Depois de vários dias fechado, o acesso a uma das maiores atrações do Atacama, os geisers do Tatio, havia sido reaberto. Nós (e a Gaviões…) resolvemos ir. O lugar é mesmo incrível , com as fumacinhas e as águas quentes sendo expelidas da terra. Dá para cozinhar um ovo nas piscininhas naturais que estão a uns 4.300 metros de altitude. 
Tudo estava ótimo quando no caminho de volta, eis que a van em que estávamos atolou. 
Há uma tese que diz que não devemos esperar resultados diferentes se repetimos a maneira como fazemos as coisas.
Ela foi mais uma vez comprovada, quando mais duas vans do nosso hotel atolaram no mesmo lugar ao tentar passar da mesma maneira. Resumo: umas 40 pessoas , de todas as idades e nacionalidades, e que não se conheciam, tentando fazer prevalecer a sua forma de resolver o impasse de ter 3 carros empacados em um atoleiro de 150 metros. Teve o grupo do pânico, talvez inspirado pelos mineiros ou pelos sobreviventes dos Andes, teve a turma do “não é comigo” e me traz uma “cervezita”, tiveram os Hércules que queriam arrancar os carros no braço, surgiram os “engenheiros” que queriam fazer uma estrada paralela. Rolou discussão, briga, solidariedade e diversão. O desfecho ? Fomos resgatados por um carro 4×4 de um hotel concorrente que depois de três horas, conseguiu rebocar os carros.. Como exercício de dinâmica de grupo para recrutamento de trainees teria sido perfeito…Com certeza este dia ficará na lembrança, tanto pelo vapor e pelas águas quentes, como também pela lama.
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Vapor e lama
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Crônica de um dia em que começou a chover e não parou mais
Nestes dias eu deveria estar vendo o mar, aquele que fica perto da praia, mas consigo ver apenas o mar de chuva que cai dos céus. Começou a chover em 2011 e não parou mais…O dilúvio combinado com a completa falta de atrações esportivas na TV (é férias e não tem sequer taça SP de futebol Jr, ou desafio Rio x SP de veteranos em futebol de areia) leva a um quadro definido pelos especialistas como sendo de tédio . Pensamos em voltar para SP, para vivenciar o tédio sob uma perspectiva urbana mas tédio com trânsito na Rio Santos/ Imigrantes é uma combinação ainda mais explosiva. 
O tédio tem suas virtudes e quando ele chega a um estágio muito avançado te força a ser pró-ativo e criativo. Revirei todos os canais da TV a cabo, reencontrando filmes que já julgava extintos juntamente com os dinossauros. E a busca pelas estantes da casa ? Localizei um livro açucarado da Danielle Steel e concluí que retrospectivas da TV Globo ainda seriam melhores opções do que me aventurar pelas histórias de amor de Peter Haskell e Olívia Thatcher, personagens que encontrei na orelha do livro. Ressurgem as idéias dos jogos de tabuleiros ou cartas mas nos damos conta que o nosso plano de fazer uma série histórica de melhor de 71 partidas no gamão ficou preterido pelo esquecimento do tabuleiro. Tem o gamão no IPad mas não tem a mesma graça… Jogar “Stop” com mais de 40 anos de idade é justificativa para interdição e os anos de experiência me falam que eu devo fugir das polêmicas de colocar “Havana”como cor com a letra H e “Namorado” (o peixe!) como animal com a letra N. Prefiro evitar. E a Internet, mãe salvadora dos desocupados ? Sim, quando ela funciona, tem sido terapêutica mas até eu já cansei de ler sobre queimas de fogos pelo mundo, tráfego nas estradas e enchentes e desabamentos de verão. O que nos restou ? Minha esposa optou pelo projeto de mimetizar um urso em fase de hibernação e dorme umas 16 horas por dia. Eu estou mais ativo e me coloquei uma meta mais ambiciosa de concluir um sonho antigo: eliminar todos os porquinhos verdes do Angry Birds, mas tem que ser com classe, com 3 estrelas…Se continuar chovendo e com este tédio, acho que chego lá.
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Feliz 2012 !
Depois de vários anos voltei a passar o reveillon na praia. É aqui que os rituais acontecem…trânsito infernal, calor, as sete ondinhas, as roupas brancas, o foguetório. Do trânsito eu escapei espetacularmente. Já as primeiras sete ondas que pulei foram no terraço de casa, completamente inundado pela chuva torrencial que caiu ontem a noite. Acabei pulando as 7 do terraço mais 7 no mar, o que me gera uma expectativa de um ano fantástico, afinal estou com crédito com Iemanjá, e ela como deusa das águas não pode diferenciar água do mar de água do terraço. O meu deslize foi com o branco… com medo de pegar uma pneumonia em função de uma camiseta encharcada, abdiquei da cor oficial e fui de azul. Isto aconteceu não por uma questão de superstição mas sim porque esta era a cor da minha sunga e este era o meu único traje de reveillon. E se sunga já é uma coisa duvidosa, sunga branca somente seria permitida se eu fosse lutador de jiu jitsu. Fui de azul mesmo…
Saí de casa 23:58 e 00:02 eu estava de volta, completamente ensopado mas com os rituais devidamente completos. Mar, fogos, votos de ano novo…Aliás alguém poderia me explicar a graça de se soltarem rojões ? Fogos de artifício eu entendo, são realmente bonitos. Mas rojões servem apenas para aborrecer e assustar os cachorros e os bebezinhos da vizinhança. Não saem sequer em fotografias.Poderiam ser banidos das comemorações juntamente com as reportagens que informam que já é ano novo na Nova Zelândia…
Enfim, mais um ano se passou e a história começa toda de novo. A coisa boa é que se chuva servir para lavar a alma, certamente comecei 2012 completamente purificado. Feliz ano novo !
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Crônica de quase natal
O natal está chegando e com ele vem junto aquele momento do ano em que o amor predomina. Começa pelo processo fácil de se pensar em quem merece presente e o que comprar. Algumas famílias adotam o empolgante amigo secreto e discutem por semanas qual a regra mais justa. Bem coerente com o espírito de natal,se fazem alianças, conchavos e artimanhas para que os favoritos não sorteem os chatos…Outras famílias abdicam da troca de presentes e agora fazem apenas doações para crianças desamparadas e lares de velhinhos. Existe um grupo mais conservador que estabelece informalmente que os homens troquem entre si caixas contendo camisas da Richard’s com variação da cor da listra e que as mulheres se surpreendam com a fragrância do sabonete L’Occitane que ganharão (será Verbena, Oliva ou Chá verde ?).
As avós competem para ver quem entrega o maior embrulho para os netos, tias distantes distribuem a todos pares de meias sociais, os amigos que gastam pouco dizem que não é um presente e sim “apenas uma lembrancinha”, um tio gordo se veste de papai noel com barba de algodão e todos, inclusive as crianças, morrem de medo. Já os casais discutem e brigam para ver se comerão o perú com a família de um e a sobremesa com a família do outro, ou vice-versa . Não estar presente na hora em que o perú é fatiado é prova de falta de amor e desperta sentimentos de vingança eterna. 
Enfim, muda o endereço, o tamanho do embrulho, os personagens mas o enredo é quase o mesmo. É época de natal…Odiamos, reclamamos mas adoramos. É quando a família é mais família. É difícil viver sem…
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Um show à parte durante o show do Ben Harper
Foi separado no nascimento do Jack Johnson e tem uma série de músicas legais. Enfim, está no playlist oficial da minha casa com “She’s only happy in the sun”, “With my own two hands” e outras que também nunca ouvi falar mas que a minha esposa como fã diz que são incríveis e coloca para tocar com freqüência (dá para perceber que eu não tenho carteirinha de sócio do fã-clube dele mas estou em processo de evolução contínua).
Algumas vezes um pouco entediado com longos solos de bateria, além de ouvir as músicas, resolvi prestar atenção no universo ao meu redor. Além das fotos do show e da gravação de trechos das músicas favoritas com meu telefone resolvi brincar com um aplicativo do IPhone chamado “Socialcam”. O que ele faz ? Permite que você grave um vídeo e na hora já publique na sua conta de Facebook,Twitter e Youtube. Ou seja, transmissão quase ao vivo. Como vocês verão no vídeo que coloquei no post a definição ainda não é perfeita, falta zoom mas a interatividade é total. Outro entretenimento paralelo para mim foi ver o que as pessoas estavam achando do show, acompanhando os tweets que continham #benharper. Uns escrevem que é o melhor show da vida, outros dizem que estão chorando de emoção, já eu para testar a reação do povo, postei um #benharper chega de solos para encher linguica e vamos cantar ! Não tive eco…Fiquei frustrado…ninguém se manifestou. O smartphone foi um show à parte para mim.
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Corinthiano,maloqueiro e sofredor
Não gosto muito de discutir paixões clubísticas…cada um tem direito de escolher seu time e todos devem se lembrar de que apesar de tudo, futebol é apenas um esporte. Rivalidade é gostosa, serve para você atormentar os seus colegas de trabalho quando o seu time ganha e também para ser atormentado quando perde. Violência por causa time de futebol é ridícula e coisa de homem das cavernas…
Para mim, mais do que paixão, futebol serve para quebrar gelo e construir pontes, em qualquer ambiente, com qualquer classe social em todos os lugares do mundo. Ainda não encontrei nada mais universal e que fosse tamanho ponto de conexão entre as pessoas. 
Ser corinthiano dentro deste contexto é uma dádiva. O que conecta e integra os corinthianos não é um sobrenome italiano como os que tem os palmeirenses, o orgulho de ser da elite como imaginam ser os são-paulinos ou uma devoção eterna ao passado como a que tem os santistas. Ser corinthiano é ser maloqueiro e sofredor mesmo quando se paga uma fortuna para conseguir um ingresso da final no câmbio negro e se volta para casa de carro importado. É estado de espírito. É diferente e por isto é especial. Os outros times também tem torcida (pequenas é verdade) mas é a torcida do Corinthians que tem um time e determina o seu espírito e quais são os seus valores. É “top down”…ou se adapta ou não joga…Quem já pulou e cantou com o grito de que “Aqui tem um bando de loucos” sabe do que estou falando. Quem participou do minuto de silêncio pela morte do Sócrates entende…
Nesta hora não tem cor, não tem renda, pode ter ou não ter dente…A saída de ontem pelo portão principal do Pacaembu com a turma do Pavilhão Nove e da Gaviões foi uma aula avançada de etnografia. Todos diferentes, cada um vindo de um canto mas coesos: naquela hora éramos todos corinthianos, maloqueiros, sofredores….e felizes.
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Nós vamos invadir a sua praia
Depois de dez anos chegou a hora de renovar o meu visto para entrada nos Estados Unidos. 
Eu nunca havia ido ao consulado. Todos os meus outros vistos anteriores haviam sido providenciados por despachantes e as histórias que ouvia sobre o processo, para mim eram apenas lendas e exageros. Bem, ontem foi dia de testemunhar e vivenciar a experiência. Antes de chegar já vem os alertas: celulares e eletrônicos não são permitidos (o meu token do Banco Itaú é qualificado como um eletrônico de última geração e também não entra), o que fez prosperar o negócio dos guarda volumes na região. Por R$ 5,00 eles se encarregam de proteger os seus bens. Horas de espera (no meu caso, sendo liberado de fazer a entrevista, foram 3 horas admirando a minha senha número 3161) permitem que você observe as pessoas…2 grupos distintos: o grupo 1 é composto por executivos engravatados aborrecidos com as filas, preocupados com os seus compromissos da sequência da tarde e fazendo cara de que vão com tanta frequência para os EUA que chamam o Obama de Barack… exalam um ar de menosprezo e repulsa pelo processo e ficam isolados, solitários. Já o outro grupo é bem mais divertido: pessoas que estavam lá pleiteando o seu primeiro visto. Um grande contingente de estudantes, famílias indo para as férias na Disney e aqueles que ainda acreditam que podem “fazer a América” pensando em conseguir um trabalho por lá. Este grupo ao contrário, transpira tensão. Não sabem se obterão ou não o visto…Trazem pilhas de documentos, compartilham entre si histórias escabrosas de pessoas que tiveram seu visto negado, analisam quais pessoas nos guichês tem uma aparência mais amistosa, trocam dicas sobre o que falar e o que não falar para o entrevistador. Sente-se no ar uma cumplicidade e solidariedade. Um “torcendo” pelo outro…
O mais interessante é no final…depois de todo o longo circuito interno com triagem de documentos, digitais e entrevistas, ainda há uma fila do “Sedex”, onde se fazem os pagamentos para que os passaportes já com o visto, sejam remetidos de volta aos seus donos. As pessoas do grupo “executivo” mantém a sua aparência blasé…entendiadas em encarar mais meia hora de fila. Já o time do grupo 2 não esconde a alegria pela conquista. Sorriem, se cumprimentam mutuamente e compartilham os seus planos de viagem aos Estados Unidos. A sensação de inclusão social é enorme! Todos foram aceitos no chamado “primeiro mundo” e estão ansiosos para colocar os chapéuzinhos com as orelhas do Mickey e comprar eletrônicos na Best Buy. 
Valeu pela etnografia do dia mas fico feliz de apenas ter que passar por isto novamente daqui uma década….
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Preconceitos e seus efeitos

A Emirates é uma das 6 patrocinadoras oficiais da Copa do Mundo e não quer ter a sua imagem associada a entidades lideradas por pessoas que fazem declarações deste tipo. Os outros 5 patrocinadores também foram obrigados a vir a público e dizer que não toleram o racismo. Aliás, por falar em racismo e preconceito, a Benetton ressurgiu….e bem mais legal do que o ruído causado pelas imagens de beijos entre celebridades da sua nova campanha publicitária, é o filme que está por trás da idéia e que se chama UNHATE. Passou completamente despercebido em função da polêmica causada pela bicotinhas do Papa e do Obama mas tem mensagens fortes contra todas as formas de discriminação.

Foi bom para me fazer lembrar que a Benetton ainda existe e ter uns flash-backs de uns casacos de cores bonitas que tive na adolescência…Para mim a Benetton já havia se juntado a outras marcas mais extintas a ararinha azul e ao mico leão dourado como espécies quase em extinção.
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