Descarregado

Hoje cheguei a um hotel e constatei que o meu carregador de celular não encaixava nas tomadas. Me esforcei para colocar o meu equipamento com “dois pauzinhos” na tomada com “três buraquinhos” e descobri que realmente a missão era impossível, apesar da minha delicadeza para resolver na marra esta equação geométrica.
Me ocorreu ligar para a recepção e pedir um adaptador , mas a revolta com a incapacidade do mundo se entender, foi maior do que a minha proatividade. Fico pensando em como é possível se sustentar a comunidade européia ….Se os países foram incapazes de combinar lados de direção de carro, sistemas métricos e furos em tomada, como podem conseguir alinhar suas culturas e economias ? Improvável …Este é o mundo em que vivemos…por vezes pensando em pirâmides e esquecendo dos tijolos.
Queriam o Esperanto como língua universal e esqueceram das tomadas. Alguém precisa levantar esta bandeira ! Pode ser o início da redenção do Mercosul…Quem sabe passemos a ser o único bloco econômico integrado (via cabos e fios, é verdade). Nos acostumamos com adaptadores universais de um kilo e não atacamos a raíz do problema. Basta ! Unifiquem as tomadas do mundo já…e que o padrão escolhido seja o da maioria, e não o brasileiro, que só serviu para deixar algum fabricante de plugs bem rico…O meu protesto silencioso de hoje foi deixar o meu celular descarregar…Dramaticamente, lentamente, com direito a gritos desesperados e tremidinhas no final, como um andarilho sedento no deserto que enxerga um oásis e delira. A energia elétrica que daria vida ao meu equipamento foi uma ilusão…uma miragem.Meu celular jaz sobre a mesa fria de um quarto de hotel…inerte, descarregado.

Os monstros que aparecem na hora de dormir


Nana nenê, gugu dádá, bilú bilú…sempre que pensamos em bebês estes sons nos vem a cabeça juntamente com imagens de fraldas, chupetas, berços e carrinhos de bebê. É tudo bonitinho, fofinho, azulzinho, rosinha, cheirosinho.
Hoje li uma história da MacLaren, fabricante de carrinhos de bebê inglesa e que várias mammies brazucas adoram importar de Miami, que me lembrou mais dos detritos que os bebezinhos deixam em suas fraldas do que de todo o resto.
Em 2009, a Maclaren convocou um recall de um milhão de carrinhos de bebês depois que se constatou que o mecanismo de fecho de um de seus modelos havia sido responsável por machucar, apertar e decepar os dedos de crianças e pais que os estavam manuseando. História horrível mas é só o começo. As famílias impactadas pelo defeito, algumas com crianças com dedos amputados, foram a justiça reinvindicar os seus direitos e pedir indenizações milionárias a empresa. O que a MacLaren acabou de fazer ? Pediu falência de seu braço americano, a MacLaren USA, a empresa que acumulava todo o passivo jurídico e apareceu com uma nova MacLaren North America, zerada e sem dívidas que agora assumiria a distribuição dos produtos nos Estados Unidos. Os advogados das famílias já se mobilizaram para combater a fraude mas o choque ético foi tão grande, que o responsável pela área de design da empresa, o golden boy da MacLaren, renunciou via Twitter e colocou a boca na imprensa, dizendo que esta era uma ação deliberada para se livrarem da chuva de processos.Enfim, parece que as criancinhas na hora de dormir e quando tiverem os seus pesadelos com monstros, verão as imagens de seus carrinhos de bebê e dos executivos da MacLaren.

A bolacha mais recheada do pacote

Centenários merecem comemorações especiais e em março de 2012 se completam cem anos desde que o primeiro pacote da bolacha Oreo saiu da fábrica da Nabisco. Praticamente nada mudou no produto ao longo deste século de vendas. Apenas uma pequena modificação no formato dos disquinhos de chocolate e nada muito além disto. Ninguém conseguiria prever que Oreo seria transformada na marca de bolacha mais vendida em todo o mundo, com mais de 20 milhões de unidades comercializadas por dia (sem a colaboração do Brasil, onde o coitado do Oreo durou pouco e mal esquentou as prateleiras).
Existem algumas polêmicas sobre o produto, a começar pela forma como como o seu nome foi escolhido…Reza a lenda que em uma reunião de board (sim, elas já existiam em 1912), resolveram perguntar para um dos membros, qual seria a sua sugestão de nome para o lançamento. Com a boca cheia de bolacha (ou biscoito, dependendo da preferência e da região do leitor) ele respondeu “I don`t know”e o que as pessoas entenderam teria sido “Oreo”. Confesso que tentei reproduzir o teste na hora do jantar e talvez porque o meu sotaque não seja dos melhores, ou porque usei farofa como ingrediente ao invés da bolacha, em momento algum o meu “I don’t know” se pareceu com “Oreo” . Deve ser uma lenda urbana que localizei no http://www.listmyfive.com e estou ajudando a divulgar.
Outra grande polêmica que movimenta as redes sociais americanas e os desocupados de plantão é sobre como os os consumidores de Oreo preferem comer a bolacha: “tirando a tampa”, raspando o creme e somente depois degustando os disquinhos de chocolate (alguns ainda gostam de mergulhá-los em copos de leite, ato que tem conotação bastante diferente da nossa expressão “molhar o biscoito”… ) ou de uma vez, com mordidas selvagens. Polêmicas não muito relevantes mas que certamente ajudam a alimentar a fama e as vendas deste vovô. Ah, claro!…certamente devem discutir também se Oreo vende mais porque é fresquinho ou se é fresquinho porque vende mais mas com vendas anuais de mais de US$1,5 bi, este não parece ser um grande dilema.

Será que não entendi ?

Chegou minha hora de assistir o filme iraniano “A Separação”. Falaram tanto do filme na temporada do Oscar que eu fui ao cinema com a certeza que depois da Bollywood indiana, certamente deveria haver uma Teerãwood que eu desconhecia e que o meu mundo seria transformado depois de duas horas. Críticas apaixonadas falavam de melhor filme do ano, que ganhar Oscar de melhor filme estrangeiro e Urso de Ouro no Festival de Berlim eram pouco, que o roteiro era espetacular e que os atores eram estupendos.
Confesso que saí do cinema com aquela desagradável sensação de “será que fui eu que não entendi ou não é tudo isto ?”. Esta sensação é horrível…Você se sente intelectualmente limitado, uma espécie de Magda, aquela do Sai de Baixo, versão século XXI.

O filme conta a história do casal Nader e Simin. Simin (a mulher…) quer deixar o Irã para dar melhores oportunidades a sua filha, Termeh. Nader (o homem…), no entanto, quer continuar no país para cuidar de seu pai, doente com Alzheimer. Se separaram. Sem esposa, Nader contrata uma empregada para ser responsável pelo dia a dia da casa e sobretudo cuidar de seu pai. A auxiliar do lar contratada está grávida e trabalhando na casa de um homem “solteiro”, sem o consentimento de seu marido, o que em conjunto com um acidente doméstico, cria uma salada, em que todos os personagens passam por questionamentos e julgamentos éticos, religiosos e morais.
O filme é bom e merece ser assistido. Permite que o espectador entenda um pouco mais sobre o papel que a religião tem sobre a cultura de um povo, sobre como alguns valores ocidentais não são aplicáveis em outras partes do mundo e pressiona o público a constantemente mudar de lado em seus julgamentos pré-concebidos. Os atores também atuam bem e realmente dão vida e intensidade aos personagens…Em momentos mais engajados e baseado em meu vasto conhecimento sobre xás, aiatolás e ditadores persas, ainda pude enxergar força em mensagens subliminares de protestos contra a repressão aos direitos humanos e defesa de liberdades individuais mas confesso que parei por aí. O final do filme, que na realidade não tem final, potencializou meu lado “ué, acho que não entendi….” e reforçou a minha sensação de que há um grande componente político de se fazer esta ovação coletiva a “A Separação”. Como bandeira de libertação cultural de um país, digamos assim, complicado, o filme merece todo o reconhecimento e consideração, mas como cinema, puro e simples, tenho a impressão que já assisti uns duzentos e trinta e quatro filmes melhores que a “A Separação”. Entendo que faltou por parte da crítica fazer a verdadeira separação entre o que é política e o que é obra de arte ou faltou para mim , justamente o contrário: a consolidação dos meus dois neurônios para conseguir entender melhor o cinema iraniano.

Um cafezinho e a conta

Algumas marcas sabem com pequenas atitudes, gerar uma grande repercussão de mídia e trabalhar na sua construção de imagem junto aos seus consumidores.
Um grande exemplo disto foi a divulgação esta semana, por parte da imprensa americana,da abertura da primeira loja ski-through do Starbucks. A lojinha (ou para ser mais chique, a flagship, termo da moda para fazer referência a uma loja conceito, que reflete o espírito de uma marca) fica no topo das montanhas na estação de ski de Squaw Valley Ski Resort,na Califórnia, e permite que as pessoas comprem os seus cafés e capuccinos sem ter que tirar os skis dos pés. A pequena iniciativa, que provavelmente beneficiará uma meia dúzia de esquiadores gerou uma grande repercussão na mídia.
O USA Today publicou até entrevista com o CEO do resort, dizendo que em nenhum outro lugar do mundo os esquiadores podem degustar um café Starbucks sem perder tempo.
A idéia é boa, sobretudo porque serve para aproximar a marca dos seus consumidores mas muito mais do que isto,por ter a incrível capacidade de fazer barulho de mídia e manter o Starbucks como marca de vanguarda. Já se falou muito de drive-trough mas o ski-trough foi divulgado como uma enorme novidade e o Starbucks surge como o responsável por isto.
Certamente esta repercussão nos meios de comunicação e o fortalecimento da imagem já compensaram o investimento feito na cafeteria das montanhas e farão com que os cafezinhos vendidos nas alturas sejam a parte menos importante da história. Que tal algum boteco se inspirar e fazer algo similar nas praias ou em alto mar ?

Questão de expectativa

Esta semana foi feito o anúncio de que Rubens Barrichello correrá na Fórmula Indy em 2012. Não cabe a mim entrar no mérito de sua competência como piloto mas ninguém corre por vinte anos de Fórmula-1, por uma série de equipes diferentes, acumula uma fortuna pessoal, caso não seja minimamente competente. Apesar disto,ao mesmo tempo, Rubinho no Brasil é quase sinônimo de um looser, do eterno perdedor.
Sempre que penso em Rubinho, penso no mundo corporativo e como os executivos são avaliados. Para mim, a negociação dos “budgets” do Rubinho sempre foram consistentemente mal feitas…Por mais que ele realizasse, as pessoas sempre esperaram dele resultados maiores do que aquilo que ele poderia entregar. Ele nunca parou para renegociar, não cumpria o “acordado” e ao contrário, continuava prometendo mais…Nunca disse que o objetivo estava puxado demais para a sua realidade e isto só ajudou a ganhar uma fama de fracassado. A primeira regra do mundo dos negócios é cumprir 100% do prometido. Primeiro as pessoas olharão para o seu percentual de cobertura de cota e depois atentarão para que número estava lá. Cumprir 90% da meta é fracassar, por mais que a meta seja puxada. Quem faz 100% do prometido não deve explicações. Quem faz 90% passa dias explicando…Rubinho só explicou por anos a fio.
Rubinho aceitou um “budget” de sucessor do Senna, de competir de “igual para igual” com o Schumacher. Nos últimos anos corria com uma Williams, que provavelmente perderia um racha para o meu carro,mas fazia de conta que estava quase lá com a Red Bull.
Rubinho nunca declarou que estava brigando por vice-campeonatos, para ser o terceiro melhor brasileiro da história da Formula-1 ou para que sua última equipe ganhasse da Force India. Nunca alinhou as expectativas.Não o conheço e não sei se tratou de um tema de falta de auto-consciência ou se foram caprichos para agradar patrocinadores megalomaníacos, mas tenho certeza que se deixasse claro qual era a sua aspiração verdadeira, sua imagem junto público seria outra. Espero que depois de vinte anos e iniciando uma nova carreira, a negociação e a comunicação de suas expectativas sejam mais realistas. Ele já conseguiu um grande feito, recomeçar aos 40 anos, mas se vier a público, entusiasmado pela nova onda de assédio e começar a prometer sambadinha em Indianápolis repetirá o mesmo erro. Cabe a ele prometer menos e entregar mais…É assim que funciona o mundo corporativo.No esporte não é diferente.Ele já deve ter aprendido.

“Up in the air” versão kids

Reencontrei meus filhos que chegavam de uma viagem internacional. Foi bom para matar saudades e para refletir que com menos de dez anos de idade eles já viajaram o que eu levei quase trinta para fazer. A relação deles com aviões, aeroportos e distâncias é muito diferente da que a minha geração tinha . Algo parecido com o que se fala sobre as diferenças que também temos na interação com a tecnologia. Sempre comentamos que a nova geração nasceu com controles remotos, Ipads e Iphones nas mãos, mas mais do que isto,eles nasceram bem mais cosmopolitas e globalizados. A internet trouxe o inglês para o cotidiano e o mundo para dentro de casa. Você pergunta, o Google responde, e te mostra, ao vivo, na sua tela. Já o Facebook te coloca em uma vila globalizada, com amigos de todos os cantos. Banalizar as viagens de avião está absolutamente alinhado com tudo isto.
As crianças chegaram em casa sem excitação, sem histórias fabulosas sobre pilotos, aeromoças, aeroportos, filmes assistidos a bordo. Pareciam executivos mirins, estilo George Clooney em “Up in the air”, em breve estarão orgulhosos de seus cartões de milhagem. Admirei a perspectiva de tê-los como cidadãos do mundo mas senti falta dos necessaires e cobertores trazidos malandramente de bordo, da dor de barriga da ansiedade, dos relatos entusiasmados de terem conhecido o comandante. Não teve mais inocência, teve profissionalismo.

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