Fogos de artifício amazônicos

6a00d83451dba369e200e552af5f908834-800wiA Amazônia com sua concentração de flora e fauna é o paraíso dos estudiosos da natureza. Alguns deles estudam coisas que se transformam em poços de entretenimento para especialistas em cultura geral. Nestes últimos dias, convivemos com um jovem alemão que estava fazendo um estudo do meio para conclusão de sua tese de mestrado. O tema da tese ? Vaga-lumes…Sim, ele está estudando para se transformar em uma sumidade no comportamento dos nobres insetos. Tomando um café com o Darwin do século XXI, aprendi coisas que fizeram com que o meu 2013 começasse muito mais iluminado, como o fato de variadas espécies de vaga-lume brilharem em cores diferentes, inclusive vermelho e laranja e outras não terem qualquer brilho. Imagine que você pode ser um vaga-lume macho e jamais dar uma piscadinha…Certamente o inseto em questão vive em terapia…Aprendi também que apenas um pedaço específico do corpo do vaga-lume tem o poder de brilhar e este efeito aparece quando o vaga-lume ainda é uma lava…O baby vaga-lume já é uma estrela! Nasce para brilhar…Enfim, sem queima de fogos ou contagem regressiva do Faustão , o nosso começo de 2013 foi iluminado pelas estrelas do céu e pelo pisca pisca dos vaga-lumes do jovem alemão.

O canto do Uirapuru

Hoje o game é diferente. Não tem joystick, não tem tela. É no meio do mato. O objetivo não é derrotar o exército amarelo ou exterminar alienígenas. Vamos tentar encontrar o uirapuru, o pássaro de canto mais bonito da Amazônia. Canta alto, forte, apesar de ter uns quinze centímetros de altura. O guia vai na frente da trilha com um gravadorzinho e um amplificador na mão. Dá play na fita cassete (IPods com MP3 ainda não são comercializados na filial da Best Buy de Alta Floresta), reproduzindo o canto do pássaro.

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O uirapuru começa a responder. Paciência… silêncio… seguimos o guia para tentar chegar mais perto e encontrar o pequeno cantor…meus filhos olham e seguem desconfiados. Nada disto estava no pacote de pedidos das crianças para o papai noel…O guia o localiza. As crianças comemoram e observam com binóculos e câmeras o Nelson Ned amazônico. Difícil acreditar que com este tamanho o Uirapuru cante tão alto. Esta experiência não tem na Disney, não tem no XBox. Fiquei feliz pelo encontro e pela experiência. Mesmo um pouco desconfiados e saudosos do conforto da sala de estar, meus filhos agora sabem que Uirapuru é mais do que uma alameda em Moema.

Destino Cristalino

rio cristalinoO ritmo acelerado em que a informação não pára e onde estamos sempre conectados,deu um tempo nestes últimos dias impedindo a atualização do blog. Comecei 2013 na Amazônia..Nem parecia tão longe no mapa…

Chegar ao meu destino porém, foi mais demorado do que chegar a Londres.
Alta Floresta era o mais próximo do que se poderia chamar de civilização e estava distante 2 horas de estrada de terra e mais meia hora de barco. Ficamos em uma reserva ecológica no Rio Cristalino, norte de Mato Grosso, próximo da divisa com o Pará. Energia elétrica de gerador, em horário controlado,das 6 às 11 da noite. Banho de água quente só quando o dia estava ensolarado…Comunicação via rádio e uma internet que estava aguardando a visita de um técnico para consertá-la há 3 meses. Imersão total na natureza, floresta amazônica completamente preservada, um mar verde, encontro com tucanos, araras,macacos e como brinde uma sucuri de alguns metros, passando ao lado do barco.arara cristalinoTudo isto menos de 24 horas de chegar de Tokyo. O choque foi total mas a conclusão é que esta é a verdadeira graça do mundo. Poder conhecê-lo é um presente.

Histórias de avião

Eu pensava que já tinha passado por quase tudo em minha vida como passageiro de avião. Já tive mala perdida, avião arremetendo, voo cancelado, voo perdido, overbooking, upgrade e a cereja do bolo que adoro contar em mesas de bar: abandonei um avião em evacuação de emergência, com direito a descida de escorregador e corrida pela pista com medo de explosão. Esta semana ganhei mais uma história…tudo começou quando em função do voo lotado, fomos remanejados para a classe executiva da TAM de Manaus para Guarulhos (nota para aficcionados: a TAM utiliza um A330 nesta rota, por isto existe a classe executiva). As crianças já martelavam todos os botões disponíveis, fascinados com a perspectiva de voarem quase na horizontal, pulando, jogando e assistindo Harry Potter ao mesmo tempo. Eis que um passageiro resolveu se indignar com os upgrades dados a nós e a outros passageiros. Dizia que havia pago R$ 1342,00 (falou tanto com o pessoal da tripulação que memorizei o número) para voar naquela classe e que aquilo era injusto, pois os outros estavam ganhando aquilo de graça. Esbravejou, levantou, bufou com um comissário, esperneou com duas aeromoças e finalmente retornou ao seu assento. Para mim o desabafo estava concluído e em breve partiríamos.
Passam-se 10 minutos e dois agentes da polícia federal, a pedido do comandante, entram no avião para retirar o reclamão. Ele até tentou dizer que não era bem assim, apelou para o “deixa disso”, disse que tinha sido mal compreendido, que estava apenas reclamando dos seus direitos e por fim tentou o nobre golpe da carteirada, dizendo que era o projetista da nova ponte de Manaus (realmente não me pareceu um grande argumento mas que ele tentou, tentou).

Até a nova ponte sobre o Amazonas foi citada na tentativa do cidadão ficar a bordo


Não teve conversa. Expulsão sumária do avião por destrato a tripulação e meia hora de atraso…Nem reclamei…voei com mais espaço, assisti a cena toda de camarote e ganhei uma nova história de avião para a coleção.

Memórias do encontro das águas

Uma das coisas mais impressionantes da visita a Manaus é o encontro das águas dos rios Negro e Solimões. São vários kilometros em que você percebe claramente os limites de cada um dos rios pois as suas águas não se misturam. Velocidades diferentes, densidades diferentes, temperaturas diferentes fazem com que a separação dos rios seja um espetáculo visual, algo como vinagre e azeite em escala monumental.
Para mim no entanto, a parte mais bonita do encontro das águas foi ver como meus filhos quiseram registrar esta lembrança para compartilhar, contar e mostrar para as pessoas na volta. Cada um com um potinho de shampoo vazio nas mãos, trazido do hotel, se esticando do barco e coletando a água do local onde os rios se encontravam. Queriam reproduzir no potinho o que estavam vivenciando e levar esta sensação para quem não estava com eles. Mais do que qualquer piranha empalhada ou chocalho indígena este é o verdadeiro presente de viagem que alguém pode receber: com emoção, com pureza e com poesia.

O lado pouco cor de rosa do encontro com os botos.

Confesso que tenho bastante preguiça dos eco-chatos que não usam fraldas descartáveis em seus filhos, não lavam louça com detergente e que dão a descarga uma vez ao dia para economizar a água do planeta. Para mim, o importante é se encontrar o meio do caminho entre conforto e proteção ambiental. O homem tem que ser capaz de produzir fraldas melhores que se desintegrem mais rápido, detergentes bio degradáveis e descargas inteligentes. Consciência ecológica sim, chatice e radicalismo não. O progresso deve existir para nos ajudar a conciliar os interesses…

Os botos sendo alimentados no "quintal"da casa . Um jeito sem graça de ver a natureza.


Existem algumas coisas no entanto, que me pareciam aceitáveis alguns anos atrás e que hoje me incomodam. Nesta viagem foi assim com nossa excursão para ver os botos cor de rosa, os primos dos golfinhos, que vivem nos rios da Amazônia. Os botos que vimos, seguem vivendo dentro do rio Negro mas foram condicionados por uma ribeirinha a receberem comida no mesmo lugar e na mesma hora, em uma espécie de quintal aquático na frente de sua casa, na beira do rio. É uma situação distorcida da natureza, artificial, que gera um incômodo. De um lado um animal bonito, em seu habitat, de outro alguém fazendo dinheiro as suas custas. Vi e conheci o boto mas fiquei mais chateado do que feliz. Foi um jeito cinza de encontrar o boto cor de rosa.
Animais selvagens, condicionados para entreter humanos deixaram de ter qualquer graça para mim. É bom que já existam circos sem animais e pressão sobre touradas e rodeios. Acho que quando nossos netos crescerem eles não entenderão como em um passado tão recente as pessoas se divertiam as custas dos animais.

Os Forest Gumps da Rain Forest

Durante os nossos dias de Amazônia, caminhamos a pé pela floresta, andamos de barco de dia e de noite e vimos araras, tucanos, piranhas, botos cor de rosa, bichos preguiça, cobras e jacarés . A flora é muito mais exuberante do que a fauna e os olhos veem um infinito verde com árvores de todos os tipos e tamanhos. Esta para mim é a grande beleza da Amazônia…o seu verde combinado com os seus incríveis e gigantescos rios. A sensação que eu tenho é que na cabeça dos guias aparentemente árvores e rios não dão muito Ibope e eles pensam que os turistas esperam encontrar um grande zoo tropical a céu aberto. Como você não vê e não encontra grandes animais, os guias mesmo criam histórias. Te falam de aves que arrancam as preguiças da copa das árvores, piranhas que comem as mãos dos ribeirinhos, tucunarés que viram barcos de pescadores , ataques de índios aos caboclos mas a especialidade mesmo são as cobras. Sucuris de 12 metros, cobras que te perseguem e dão botes de 6 metros e até cobras que se penduram nos galhos e dão chicotadas em quem está embaixo. Amazônia tem suas lendas e seus mistérios mas os guias foram os Forest Gumps, os contadores de histórias, da Rain Forest…

A Amazônia é o jardim do quintal ?

Dinheiro secando na mesa do lobby. Indício de que você não está no Brasil...

Você chega no lobby do hotel e encontra uns R$ 350,00 , em notas molhadas, que um hóspede resolveu deixar sobre a mesa para secar. Depois na entrada do restaurante vê uma lousa explicando que jaguar=onça,forest=floresta e fish=peixe. O guia que te leva para pescar piranhas é um indiano que arranha o português. No meio de 30 hóspedes, uns 5 ou 6 falam português…
Em vários momentos você tem certeza que não está no Brasil. E na verdade a Amazônia é mesmo um pedaço do Brasil que o Brasil ainda não descobriu. É do mundo mas parece que não é do Brasil…Você tem a clara sensação de se sentir um estrangeiro em seu próprio país. Eles te perguntam porque os brasileiros não se interessam em vir para a Amazônia e você se esforça para encontrar uma boa resposta (que acaba não tendo.O mais perto que passei foi dizer que o motivo é que ainda não tinham inventado uma Best Buy flutuante no Rio Negro). De jardim do quintal do Brasil como dizia Raulzito, a Amazônia tem muito pouco…O jardim tem muitos outros jardineiros e bem poucos falam português. Fiz turismo sem sair do Brasil, mas certamente fiquei com a sensação de que me conectei um pouco mais com o mundo.

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