Deserto molhado

Tempestade de areia chegando...

A chegada ao deserto do Atacama foi cheia de surpresas.Confesso que nunca olhei as médias pluviométricas por aqui e só me preocupava com as variações de temperatura, afinal este lugar é conhecido por ser o deserto mais seco do mundo. Como o mundo está mudando, o deserto também resolveu mudar. Fiquei sabendo que nas duas últimas semanas choveu mais por aqui do que nos últimos vinte anos. Conclusão: estradas alagadas e região em calamidade pública, com uma série de passeios inacessíveis aos turistas. O que restou no primeiro dia foi sair de carro. Não choveu muito, mas para compensar surgiu uma tempestade de areia que completou o pacote. O destino foi um salar, uma espécie de mar evaporado, para visitar os flamingos da região. Com as chuvas dos últimos dias, até os flamingos fugiram ! Se mudaram para a Bolívia. Da colônia de flamingos original do local e que tem entre oitocentas e mil aves, sobraram umas dez para contar a história e consolar os turistas. De longe, o bicho é bonito, elegante, com sua plumagem rosa. Quando ele voa no entanto, é bem esquisito. Parece um frango depenado.

Flamingos voando, ou seriam frangos ?


Isto foi o que sobrou do dia…saber que o flamingo mede 1,20 m , pesa 1,5 Kg e vive por até 30 anos. Esperava mais do primeiro contato com o deserto (ou ex-deserto).

Janelas do mundo

Sempre que viajo a trabalho por aí, tenho o hábito de abrir a cortina do quarto do hotel, tirar uma foto da vista e mandar para a minha mulher. Ela faz a mesma coisa. É a maneira que encontramos de nos aproximarmos, mostrar ao outro onde estamos, em que lugar do mundo viemos parar e emprestar os nossos olhos para quem gostaríamos que estivesse conosco. Não importa se a vista é bonita ou feia, isto não é importante para o nosso pequeno ritual.
Hoje, entrei no meu quarto de hotel em New Jersey e lá fui eu abrir a cortina e olhar pela janela. Quando puxei a cortina dei de cara com a vista da construção da nova torre do World Trade Center, do outro lado do rio. O prédio que terá 104 andares, está com 90 pisos construídos e já se destaca muito no horizonte de Nova York. Ao invés de ver o futuro, confesso que vi o passado. Mesmo depois de quase 12 anos, olhei pela janela e não vi um prédio novo subindo…Vi o antigo desabando. Não tive vontade de fotografar, não tive vontade de lembrar. Mandei uma foto tirada meio de lado, que mostra um singelo supermercado que fica na direção oposta. Menos opulência, menos pensamentos ruins, mais acolhimento, mais cara de casa.

Hamburger socializado

Shake Shack no verão

Quem conhece Nova York sabe que existe uma disputa sobre qual o melhor Hamburger da cidade. Nada diferente da disputa por quem é a melhor baiana de Acarajé em Salvador, qual o melhor pastel de feira de São Paulo e qual o melhor bolinho de bacalhau do Rio de Janeiro. Tem um lugar dos cotados, que se chama Shake Shack que eu gosto bastante. Muito menos pelo Hamburger em si e mais pela experiência, afinal o Shake Shack é um quiosque no meio de uma praça. Alivia um pouco a sensação de culpa pelas calorias você poder comer o seu Hamburger a céu aberto. Seria bucólico não fosse pelo ataque de esquilos e pombas que sofri hoje. Os animais também estavam interessados em degustar o hamburger e socializar minha comida. Parte do tomate do meu cheeseburger foi furtado por um objeto voador não identificado e tive que me proteger de esquilos com olhar ameaçador que miravam minha batata frita. Eram uma espécie de Tico e Teco possuídos…
Confesso que já tive experiências gastronômicas mais divertidas e menos participativas. Valeu para matar a saudade mas da próxima vez voltarei a procurar ambientes mais tradicionais, mesmo que a culpa pela comida trash aumente.

A aranha e a cigarra

Tenho enormes dificuldades com os espetáculos da Broadway. Respeito as super produções mas confesso que a cantoria dos musicais não é exatamente a coisa que mais gosto. No passado fui até rever Fantasma da Ópera para ver se eu nõo havia entendido ou se eu era chato mesmo. Concluí que eu e o Fantasma tínhamos mesmo incompatibilidade de gênios…
De passagem por NY fui assistir ao mais recente sucesso da Broadway: Homem Aranha. Os motivos para tentar superar meu preconceito foram as relatadas performances acrobáticas do super herói que voa pelo teto de todo o teatro e a trilha sonora feita pelo U2. Meu veredicto é que enquanto o Homem Aranha é aranha, o espetáculo é realmente legal, com voos pelos três pisos do teatro e telões com imagens de alta definição que fazem você pensar que está em um show de uma banda de Rock. O problema é quando a aranha resolve virar cigarra e cantar. Tem pelo menos meia hora de cantoria do personagem Peter Parker para a Marie Jane que são soníferos de primeira qualidade. Vou minimizar e não dar muita ênfase a questão do figurino do vilão Green, que parece ter sido inspirado na Cuca do Sítio do Picapau amarelo (quem assistir concordará comigo !).
Estou atualizado, tenho assunto com todos os brazucas que também estão por aqui mas a missão Broadway do ano,está cumprida, sem perspectivas de repetição futura.

A dura vida de uma mula…

Sempre que alguém que conhecemos vai morar fora do Brasil temos algumas reações meio padronizadas. Se for alguém de quem gostamos, queremos que a pessoa volte logo, que tenha sucesso na sua experiência, sentimos saudades e queremos ir visitar (desde que o sujeito tenha ido morar em algum lugar legal, é claro). A pessoa está longe mas quando reencontramos parece que o tempo não passou e as história da vida são retomadas imediatamente, quase sem rupturas, apesar dos milhares de Km de distância.
Se for alguém por quem não temos muita simpatia, torcemos por invernos gelados com neve e escorregões no gelo, para que a Globo Internacional e o PPV do Campeonato Brasileiro não funcionem, para que os vizinhos sejam cruéis e reclamem de tudo…Não é um sentimento muito bonito, mas enfim, esta é a vida.
Quando além de gostarmos da pessoa,temos intimidade, o próximo passo é transformar a sua casa em um entreposto de entrega de mercadorias. Dizemos que são coisas pequenas, que não incomodam e para sermos educados, perguntamos se ele se incomodaria de trazer na próxima viagem ao Brasil. A criatura fica institucionalizada como uma espécie de FedEx doméstico, ou em português mais coloquial,uma “mula”, trazendo as encomendas da turma e também fazendo favorzinhos na volta, levando coisas para abastecer algum conhecido da comunidade brazuca.
Não é fácil a vida da “mula”…Se for uma “mula” vivendo nos Estados Unidos, sempre que mandamos alguma coisa para a casa do cidadão, ele como punição adicional ainda é adicionado ao mailing de catálogos do fabricante do produto que mandamos entregar. Ou seja, mesmo depois da entrega feita, a nossa “mula” querida, continua conversando com o serviço prestado ao abrir a sua caixa de correspondência. Talvez seja a nossa forma de ficar mais perto e fazer com que a pessoa não esqueça da gente…
PS: Este post não é baseado em fatos reais. É pura ficção

Fatos e fotos

Esta semana a Kodak entrou em concordata para tentar escapar da falência. Difícil associar a Kodak ao mundo digital, impossível não lembrar das caixinhas amarelas, com filmes de diferentes poses e diferentes asas. Os únicos felizes devem ser os professores de Harvard que certamente já estão produzindo os seus cases e livros sobre a Kodak, falando dos perigos da arrogância do líder de um segmento não entender que o mundo está mudando e entrar em extinção. Tudo lindo de se dizer, especialmente depois que já passou…Já foi assim com a Olivetti, a Atari e outras mais…Enfim, com a Kodak ou sem a Kodak, as fotografias são uma chance de se perpetuar a história, de se transportar pelo tempo registros e de se entender melhor outras épocas. Esta semana a National Geographic (www.nationalgeographic.com) divulgou novas fotos da expedição do comandante Scott na sua fracassada tentativa de ser o pioneiro na conquista do pólo sul. As fotos tem exatamente 100 anos mas a força e a nitidez das imagens são tão grandes que parecem ter sido publicadas ontem no jornal.Você se sente dentro da expedição e compartilha um pouco de uma das histórias mais incríveis do século passado e que assim como no caso da Kodak, envolveu subestimar o novo mundo, não estar preparado para a mudança. Tudo fácil de falar e difícil de praticar.
Reflexões de administrador a parte, ainda bem que as memórias que as fotos nos trazem persistirão para sempre. As fotos serão bem maiores do que os fatos ! Viva a Kodak e seu legado! Viva Scott e sua fantástica e trágica expedição.

Desintoxicação digital

O meu celular 3G da TIM me proporciona frequentes momentos de meditação e foco interior, na busca contínua pelo meu eu. Por mais que eu deseje me comunicar com o mundo, seja através de conversas telefônicas, acesso a Internet, e-mails ou SMS , a TIM me força a lembrar de que existem coisas mais importantes do que ficar conectado 24 horas…Como fruto desta estratégia de purificação da alma, meu celular fica frequentemente limitado ao exercício de funções nobres como relógio,camêra fotográfica e peso de papel . Não consigo me comunicar com ninguém e ninguém consegue se comunicar comigo, mas me liberto do stress do cotidiano e de assuntos mundanos. Embora eu já seja submetido a esta privação tecnológica todos os dias, li recentemente no http://www.mashable.com que posso almejar algo ainda mais radical. St. Vincent e Granadines, um conjunto de 32 ilhas no Caribe, acaba de lançar um pacote de férias que está sendo chamado de “Digital Detox”. Uma semana sem Wi-Fi, TV no quarto, internet ou telefone. A idéia do pacote é que você interaja o mais possível com as pessoas e se liberte dos gadgets. Ao chegar a ilha um coach te dá dicas de como não se transformar em um escravo da tecnologia. Não é só…se você quiser algum tipo de serviço de quarto deve pedir “cara a cara” ao staff. Se eu decidir radicalizar ainda mais, li que o caminho da minha vida passará pelo Hotel Hāna-Maui em Maui, Hawaii, onde além de todo o restante das privações, também foram banidos os relógios, tanto do hotel como dos hóspedes ! Sinto que se combinar uma viagem destas com os serviços oferecidos pelo meu celular, muito em breve encontrarei a plenitude do meu ser e me transformarei em um líder espiritual. Antes de me afastar dos bens materiais no entanto, precisarei pagar a conta: uma semana de Digital Detox em St. Vincent vai custar US$ 3.800,00.

Indonésia

Se você tem alma surfista e sonha com swells perfeitos, possivelmente já ouviu falar na Indonésia em função de suas praias, como Lombok e Bali. Se você é um seguidor da National Geographic ou do Animal Planet relaciona a Indonésia com os dragões de Komodo, uns lagartos gigantes que de vez em quando jantam umas criancinhas desatentas

Dragão de Komodo

. Se você jogou muito Master durante os dias chuvosos de final de ano, talvez tenha aprendido que a Indonésia é o quarto país mais populoso do mundo, com 240 milhões de habitantes e onde se concentra a maior população muçulmana da face da terra. Se você é cinéfilo,já ouviu falar em Krakatoa, o inferno de Java, e agora já está advinhando que o vulcão também fica na Indonésia (deveria ter mencionado que você deve ser um cinéfilo de idade mais avançada, pois este filme é quase do tempo do cinema mudo).
E quando falamos em redes sociais ? Você tem alguma idéia do que representa a Indonésia ? Tem algum amigo indonésio seguindo você no Twitter ? Possivelmente não, mas em breve terá…Quase 21% da população do país tem uma conta no Twitter…Nenhum outro país tem um percentual tão grande da população despachando tweets por aí.

Os tweets pelo mundo...os indonésios adoram !


Nós brasileiros estamos em segundo lugar, seguidos pela Venezuela e vitaminada pelo Hugo Chavez que tem 2,5 milhões de seguidores! O motivo desta paixão indonésia por tweets ? As explicações do estudo publicado pelo http://www.psfk.com. de que o inglês é muito difundido e de que os custos de telefonia celular são muito baixos não me convenceram muitos. Vale uma pergunta aos dragões…

Histórias de avião

Eu pensava que já tinha passado por quase tudo em minha vida como passageiro de avião. Já tive mala perdida, avião arremetendo, voo cancelado, voo perdido, overbooking, upgrade e a cereja do bolo que adoro contar em mesas de bar: abandonei um avião em evacuação de emergência, com direito a descida de escorregador e corrida pela pista com medo de explosão. Esta semana ganhei mais uma história…tudo começou quando em função do voo lotado, fomos remanejados para a classe executiva da TAM de Manaus para Guarulhos (nota para aficcionados: a TAM utiliza um A330 nesta rota, por isto existe a classe executiva). As crianças já martelavam todos os botões disponíveis, fascinados com a perspectiva de voarem quase na horizontal, pulando, jogando e assistindo Harry Potter ao mesmo tempo. Eis que um passageiro resolveu se indignar com os upgrades dados a nós e a outros passageiros. Dizia que havia pago R$ 1342,00 (falou tanto com o pessoal da tripulação que memorizei o número) para voar naquela classe e que aquilo era injusto, pois os outros estavam ganhando aquilo de graça. Esbravejou, levantou, bufou com um comissário, esperneou com duas aeromoças e finalmente retornou ao seu assento. Para mim o desabafo estava concluído e em breve partiríamos.
Passam-se 10 minutos e dois agentes da polícia federal, a pedido do comandante, entram no avião para retirar o reclamão. Ele até tentou dizer que não era bem assim, apelou para o “deixa disso”, disse que tinha sido mal compreendido, que estava apenas reclamando dos seus direitos e por fim tentou o nobre golpe da carteirada, dizendo que era o projetista da nova ponte de Manaus (realmente não me pareceu um grande argumento mas que ele tentou, tentou).

Até a nova ponte sobre o Amazonas foi citada na tentativa do cidadão ficar a bordo


Não teve conversa. Expulsão sumária do avião por destrato a tripulação e meia hora de atraso…Nem reclamei…voei com mais espaço, assisti a cena toda de camarote e ganhei uma nova história de avião para a coleção.

Memórias do encontro das águas

Uma das coisas mais impressionantes da visita a Manaus é o encontro das águas dos rios Negro e Solimões. São vários kilometros em que você percebe claramente os limites de cada um dos rios pois as suas águas não se misturam. Velocidades diferentes, densidades diferentes, temperaturas diferentes fazem com que a separação dos rios seja um espetáculo visual, algo como vinagre e azeite em escala monumental.
Para mim no entanto, a parte mais bonita do encontro das águas foi ver como meus filhos quiseram registrar esta lembrança para compartilhar, contar e mostrar para as pessoas na volta. Cada um com um potinho de shampoo vazio nas mãos, trazido do hotel, se esticando do barco e coletando a água do local onde os rios se encontravam. Queriam reproduzir no potinho o que estavam vivenciando e levar esta sensação para quem não estava com eles. Mais do que qualquer piranha empalhada ou chocalho indígena este é o verdadeiro presente de viagem que alguém pode receber: com emoção, com pureza e com poesia.

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Rumo a um bilhão de hits

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