O céu é a estrela

O Atacama é conhecido por ter o céu mais bonito do mundo. São 300 dias ao ano, em que a ausência completa de nuvens combinada com a altitude, permitem uma observação completa das estrelas, fazendo do local uma meca para astrônomos de todos os cantos e transformando o céu em uma das grandes estrelas da região. Para se ter uma idéia , ali está sendo desenvolvido um projeto chamado Alma, que construirá a maior rede de telescópios do mundo, permitindo que se conheça mais sobre a nossa e outras galáxias.
Depois de algumas noites em que vimos apenas nuvens, finalmente o céu resolveu nos dar uma trégua. Fomos então ao “Star Tour”,famoso na cidade, em que um francês fala sobre o céu e dá a chance aos turistas de observarem estrelas e planetas em dez telescópios que ele tem em sua propriedade. Valeu ter ido…saturno e seus anéis é incrível no telescópio, o céu aberto permitiu ver um monte de estrelas cadentes e sem dúvida lembrar que a imagem das estrelas que você está vendo naquele momento não corresponde ao presente, e sim ao passado, é poético e reflexivo. Uma coisa é verdade porém, quanto mais o guia tentava mostrar com sua incrível ponteira laser, cada uma das constelações (virgem, gêmeos, aquário entre outras),mais eu tinha certeza de que ele havia tomado algum chá alucinógeno. Enxergar leões de cabeça para baixo, patas de touro ou irmãos gêmeos no céu é para poucos. Acho que não sou um deles…Evolui. Estou mais confiante para distinguir o Cruzeiro do Sul do falso Cruzeiro e saber que as três marias são na verdade o cinturão de Orion, mas este é meu limite estelar.

Vapor e lama

Depois de vários dias fechado, o acesso a uma das maiores atrações do Atacama, os geisers do Tatio, havia sido reaberto. Nós (e a Gaviões…) resolvemos ir. O lugar é mesmo incrível , com as fumacinhas e as águas quentes sendo expelidas da terra. Dá para cozinhar um ovo nas piscininhas naturais que estão a uns 4.300 metros de altitude.
Tudo estava ótimo quando no caminho de volta, eis que a van em que estávamos atolou.
Há uma tese que diz que não devemos esperar resultados diferentes se repetimos a maneira como fazemos as coisas.
Ela foi mais uma vez comprovada, quando mais duas vans do nosso hotel atolaram no mesmo lugar ao tentar passar da mesma maneira. Resumo: umas 40 pessoas , de todas as idades e nacionalidades, e que não se conheciam, tentando fazer prevalecer a sua forma de resolver o impasse de ter 3 carros empacados em um atoleiro de 150 metros. Teve o grupo do pânico, talvez inspirado pelos mineiros ou pelos sobreviventes dos Andes, teve a turma do “não é comigo” e me traz uma “cervezita”, tiveram os Hércules que queriam arrancar os carros no braço, surgiram os “engenheiros” que queriam fazer uma estrada paralela. Rolou discussão, briga, solidariedade e diversão. O desfecho ? Fomos resgatados por um carro 4×4 de um hotel concorrente que depois de três horas, conseguiu rebocar os carros.. Como exercício de dinâmica de grupo para recrutamento de trainees teria sido perfeito…Com certeza este dia ficará na lembrança, tanto pelo vapor e pelas águas quentes, como também pela lama.

Quanto vale o show ?

Hora do jantar. Comida ok, vinhos bons, companhia ótima,conversa agradável. De repente chega um grupo de folclore chileno com seus trajes típicos, flautinhas e iniciam o seu show de música e dança andina. Não é possível que eu seja o único turista do mundo que abomine estas coisas. É show de capoeira com roda de berimbau, show de bumba meu boi, show de danças tribais africanas, show de tango, show de dança flamenca, performance de dança do ventre….Enfim, em cada lugar que você vai, te empurram espetáculos para te mostrar o que seria a cultura local. É mais falso que uma nota de três e de típico e de original ,não tem nada. 

Fico muito contrangido pelos artistas que até se esforçam e normalmente tocam em troca da comida do jantar. O pior é quando eles surgem com as fantasias precárias, feitas de materias de segunda categoria e que não são mais usados nem nas peças de fim de ano da escola das crianças. Muito amador. E quando chamam os turistas para se unir ao espetáculo e os transformam em palhaços não remunerados? Gringos rebolando com mulatas, tocando instrumentos, colocando chapéuzinhos com penachos. Vergonha alheia…Adoro conhecer novas culturas mas se for rolar showzinho, por favor me avisem antes ou não me convidem.

O deserto que sempre imaginei

Chegou a hora de superar a decepção dos poucos flamingos estáticos do primeiro dia e irmos em frente. A animação voltou rápido com as caminhadas por paisagens secas e terrosas mas de cores e formas fascinantes . Mas o que simbolizou a retomada da energia foi o encontro com os cactos. Cactos gigantes, com cerca de 4 m de altura e centenas de anos ( o cacto cresce entre 4 a 6 mm ao ano) enfeitam grande parte da paisagem e trazem vida ao deserto. Além de admirá-los pelo seu porte, vem uma satisfação quase infantil, de entrar em um cenário de desenho animado e na representação que eu, como criança, faria de um deserto. Fiquei com a impressão de que encontraria o Pepe Legal ou o Papa Léguas a qualquer instante e que o Coiote passaria correndo por mim.
Os cactos que em ambientes exuberantes significam escassez, aqui trouxeram exatamente a sensação oposta.

Deserto molhado

Tempestade de areia chegando...

A chegada ao deserto do Atacama foi cheia de surpresas.Confesso que nunca olhei as médias pluviométricas por aqui e só me preocupava com as variações de temperatura, afinal este lugar é conhecido por ser o deserto mais seco do mundo. Como o mundo está mudando, o deserto também resolveu mudar. Fiquei sabendo que nas duas últimas semanas choveu mais por aqui do que nos últimos vinte anos. Conclusão: estradas alagadas e região em calamidade pública, com uma série de passeios inacessíveis aos turistas. O que restou no primeiro dia foi sair de carro. Não choveu muito, mas para compensar surgiu uma tempestade de areia que completou o pacote. O destino foi um salar, uma espécie de mar evaporado, para visitar os flamingos da região. Com as chuvas dos últimos dias, até os flamingos fugiram ! Se mudaram para a Bolívia. Da colônia de flamingos original do local e que tem entre oitocentas e mil aves, sobraram umas dez para contar a história e consolar os turistas. De longe, o bicho é bonito, elegante, com sua plumagem rosa. Quando ele voa no entanto, é bem esquisito. Parece um frango depenado.

Flamingos voando, ou seriam frangos ?


Isto foi o que sobrou do dia…saber que o flamingo mede 1,20 m , pesa 1,5 Kg e vive por até 30 anos. Esperava mais do primeiro contato com o deserto (ou ex-deserto).

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