Fora de sintonia

Hoje li a notícia que a rádio MIT FM vai sair do ar a partir de março. As poucas pessoas da minha faixa etária com as quais convivo e que gostam de rádio, ouvem a MIT FM e a identificam como a melhor opção de um dial tomado por Victors, Léos, Telós e sertanejos pseudo universitários. Cada dia que passa eu me convenço que o problema sou eu e que minha audiência deve ser subqualificada. Não é possível…Alguns anos atrás fui dormir ouvindo Rock na 89FM e fui despertado com acordes axézisticos e gritos de Aê,Aê,Aê,Ô,Ô,Ô…Primeiro achei que tinha errado e depois percebi que a “rádio rock” tinha virado a “rádio tudo menos rock” (agora se chama rádio Fast, o que não me diz muito…). Em uma fase mais cabeça, migrei para a Eldorado FM, onde aprendi quem eram os ” Móveis Coloniais de Acajú” e que Mariana Aidar, Céu, Roberta Sá e Teresa Cristina, embora cantem coisas quase iguais e com a mesma voz,não são a mesma pessoa com vários pseudônimos…Durou pouco. A Eldorado virou rádio Estadão ESPN e lá fui eu em busca de uma nova estação de referência. Estava feliz com a MIT…musiquinhas década de 80/90, lançamentos na medida certa, poucos comerciais e hoje leio que a rádio também acabará. Acho que perceberam que os ouvintes não estão comprando Pajeros. Parece que o meu gosto musical não está sendo o da maioria, estou fora de sintonia. Acho que chegou a hora de me iniciar no pagode , no axé e no sertanejo universitário. Se fizer isto com certeza meus ouvidos serão um pouco torturados mas não sofrerei novas desilusões estereofônicas…

Twitter: o passarinho vai para a gaiola

Recentemente o Twitter anunciou que desenvolveu um mecanismo que permite que os tweets passem a ser monitorados e bloqueados em diferentes regiões. Um mesmo tweet poderia ser liberado em um país e bloqueado em outro. Um determinado país faria uma solicitação ao Twitter para que os tweets relacionados a temas “ilegais” fossem bloqueados. No lugar, o Twitter postaria uma mensagem de censura ao invés da mensagem originalmente postada.
Parece um roteiro perfeito para Cuba, Síria e afins. Eis que surge o primeiro candidato a exercer o poder de censura: Brasil! Justo nisto fomos ser pioneiros ?!
O governo brasileiro entrou com um processo solicitando que o Twitter exerça o bloqueio sobre mensagens relacionadas a ocorrência e localização de blitz de trânsito,fiscalização de lei seca, radares móveis etc… Se a liminar for concedida, o Twitter será considerado co-responsável pelos tweets que estimulam o drible a lei e pagará R$ 500.000,00/dia por infração. Será que não existe alguma solução mais inteligente ? Não me parece que mesmo que a censura seja implementada irá resolver alguma coisa. Comunicação não se prende na gaiola. Telefones celulares e e-mails continuarão existindo, mensagens cifradas serão criadas. É algo bem parecido com tirar o sofá da sala para que a filha não namore. Cidadania e responsabilidade não virão com censura.

Xu Xaine

Fim de viagem e volta ao Brasil. Estava tudo muito estranho e atípico em Cumbica: tinha vaga para o avião encostar no finger, não tinha fila para mostrar o passaporte, a mala já estava circulando pela esteira e foi chegar e passar direto pela deserta receita federal. Tudo tão rápido e eficiente que saí do aeroporto muito antes do que havia combinado com o motorista que iria me buscar. Fiquei do lado de fora esperando e aí Cumbica voltou a ser Cumbica e percebi que meu momento suiço tinha sido ilusório. Enquanto esperava, via todas as tripulações saindo em direção aos seus ônibus que os levariam aos hotéis para descansarem. No caminho todos eram abordados por meninos de rua, que gritavam e perguntavam “Xu Xaine ?”, “Xu Xaine ?”. Alguns tripulantes passavam reto e os ignoravam. Outros paravam esticavam os seus sapatos para uma sessão de “shoe shining” ou em bom português, para terem os seus sapatos engraxados. O pagamento ? Iogurtes, refrigerantes e restos de comida trazidos de bordo. Triste. Privatizamos os aeroportos, melhoraremos nossa infra estrutura mas ainda falta muito para o Brasil deixar de engraxar os sapatos dos outros.

Pedreiros made in USA

Show da Madonna durante o Super Bowl, montado e desmontado em minutos

E os NY Giants ganharam o Super Bowl. Poderia escrever sobre o jogo, sobre a Madonna , sobre os comerciais mais assistidos, mas desta vez resolvi escrever sobre os “pedreiros” americanos. Pedreiros ? Pedreiros talvez não seja o nome mais adequado para o que os cenógrafos fizeram, mas quem viu a velocidade de construção e “desconstrução” do palco do show da Madonna durante o intervalo deve ter ficado impressionado. Em menos de dez minutos e sem destruir um gramado natural, os “pedreiros” construíram uma estrutura que foi capaz de sustentar a ginástica aeróbica da Madonna (bem mais em forma do que eu, ainda mais considerando a idade que tem) tendo uns cem bailarinos como coadjuvantes. Não sei como eles conseguem fazer isto mas juro que fiquei pensando que alguém tem que se inspirar nesta mão de obra qualificada! A capacidade de se construir ou reformar alguma coisa rapidamente, sem destruir tudo o que está em volta é algo bem escasso por aqui e deve existir um mercado ansioso por um trabalho minimamente profissional.
Quem tem experiência de passar por uma obra, seja ela a pintura de uma parede ou a construção de uma casa, já se deparou com o desespero da falta de prazos, dos desaparecimentos súbitos e do tsunami doméstico causado pelos nossos nobres prestadores de serviço. Ontem fiquei com inveja dos “pedreiros” americanos. Não sei se eles serviriam para bater laje e subir parede mas que foram incríveis para os vinte e poucos minutos de show da Madonna, isto foram…

De IPad para ICrash

Qual a sensação que você tem quando o seu IPad de estimação se esborracha no chão e a tela se transforma em um mosaico de cacos de cristal líquido ? No meu caso, a primeira reação foi procurar quem culpar. Pensei nas crianças e na empregada mas como eu estava sozinho, a responsabilidade obrigatoriamente recaiu sobre mim mesmo. Me repreendi duramente, me julguei uma anta e me auto-flagelei. Como nada disto foi suficiente, veio a dúvida entre esperar 2 meses e comprar um possível IPad 3 ou encarar o olhar de reprovação do vendedor da Apple Store, fazer cara de carente e chorar um desconto para pegar um novo. Ficar mais dois meses olhando a tela em migalhas e me recriminando pela orelhada, certamente geraria um mau humor tamanho em mim que a dúvida se dissipou rapidamente. Aproveitando que eu estava nos EUA, lá fui eu para a Apple Store. Algumas lendas da Internet diziam que a Apple reporia o meu Ipad de graça. Bem que tentei chegar com cara de vítima, de nerd abalado, mas não foi bem assim…Recolheram o IPad antigo e me venderam um novo, exatamente igual,pela metade do preço. Já sai da loja com o novo IPad clonado, com todos os aplicativos e configurado de maneira idêntica ao original. Achei justo e simpático, afinal eles não tiveram nada a ver com a minha falta de coordenação motora ao derrubar o IPad.

O aplicativo da Apple Store. Você mesmo processa sua compra na loja...


O vendedor ainda me ensinou que se eu baixar o aplicativo da Apple Store para a IPhone, consigo entrar na loja e comprar acessórios sem sequer ter que falar com ninguém. O aplicativo transforma meu celular em um leitor de código de barras e processador de cartão de crédito e eu mesmo faço tudo. Por isto a Apple é a Apple.

Vai para o trono ou não vai ?

Recentemente um conhecido meu esteve no Japão. A idéia original era voltar falando sobre as peripécias de Neymar e companhia e como havia sido bonita a conquista do título mundial de futebol interclubes. Como o tema futebol se transformou em pesadelo, o assunto favorito dele passou a ser as incríveis privadas inteligentes japonesas da marca Toto . Elas levantam a tampa, dão descarga sozinhas, tem bidê embutido,aquecem o assento no inverno, enfim, trazem todas as funções fundamentais que todo mundo busca quando vai ter o seu momento de reflexão. A adoração dele pela Toto foi tão grande que ele garante que um dia irá importar uma para valorizar o seu banheiro. Não me surpreenderia se fosse mais longe e se transformasse em representante exclusivo da marca no Brasil
Estou nos Estados Unidos e não há nada tão high tech como as Toto, mas também me deparei com uma novidade no banheiro,não na privada, mas dentro no box. O chuveiro do meu banheiro é equipado com uma ducha dupla, com duas cabeças e que foi presunçosamente chamada de Heavenly Shower. Juro que estou tentando, banho após banho, perceber alguma vantagem vs. um chuveiro tradicional. Confesso que nada…apenas uma sensação de culpa por aparentemente estar gastando mais água e comprometendo o futuro da humanidade. É um design bem estranho e que parece sem função. Entre as promessas de um banho paradisíaco ou um relaxamento high-tech da Toto estou decidido a privilegiar a segunda. Quem vai para o trono é a Toto !

Janelas do mundo

Sempre que viajo a trabalho por aí, tenho o hábito de abrir a cortina do quarto do hotel, tirar uma foto da vista e mandar para a minha mulher. Ela faz a mesma coisa. É a maneira que encontramos de nos aproximarmos, mostrar ao outro onde estamos, em que lugar do mundo viemos parar e emprestar os nossos olhos para quem gostaríamos que estivesse conosco. Não importa se a vista é bonita ou feia, isto não é importante para o nosso pequeno ritual.
Hoje, entrei no meu quarto de hotel em New Jersey e lá fui eu abrir a cortina e olhar pela janela. Quando puxei a cortina dei de cara com a vista da construção da nova torre do World Trade Center, do outro lado do rio. O prédio que terá 104 andares, está com 90 pisos construídos e já se destaca muito no horizonte de Nova York. Ao invés de ver o futuro, confesso que vi o passado. Mesmo depois de quase 12 anos, olhei pela janela e não vi um prédio novo subindo…Vi o antigo desabando. Não tive vontade de fotografar, não tive vontade de lembrar. Mandei uma foto tirada meio de lado, que mostra um singelo supermercado que fica na direção oposta. Menos opulência, menos pensamentos ruins, mais acolhimento, mais cara de casa.

O mítico pão de semolina

Nas últimas semanas tenho viajado bastante por diferentes estradas de São Paulo e é impressionante a velocidade de expansão da Rede Frango Assado. Em qualquer estrada de repente surge um restaurante “Frango Assado” enorme que é garantia de um lugar decente para as crianças entediadas esticarem as pernas e sobretudo utilizarem um banheiro minimamente honesto. Atrás da expansão do Frango Assado está o capital da International Meal Company, que também é dona da rede de restaurantes Viena. Hoje cada loja do “Frango Assado” tem até business point com wi-fi mas não sei o que fizeram com o tal do frango que foi o responsável pelo nome da loja original e que além de enfeitar (ou enfear) a marca da rede, é bem coadjuvante…O frango é negligenciado até nas campanhas de divulgação da rede e claramente perde em importância e apelo popular para o pão de semolina, que originalmente era oferecido para quem abastecesse o carro no complexo Frango Assado.

O ícônico pão de semolina...


O mais interessante é que o tal pão, que na opinião de alguns especialistas (acredito mais na tese de que estavam famintos), é espetacular, se transformou em ferramenta de disputa entre vários restaurantes/postos de estrada. O Graal e o Lago Azul, concorrentes do Frango Assado, também fazem grande alarde em torno do seu pão de semolina. Não tenho a menor idéia de qual seja melhor mas é no mínimo inusitado tentar fidelizar consumidores de postos e restaurantes de estrada através de um pão. A verdade é que o tal pão desperta memórias de infância em um monte de gente e parar para comê-lo significa mais do que matar a fome e esticar as pernas. Já presenciei testemunhais emocionados de um monte de gente sobre o tal pão e confesso que me senti um pouco alienado. Algo similar ao que sinto quando as pessoas comentam do Crô e da Tereza Cristina. Preciso me redimir… pretendo fazer um roteiro gastronômico com degustação do pão de semolina para me iniciar neste mundo…

Vale a pena ver de novo, versão fashion…

Semana passada começou a SPFW, ou São Paulo Fashion Week, evento semestral de moda em que os principais estilistas do Brasil lançam as suas coleções para as próximas estações. Não sou um especialista no assunto mas cada vez que vejo a movimentação em torno da SPFW eu sou tomado por uma sensação muito parecida com a que tenho quando aparecem os desfiles de escola de samba na TV. Ambos tem desfile e passarela ? Sim, mas não é este o ponto..o que para mim aproxima as duas coisas é minha absoluta certeza de já ter visto exatamente a mesma coisa em anos anteriores. Se colocarem um replay do desfile da Salgueiro em 2005 na hora da escola desfilar em 2012, não sei se existirão diferenças substanciais e se as pessoas perceberão… Com estes desfiles de moda tenho percepção parecida…Moda deveria ser inovação, criatividade e até um pouco de transgressão e fantasia. Vejo que são sempre as mesmas Gloria Kalil, Constanza Pascolato, Julia Petit, Lilian Pacce comentando desfiles das mesmas Glória Coelho, Reinaldo Lourenço, Carlos Miele. Se reinventar a cada seis meses e ser forçado a apresentar coisas novas é difícil e admirável, mas tenho a impressão as mudanças são mínimas e difíceis de serem percebidas. Tudo tem cara de meio requentado ou de “já vi em algum lugar”… São sempre os mesmos personagens, no mesmo lugar, utlizando as mesmas modelos andrógenas e esqueléticas, com a mesma trilha sonora e o mesmo agradecimento meio amarelo ao público no final dos desfiles. Será que não dá para combinar inovação das roupas com inovação na forma de se apresentarem as roupas ? Tem alguém que realmente está inventando moda ou é tudo uma grande reprise, um “Vale a Pena ver de novo fashion” ??

“Luiza está no Canadá”,”Vada a bordo”. Nada a ver, tudo a ver…


Tudo começou com um comercial de um empreendimento imobiliário veiculado na Paraíba. O “ator” principal é Geraldo Rabello, uma espécie de Amaury Jr. local que foi contratado para discorrer sobre as maravilhas do Boulevard Saint Germain, um apartamento com 4 suítes, sala com 3 ambientes, varanda gourmet e grande área de lazer, perfeito para uma família da alta sociedade. Para dar ainda mais peso ao seu testemunhal, Geraldo, aparece no comercial ao lado da esposa e de dois filhos, e diz que estão todos lá para recomendar o empreendimento, menos a Luiza que está no Canadá. Pronto…Luiza uma adolescente de 17 anos que partiu para um intercâmbio em Agosto, de repente foi levada a condição de celebridade virtual, sem sequer saber o que estava acontecendo. “Menos Luiza que está no Canadá” se transformou em fenômeno brasileiro na internet, com o hashtag #LuizaEstanoCanada virando trend topic no Twitter.
Enquanto isto na Itália, o esculacho que o chefe da capitania dos Portos, Gregorio de Falco, deu no capitão Schettino, responsável por uma das maiores barbeiragens da história, também virou febre.”Vada a bordo,ca**o” explode na internet, com páginas e páginas nas redes sociais de homenagem ao comandante De Falco e o meme (ou bordão, para agradar a todos) é repetido exaustivamente.
Da Paraíba a Livorno, do fútil ao drama, tudo acaba convergindo. Muda a escala da repercussão, muda a origem do fato mas hoje tanto a “Luiza está no Canadá” como o “Vada a Bordo” dominam as conversas . Um não tem nada a ver com o outro, ambos tem tudo a ver.Uma semana atrás eles não existiam e daqui a dez dias serão passado. Luiza voltará ao Brasil, De Falco será homenageado. Ambos serão perseguidos pela mídia. Ambos sumirão. Tão diferentes, tão próximos…

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