Arquivo da categoria: Viagem
Deserto molhado
Isto foi o que sobrou do dia…saber que o flamingo mede 1,20 m , pesa 1,5 Kg e vive por até 30 anos. Esperava mais do primeiro contato com o deserto (ou ex-deserto).
Janelas do mundo
Sempre que viajo a trabalho por aí, tenho o hábito de abrir a cortina do quarto do hotel, tirar uma foto da vista e mandar para a minha mulher. Ela faz a mesma coisa. É a maneira que encontramos de nos aproximarmos, mostrar ao outro onde estamos, em que lugar do mundo viemos parar e emprestar os nossos olhos para quem gostaríamos que estivesse conosco. Não importa se a vista é bonita ou feia, isto não é importante para o nosso pequeno ritual.
Hoje, entrei no meu quarto de hotel em New Jersey e lá fui eu abrir a cortina e olhar pela janela. Quando puxei a cortina dei de cara com a vista da construção da nova torre do World Trade Center, do outro lado do rio. O prédio que terá 104 andares, está com 90 pisos construídos e já se destaca muito no horizonte de Nova York. Ao invés de ver o futuro, confesso que vi o passado. Mesmo depois de quase 12 anos, olhei pela janela e não vi um prédio novo subindo…Vi o antigo desabando. Não tive vontade de fotografar, não tive vontade de lembrar. Mandei uma foto tirada meio de lado, que mostra um singelo supermercado que fica na direção oposta. Menos opulência, menos pensamentos ruins, mais acolhimento, mais cara de casa.
Hamburger socializado
Quem conhece Nova York sabe que existe uma disputa sobre qual o melhor Hamburger da cidade. Nada diferente da disputa por quem é a melhor baiana de Acarajé em Salvador, qual o melhor pastel de feira de São Paulo e qual o melhor bolinho de bacalhau do Rio de Janeiro. Tem um lugar dos cotados, que se chama Shake Shack que eu gosto bastante. Muito menos pelo Hamburger em si e mais pela experiência, afinal o Shake Shack é um quiosque no meio de uma praça. Alivia um pouco a sensação de culpa pelas calorias você poder comer o seu Hamburger a céu aberto. Seria bucólico não fosse pelo ataque de esquilos e pombas que sofri hoje. Os animais também estavam interessados em degustar o hamburger e socializar minha comida. Parte do tomate do meu cheeseburger foi furtado por um objeto voador não identificado e tive que me proteger de esquilos com olhar ameaçador que miravam minha batata frita. Eram uma espécie de Tico e Teco possuídos…
Confesso que já tive experiências gastronômicas mais divertidas e menos participativas. Valeu para matar a saudade mas da próxima vez voltarei a procurar ambientes mais tradicionais, mesmo que a culpa pela comida trash aumente.
A aranha e a cigarra
Tenho enormes dificuldades com os espetáculos da Broadway. Respeito as super produções mas confesso que a cantoria dos musicais não é exatamente a coisa que mais gosto. No passado fui até rever Fantasma da Ópera para ver se eu nõo havia entendido ou se eu era chato mesmo. Concluí que eu e o Fantasma tínhamos mesmo incompatibilidade de gênios…
De passagem por NY fui assistir ao mais recente sucesso da Broadway: Homem Aranha. Os motivos para tentar superar meu preconceito foram as relatadas performances acrobáticas do super herói que voa pelo teto de todo o teatro e a trilha sonora feita pelo U2. Meu veredicto é que enquanto o Homem Aranha é aranha, o espetáculo é realmente legal, com voos pelos três pisos do teatro e telões com imagens de alta definição que fazem você pensar que está em um show de uma banda de Rock. O problema é quando a aranha resolve virar cigarra e cantar. Tem pelo menos meia hora de cantoria do personagem Peter Parker para a Marie Jane que são soníferos de primeira qualidade. Vou minimizar e não dar muita ênfase a questão do figurino do vilão Green, que parece ter sido inspirado na Cuca do Sítio do Picapau amarelo (quem assistir concordará comigo !).
Estou atualizado, tenho assunto com todos os brazucas que também estão por aqui mas a missão Broadway do ano,está cumprida, sem perspectivas de repetição futura.
Publicado em Entretenimento, Viagem
A dura vida de uma mula…
Sempre que alguém que conhecemos vai morar fora do Brasil temos algumas reações meio padronizadas. Se for alguém de quem gostamos, queremos que a pessoa volte logo, que tenha sucesso na sua experiência, sentimos saudades e queremos ir visitar (desde que o sujeito tenha ido morar em algum lugar legal, é claro). A pessoa está longe mas quando reencontramos parece que o tempo não passou e as história da vida são retomadas imediatamente, quase sem rupturas, apesar dos milhares de Km de distância.
Se for alguém por quem não temos muita simpatia, torcemos por invernos gelados com neve e escorregões no gelo, para que a Globo Internacional e o PPV do Campeonato Brasileiro não funcionem, para que os vizinhos sejam cruéis e reclamem de tudo…Não é um sentimento muito bonito, mas enfim, esta é a vida.
Quando além de gostarmos da pessoa,temos intimidade, o próximo passo é transformar a sua casa em um entreposto de entrega de mercadorias. Dizemos que são coisas pequenas, que não incomodam e para sermos educados, perguntamos se ele se incomodaria de trazer na próxima viagem ao Brasil. A criatura fica institucionalizada como uma espécie de FedEx doméstico, ou em português mais coloquial,uma “mula”, trazendo as encomendas da turma e também fazendo favorzinhos na volta, levando coisas para abastecer algum conhecido da comunidade brazuca.
Não é fácil a vida da “mula”…Se for uma “mula” vivendo nos Estados Unidos, sempre que mandamos alguma coisa para a casa do cidadão, ele como punição adicional ainda é adicionado ao mailing de catálogos do fabricante do produto que mandamos entregar. Ou seja, mesmo depois da entrega feita, a nossa “mula” querida, continua conversando com o serviço prestado ao abrir a sua caixa de correspondência. Talvez seja a nossa forma de ficar mais perto e fazer com que a pessoa não esqueça da gente… 
PS: Este post não é baseado em fatos reais. É pura ficção
Fatos e fotos
Esta semana a Kodak entrou em concordata para tentar escapar da falência. Difícil associar a Kodak ao mundo digital, impossível não lembrar das caixinhas amarelas, com filmes de diferentes poses e diferentes asas. Os únicos felizes devem ser os professores de Harvard que certamente já estão produzindo os seus cases e livros sobre a Kodak, falando dos perigos da arrogância do líder de um segmento não entender que o mundo está mudando e entrar em extinção. Tudo lindo de se dizer, especialmente depois que já passou…Já foi assim com a Olivetti, a Atari e outras mais…Enfim, com a Kodak ou sem a Kodak, as fotografias são uma chance de se perpetuar a história, de se transportar pelo tempo registros e de se entender melhor outras épocas. Esta semana a National Geographic (www.nationalgeographic.com) divulgou novas fotos da expedição do comandante Scott na sua fracassada tentativa de ser o pioneiro na conquista do pólo sul. As fotos tem exatamente 100 anos mas a força e a nitidez das imagens são tão grandes que parecem ter sido publicadas ontem no jornal.Você se sente dentro da expedição e compartilha um pouco de uma das histórias mais incríveis do século passado e que assim como no caso da Kodak, envolveu subestimar o novo mundo, não estar preparado para a mudança. Tudo fácil de falar e difícil de praticar.
Reflexões de administrador a parte, ainda bem que as memórias que as fotos nos trazem persistirão para sempre. As fotos serão bem maiores do que os fatos ! Viva a Kodak e seu legado! Viva Scott e sua fantástica e trágica expedição.


Publicado em Mundo de Dilbert, Viagem
Histórias de avião
Eu pensava que já tinha passado por quase tudo em minha vida como passageiro de avião. Já tive mala perdida, avião arremetendo, voo cancelado, voo perdido, overbooking, upgrade e a cereja do bolo que adoro contar em mesas de bar: abandonei um avião em evacuação de emergência, com direito a descida de escorregador e corrida pela pista com medo de explosão. Esta semana ganhei mais uma história…tudo começou quando em função do voo lotado, fomos remanejados para a classe executiva da TAM de Manaus para Guarulhos (nota para aficcionados: a TAM utiliza um A330 nesta rota, por isto existe a classe executiva). As crianças já martelavam todos os botões disponíveis, fascinados com a perspectiva de voarem quase na horizontal, pulando, jogando e assistindo Harry Potter ao mesmo tempo. Eis que um passageiro resolveu se indignar com os upgrades dados a nós e a outros passageiros. Dizia que havia pago R$ 1342,00 (falou tanto com o pessoal da tripulação que memorizei o número) para voar naquela classe e que aquilo era injusto, pois os outros estavam ganhando aquilo de graça. Esbravejou, levantou, bufou com um comissário, esperneou com duas aeromoças e finalmente retornou ao seu assento. Para mim o desabafo estava concluído e em breve partiríamos.
Passam-se 10 minutos e dois agentes da polícia federal, a pedido do comandante, entram no avião para retirar o reclamão. Ele até tentou dizer que não era bem assim, apelou para o “deixa disso”, disse que tinha sido mal compreendido, que estava apenas reclamando dos seus direitos e por fim tentou o nobre golpe da carteirada, dizendo que era o projetista da nova ponte de Manaus (realmente não me pareceu um grande argumento mas que ele tentou, tentou).
Não teve conversa. Expulsão sumária do avião por destrato a tripulação e meia hora de atraso…Nem reclamei…voei com mais espaço, assisti a cena toda de camarote e ganhei uma nova história de avião para a coleção.
Memórias do encontro das águas
Uma das coisas mais impressionantes da visita a Manaus é o encontro das águas dos rios Negro e Solimões. São vários kilometros em que você percebe claramente os limites de cada um dos rios pois as suas águas não se misturam. Velocidades diferentes, densidades diferentes, temperaturas diferentes fazem com que a separação dos rios seja um espetáculo visual, algo como vinagre e azeite em escala monumental. 

Para mim no entanto, a parte mais bonita do encontro das águas foi ver como meus filhos quiseram registrar esta lembrança para compartilhar, contar e mostrar para as pessoas na volta. Cada um com um potinho de shampoo vazio nas mãos, trazido do hotel, se esticando do barco e coletando a água do local onde os rios se encontravam. Queriam reproduzir no potinho o que estavam vivenciando e levar esta sensação para quem não estava com eles. Mais do que qualquer piranha empalhada ou chocalho indígena este é o verdadeiro presente de viagem que alguém pode receber: com emoção, com pureza e com poesia.


















