Recentemente um conhecido meu esteve no Japão. A idéia original era voltar falando sobre as peripécias de Neymar e companhia e como havia sido bonita a conquista do título mundial de futebol interclubes. Como o tema futebol se transformou em pesadelo, o assunto favorito dele passou a ser as incríveis privadas inteligentes japonesas da marca Toto . Elas levantam a tampa, dão descarga sozinhas, tem bidê embutido,aquecem o assento no inverno, enfim, trazem todas as funções fundamentais que todo mundo busca quando vai ter o seu momento de reflexão. A adoração dele pela Toto foi tão grande que ele garante que um dia irá importar uma para valorizar o seu banheiro. Não me surpreenderia se fosse mais longe e se transformasse em representante exclusivo da marca no Brasil
Estou nos Estados Unidos e não há nada tão high tech como as Toto, mas também me deparei com uma novidade no banheiro,não na privada, mas dentro no box. O chuveiro do meu banheiro é equipado com uma ducha dupla, com duas cabeças e que foi presunçosamente chamada de Heavenly Shower. Juro que estou tentando, banho após banho, perceber alguma vantagem vs. um chuveiro tradicional. Confesso que nada…apenas uma sensação de culpa por aparentemente estar gastando mais água e comprometendo o futuro da humanidade. É um design bem estranho e que parece sem função. Entre as promessas de um banho paradisíaco ou um relaxamento high-tech da Toto estou decidido a privilegiar a segunda. Quem vai para o trono é a Toto !
Vai para o trono ou não vai ?
Janelas do mundo
Sempre que viajo a trabalho por aí, tenho o hábito de abrir a cortina do quarto do hotel, tirar uma foto da vista e mandar para a minha mulher. Ela faz a mesma coisa. É a maneira que encontramos de nos aproximarmos, mostrar ao outro onde estamos, em que lugar do mundo viemos parar e emprestar os nossos olhos para quem gostaríamos que estivesse conosco. Não importa se a vista é bonita ou feia, isto não é importante para o nosso pequeno ritual.
Hoje, entrei no meu quarto de hotel em New Jersey e lá fui eu abrir a cortina e olhar pela janela. Quando puxei a cortina dei de cara com a vista da construção da nova torre do World Trade Center, do outro lado do rio. O prédio que terá 104 andares, está com 90 pisos construídos e já se destaca muito no horizonte de Nova York. Ao invés de ver o futuro, confesso que vi o passado. Mesmo depois de quase 12 anos, olhei pela janela e não vi um prédio novo subindo…Vi o antigo desabando. Não tive vontade de fotografar, não tive vontade de lembrar. Mandei uma foto tirada meio de lado, que mostra um singelo supermercado que fica na direção oposta. Menos opulência, menos pensamentos ruins, mais acolhimento, mais cara de casa.
Hamburger socializado
Quem conhece Nova York sabe que existe uma disputa sobre qual o melhor Hamburger da cidade. Nada diferente da disputa por quem é a melhor baiana de Acarajé em Salvador, qual o melhor pastel de feira de São Paulo e qual o melhor bolinho de bacalhau do Rio de Janeiro. Tem um lugar dos cotados, que se chama Shake Shack que eu gosto bastante. Muito menos pelo Hamburger em si e mais pela experiência, afinal o Shake Shack é um quiosque no meio de uma praça. Alivia um pouco a sensação de culpa pelas calorias você poder comer o seu Hamburger a céu aberto. Seria bucólico não fosse pelo ataque de esquilos e pombas que sofri hoje. Os animais também estavam interessados em degustar o hamburger e socializar minha comida. Parte do tomate do meu cheeseburger foi furtado por um objeto voador não identificado e tive que me proteger de esquilos com olhar ameaçador que miravam minha batata frita. Eram uma espécie de Tico e Teco possuídos…
Confesso que já tive experiências gastronômicas mais divertidas e menos participativas. Valeu para matar a saudade mas da próxima vez voltarei a procurar ambientes mais tradicionais, mesmo que a culpa pela comida trash aumente.
A aranha e a cigarra
Tenho enormes dificuldades com os espetáculos da Broadway. Respeito as super produções mas confesso que a cantoria dos musicais não é exatamente a coisa que mais gosto. No passado fui até rever Fantasma da Ópera para ver se eu nõo havia entendido ou se eu era chato mesmo. Concluí que eu e o Fantasma tínhamos mesmo incompatibilidade de gênios…
De passagem por NY fui assistir ao mais recente sucesso da Broadway: Homem Aranha. Os motivos para tentar superar meu preconceito foram as relatadas performances acrobáticas do super herói que voa pelo teto de todo o teatro e a trilha sonora feita pelo U2. Meu veredicto é que enquanto o Homem Aranha é aranha, o espetáculo é realmente legal, com voos pelos três pisos do teatro e telões com imagens de alta definição que fazem você pensar que está em um show de uma banda de Rock. O problema é quando a aranha resolve virar cigarra e cantar. Tem pelo menos meia hora de cantoria do personagem Peter Parker para a Marie Jane que são soníferos de primeira qualidade. Vou minimizar e não dar muita ênfase a questão do figurino do vilão Green, que parece ter sido inspirado na Cuca do Sítio do Picapau amarelo (quem assistir concordará comigo !).
Estou atualizado, tenho assunto com todos os brazucas que também estão por aqui mas a missão Broadway do ano,está cumprida, sem perspectivas de repetição futura.
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A dura vida de uma mula…
Sempre que alguém que conhecemos vai morar fora do Brasil temos algumas reações meio padronizadas. Se for alguém de quem gostamos, queremos que a pessoa volte logo, que tenha sucesso na sua experiência, sentimos saudades e queremos ir visitar (desde que o sujeito tenha ido morar em algum lugar legal, é claro). A pessoa está longe mas quando reencontramos parece que o tempo não passou e as história da vida são retomadas imediatamente, quase sem rupturas, apesar dos milhares de Km de distância.
Se for alguém por quem não temos muita simpatia, torcemos por invernos gelados com neve e escorregões no gelo, para que a Globo Internacional e o PPV do Campeonato Brasileiro não funcionem, para que os vizinhos sejam cruéis e reclamem de tudo…Não é um sentimento muito bonito, mas enfim, esta é a vida.
Quando além de gostarmos da pessoa,temos intimidade, o próximo passo é transformar a sua casa em um entreposto de entrega de mercadorias. Dizemos que são coisas pequenas, que não incomodam e para sermos educados, perguntamos se ele se incomodaria de trazer na próxima viagem ao Brasil. A criatura fica institucionalizada como uma espécie de FedEx doméstico, ou em português mais coloquial,uma “mula”, trazendo as encomendas da turma e também fazendo favorzinhos na volta, levando coisas para abastecer algum conhecido da comunidade brazuca.
Não é fácil a vida da “mula”…Se for uma “mula” vivendo nos Estados Unidos, sempre que mandamos alguma coisa para a casa do cidadão, ele como punição adicional ainda é adicionado ao mailing de catálogos do fabricante do produto que mandamos entregar. Ou seja, mesmo depois da entrega feita, a nossa “mula” querida, continua conversando com o serviço prestado ao abrir a sua caixa de correspondência. Talvez seja a nossa forma de ficar mais perto e fazer com que a pessoa não esqueça da gente… 
PS: Este post não é baseado em fatos reais. É pura ficção
O mítico pão de semolina
Nas últimas semanas tenho viajado bastante por diferentes estradas de São Paulo e é impressionante a velocidade de expansão da Rede Frango Assado. Em qualquer estrada de repente surge um restaurante “Frango Assado” enorme que é garantia de um lugar decente para as crianças entediadas esticarem as pernas e sobretudo utilizarem um banheiro minimamente honesto. Atrás da expansão do Frango Assado está o capital da International Meal Company, que também é dona da rede de restaurantes Viena. Hoje cada loja do “Frango Assado” tem até business point com wi-fi mas não sei o que fizeram com o tal do frango que foi o responsável pelo nome da loja original e que além de enfeitar (ou enfear) a marca da rede, é bem coadjuvante…O frango é negligenciado até nas campanhas de divulgação da rede e claramente perde em importância e apelo popular para o pão de semolina, que originalmente era oferecido para quem abastecesse o carro no complexo Frango Assado.
O mais interessante é que o tal pão, que na opinião de alguns especialistas (acredito mais na tese de que estavam famintos), é espetacular, se transformou em ferramenta de disputa entre vários restaurantes/postos de estrada. O Graal e o Lago Azul, concorrentes do Frango Assado, também fazem grande alarde em torno do seu pão de semolina. Não tenho a menor idéia de qual seja melhor mas é no mínimo inusitado tentar fidelizar consumidores de postos e restaurantes de estrada através de um pão. A verdade é que o tal pão desperta memórias de infância em um monte de gente e parar para comê-lo significa mais do que matar a fome e esticar as pernas. Já presenciei testemunhais emocionados de um monte de gente sobre o tal pão e confesso que me senti um pouco alienado. Algo similar ao que sinto quando as pessoas comentam do Crô e da Tereza Cristina. Preciso me redimir… pretendo fazer um roteiro gastronômico com degustação do pão de semolina para me iniciar neste mundo…
Vale a pena ver de novo, versão fashion…
Semana passada começou a SPFW, ou São Paulo Fashion Week, evento semestral de moda em que os principais estilistas do Brasil lançam as suas coleções para as próximas estações. Não sou um especialista no assunto mas cada vez que vejo a movimentação em torno da SPFW eu sou tomado por uma sensação muito parecida com a que tenho quando aparecem os desfiles de escola de samba na TV. Ambos tem desfile e passarela ? Sim, mas não é este o ponto..o que para mim aproxima as duas coisas é minha absoluta certeza de já ter visto exatamente a mesma coisa em anos anteriores. Se colocarem um replay do desfile da Salgueiro em 2005 na hora da escola desfilar em 2012, não sei se existirão diferenças substanciais e se as pessoas perceberão… Com estes desfiles de moda tenho percepção parecida…Moda deveria ser inovação, criatividade e até um pouco de transgressão e fantasia. Vejo que são sempre as mesmas Gloria Kalil, Constanza Pascolato, Julia Petit, Lilian Pacce comentando desfiles das mesmas Glória Coelho, Reinaldo Lourenço, Carlos Miele. Se reinventar a cada seis meses e ser forçado a apresentar coisas novas é difícil e admirável, mas tenho a impressão as mudanças são mínimas e difíceis de serem percebidas. Tudo tem cara de meio requentado ou de “já vi em algum lugar”… São sempre os mesmos personagens, no mesmo lugar, utlizando as mesmas modelos andrógenas e esqueléticas, com a mesma trilha sonora e o mesmo agradecimento meio amarelo ao público no final dos desfiles. Será que não dá para combinar inovação das roupas com inovação na forma de se apresentarem as roupas ? Tem alguém que realmente está inventando moda ou é tudo uma grande reprise, um “Vale a Pena ver de novo fashion” ??
Fatos e fotos
Esta semana a Kodak entrou em concordata para tentar escapar da falência. Difícil associar a Kodak ao mundo digital, impossível não lembrar das caixinhas amarelas, com filmes de diferentes poses e diferentes asas. Os únicos felizes devem ser os professores de Harvard que certamente já estão produzindo os seus cases e livros sobre a Kodak, falando dos perigos da arrogância do líder de um segmento não entender que o mundo está mudando e entrar em extinção. Tudo lindo de se dizer, especialmente depois que já passou…Já foi assim com a Olivetti, a Atari e outras mais…Enfim, com a Kodak ou sem a Kodak, as fotografias são uma chance de se perpetuar a história, de se transportar pelo tempo registros e de se entender melhor outras épocas. Esta semana a National Geographic (www.nationalgeographic.com) divulgou novas fotos da expedição do comandante Scott na sua fracassada tentativa de ser o pioneiro na conquista do pólo sul. As fotos tem exatamente 100 anos mas a força e a nitidez das imagens são tão grandes que parecem ter sido publicadas ontem no jornal.Você se sente dentro da expedição e compartilha um pouco de uma das histórias mais incríveis do século passado e que assim como no caso da Kodak, envolveu subestimar o novo mundo, não estar preparado para a mudança. Tudo fácil de falar e difícil de praticar.
Reflexões de administrador a parte, ainda bem que as memórias que as fotos nos trazem persistirão para sempre. As fotos serão bem maiores do que os fatos ! Viva a Kodak e seu legado! Viva Scott e sua fantástica e trágica expedição.


Publicado em Mundo de Dilbert, Viagem
















