. Nestes hotéis, em que tudo está incluído, esta restrição não aparece e todos  desfilam orgulhosos com seus pratos cheios de comida empilhada, que ficam parecendo miniaturas das pirâmides do Egito.

Além da torre alimentar em forma de monumento , impressionam as misturas.  As pessoas iniciam sua romaria pelo buffet pela panela do arroz e vão agregando carne, peixe, frango, salada, verduras, massas e um pãozinho para completar. É verdade que a organização do buffet, linear, com uma surpresa a cada caçarola, não ajuda a composição harmônica do prato. Todos colocam um pouco de cada coisa em seus pratos instintivamente, sem grandes reflexões.  Formam-se pratos que são verdadeiros mosaicos alimentares  que devem gerar pesadelos em nutricionistas.

Ir andando e não se servir,  por sua vez,  parece gerar uma sensação de insegurança, como se todos estivessem  em um campo de refugiados na Etiópia, sem acesso a alimentos e condenadas a inanição permanente.  Com este temor, vários entopem os seus pratos com uma quantidade de comida capaz de alimentar um batalhão por uma semana.

No final, desta jornada gastrônomica sempre sobra comida…Para combater o desperdício, a solução deveria ser  pesar o que restou no prato de cada um e cobrar pelos excessos.  Simples como isto. O bolso sempre ajuda a combater os excessos do olho maior que a barriga…

Posts anteriores

Enter your email address to follow this blog and receive notifications of new posts by email.

Rumo a um bilhão de hits

  • 70.324 hits

Páginas mais populares

Jogo do banquinho
As últimas campanhas da Coca Cola continuam com gás ?
Mensagem ao Ursinho Puff
março 2021
S T Q Q S S D
1234567
891011121314
15161718192021
22232425262728
293031  
%d blogueiros gostam disto: