Nestes dois últimos dias fui acometido por um dos maiores fenômenos da sociedade contemporânea: a virose. Não me lembro de ao longo da minha infância ter ouvido falar em viroses e no passado os médicos pareciam buscar diagnósticos mais específicos para dores de barriga, diarréias, vômitos, tonturas e afins. Acho que a virose como mãe de todas as coisas que os médicos não sabem o que são mas que acreditam que não sejam graves o suficiente para te mandar para o hospital, deve ter uns dez anos de existência. Tudo agora é justificado como uma virose…Não sei se os vírus passaram por grandes mutações nos últimos anos e ficaram mais selvagens ou se foi a medicina que encontrou uma maneira mais ampla de justificar o que parece não ter uma justificativa muito clara. Cada criancinha de menos de dez anos deve ter sido acometida por pelo menos umas cinquenta viroses e o pediatra ainda explica – “é que está tendo um surto, mesmo”. O que é incrível é que o surto parece ser contínuo, pois a justificativa é sempre a mesma. Recentemente passei a ouvir “quadro viral” para explicar o diagnóstico…quem sabe a virose comece a sair de moda. Independente de tudo chamada de virose, quadro viral ou de doença não identificada, sei que realmente ela tem potencial para te derrubar e deixar o blog desabstecido de novidades por quase três dias.
O fenômeno das viroses
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Descarregado
Hoje cheguei a um hotel e constatei que o meu carregador de celular não encaixava nas tomadas. Me esforcei para colocar o meu equipamento com “dois pauzinhos” na tomada com “três buraquinhos” e descobri que realmente a missão era impossível, apesar da minha delicadeza para resolver na marra esta equação geométrica.
Me ocorreu ligar para a recepção e pedir um adaptador , mas a revolta com a incapacidade do mundo se entender, foi maior do que a minha proatividade. Fico pensando em como é possível se sustentar a comunidade européia ….Se os países foram incapazes de combinar lados de direção de carro, sistemas métricos e furos em tomada, como podem conseguir alinhar suas culturas e economias ? Improvável …Este é o mundo em que vivemos…por vezes pensando em pirâmides e esquecendo dos tijolos.
Queriam o Esperanto como língua universal e esqueceram das tomadas. Alguém precisa levantar esta bandeira ! Pode ser o início da redenção do Mercosul…Quem sabe passemos a ser o único bloco econômico integrado (via cabos e fios, é verdade). Nos acostumamos com adaptadores universais de um kilo e não atacamos a raíz do problema. Basta ! Unifiquem as tomadas do mundo já…e que o padrão escolhido seja o da maioria, e não o brasileiro, que só serviu para deixar algum fabricante de plugs bem rico…O meu protesto silencioso de hoje foi deixar o meu celular descarregar…Dramaticamente, lentamente, com direito a gritos desesperados e tremidinhas no final, como um andarilho sedento no deserto que enxerga um oásis e delira. A energia elétrica que daria vida ao meu equipamento foi uma ilusão…uma miragem.Meu celular jaz sobre a mesa fria de um quarto de hotel…inerte, descarregado.
Publicado em Cotidiano
“Up in the air” versão kids
Reencontrei meus filhos que chegavam de uma viagem internacional. Foi bom para matar saudades e para refletir que com menos de dez anos de idade eles já viajaram o que eu levei quase trinta para fazer. A relação deles com aviões, aeroportos e distâncias é muito diferente da que a minha geração tinha . Algo parecido com o que se fala sobre as diferenças que também temos na interação com a tecnologia. Sempre comentamos que a nova geração nasceu com controles remotos, Ipads e Iphones nas mãos, mas mais do que isto,eles nasceram bem mais cosmopolitas e globalizados. A internet trouxe o inglês para o cotidiano e o mundo para dentro de casa. Você pergunta, o Google responde, e te mostra, ao vivo, na sua tela. Já o Facebook te coloca em uma vila globalizada, com amigos de todos os cantos. Banalizar as viagens de avião está absolutamente alinhado com tudo isto.
As crianças chegaram em casa sem excitação, sem histórias fabulosas sobre pilotos, aeromoças, aeroportos, filmes assistidos a bordo. Pareciam executivos mirins, estilo George Clooney em “Up in the air”, em breve estarão orgulhosos de seus cartões de milhagem. Admirei a perspectiva de tê-los como cidadãos do mundo mas senti falta dos necessaires e cobertores trazidos malandramente de bordo, da dor de barriga da ansiedade, dos relatos entusiasmados de terem conhecido o comandante. Não teve mais inocência, teve profissionalismo.
A distância é maior do que uma ponte aérea
O que você espera quando vai a uma churrascaria ? Comer boa carne, com bom serviço ? Esta sempre foi a minha lógica e parece ser a da maioria das pessoas. Talvez por isto, a churrascaria Fogo de Chão tenha se transformado quase em uma unanimidade entre os carnívoros de São Paulo. Um boi para cada um, no ponto que o cliente desejar e garçons em profusão, orbitando em torno de sua mesa, sempre ágeis e eficientes. A orgia gastronômica não é meu ideal de refeição e é verdade que não precisava do traje de gaúcho dos garçons, afinal o carnaval já acabou e o objetivo de ir lá é comer e não participar de uma festa a fantasia, mas até isto tem seu charme kitsch. Apesar de tudo isto, não dá para discutir a qualidade do restaurante.
Pois bem, ontem fui a um jantar em uma churrascaria no RJ e os locais começaram a discutir entre si sobre qual era a melhor churrascaria da cidade. Havia uns 15 cariocas ao redor de mim e todos votaram no Porcão, apenas com variações sobre qual era a melhor filial: Ipanema, Aterro, Niterói, Barra etc…E mais incrível, todos criticaram bastante a filial carioca do Fogo de Chão, que fica em um lugar espetacular, com vista para a enseada de Botafogo. Sabem quais eram as críticas principais ? Não tem sushi e sashimi e tem pouca variação de carnes não bovinas! Pude entender a mensagem como falta tender com abacaxi, paleta de cordeiro da Nova Zelândia com molho de menta e pintado na brasa levemente puxado em uma redução de maracujás silvestres. Ou seja, tudo o que em SP é qualificado como distração para a degustação da picanha, carne sagrada de uma churrascaria. Vai entender…50 minutos de vôo e consumidores completamente diferentes. Definitivamente há mais do que uma ponte aérea entre SP e RJ. Já havia percebido isto no hábito de se colocar ou não ketchup na pizza, mas sinceramente achava que na avaliação de uma churrascaria a convergência e as preferências seriam maiores.
























