O elefante quase roeu a roupa do rei da Espanha

Não está fácil a vida do Rei da Espanha. Apareceu de bacia fraturada, foi operado, está caminhando de bengala mas ninguém está com nenhuma pena. A fratura aconteceu durante uma viagem de sua majestade a Botswana, para onde tinha ido com a nobre finalidade de caçar elefantes.

Detalhe é que  ninguém sabia da aventura e enquanto o rei se divertia, a Espanha enfrenta uma grave crise econômica com desemprego recorde e uma série de medidas austeras sendo tomadas pelo governo. Primeiro veio o desconforto de que a viagem estaria sendo paga com dinheiro público, agora se descobriu que quem pagou a conta foi um amigo saudita do rei, que tem uma série de negócios imobiliários na Espanha, configurando um pequeno conflito de interesses. Caçar elefantes também não parece ser uma atividade muito compatível com o cargo de presidente honorário da filial espanhola WWF (Fundo para Conservação da natureza), cargo que o rei também ocupa. O rei não teve escolha e veio a público pedir suas desculpas a população espanhola. Foi a primeira vez na história que sua realeza se dirigiu aos súditos para pedir perdão…Certamente compreendeu que seria melhor se desculpar do que ver crescer a pressão popular por um pontapé ainda maior em seu traseiro, que já está machucado. Fiquei pensando no que aconteceria se a mesma coisa ocorresse com o CEO de uma empresa e qual seria a posição  dos acionistas. Será que eles teriam a mesma paciência de elefante ?

A pecinha atrás do volante

Acordei na madrugada de domingo para assistir a corrida de fórmula 1 da Malásia. Tem muita gente que diz que neste tipo de esporte (assim como no hipismo, por exemplo), o homem não faz a diferença. Ganha quem tiver o melhor equipamento, seja um carro ou um cavalo. Quem acredita nesta tese e vê o Fernando Alonso ganhar a corrida e Felipe Massa terminar a prova em décimo quinto, deveria rever os seus conceitos. É fato…com equipamentos iguais, pessoas diferentes tem performances absolutamente diferentes. Estou vendo o calvário do Felipe Massa e ele me lembra bastante o ciclo dos CEOs que não entregam resultados. No começo, a culpa é sempre externa. No caso de Massa, as justificativas passaram por reflexos do acidente em que um parafuso atingiu sua cabeça, pneus que não atingiram a temperatura ideal, carros que não se adequaram ao seu estilo de pilotagem. Patriotadas e teorias da conspiração a parte, a verdade é que ele compete com pessoas melhores que ele. Massa é aquele funcionário que cumpre com os seus deveres e obrigações mas que nunca irá ser a estrela da companhia, já Alonso é “high potential”, promete, entrega e leva o time a um outro patamar. O problema para Massa, é que assim como no mundo corporativo, a fila anda e ele começou a bloquear o acesso de gente boa, jovens talentos que estão prontos para pegar o seu emprego.
Acabaram os álibis, esgotaram-se as justificativas e as pessoas passaram a acreditar que um dos problemas da Ferrari número 6, é justamente a pecinha atrás do volante. Será difícil o Massa sobreviver muito tempo neste ambiente…alías se a empresa fosse minha, depois deste final de semana, hoje ele estaria conversando com o RH e devolvendo o crachá.

Questão de expectativa

Esta semana foi feito o anúncio de que Rubens Barrichello correrá na Fórmula Indy em 2012. Não cabe a mim entrar no mérito de sua competência como piloto mas ninguém corre por vinte anos de Fórmula-1, por uma série de equipes diferentes, acumula uma fortuna pessoal, caso não seja minimamente competente. Apesar disto,ao mesmo tempo, Rubinho no Brasil é quase sinônimo de um looser, do eterno perdedor.
Sempre que penso em Rubinho, penso no mundo corporativo e como os executivos são avaliados. Para mim, a negociação dos “budgets” do Rubinho sempre foram consistentemente mal feitas…Por mais que ele realizasse, as pessoas sempre esperaram dele resultados maiores do que aquilo que ele poderia entregar. Ele nunca parou para renegociar, não cumpria o “acordado” e ao contrário, continuava prometendo mais…Nunca disse que o objetivo estava puxado demais para a sua realidade e isto só ajudou a ganhar uma fama de fracassado. A primeira regra do mundo dos negócios é cumprir 100% do prometido. Primeiro as pessoas olharão para o seu percentual de cobertura de cota e depois atentarão para que número estava lá. Cumprir 90% da meta é fracassar, por mais que a meta seja puxada. Quem faz 100% do prometido não deve explicações. Quem faz 90% passa dias explicando…Rubinho só explicou por anos a fio.
Rubinho aceitou um “budget” de sucessor do Senna, de competir de “igual para igual” com o Schumacher. Nos últimos anos corria com uma Williams, que provavelmente perderia um racha para o meu carro,mas fazia de conta que estava quase lá com a Red Bull.
Rubinho nunca declarou que estava brigando por vice-campeonatos, para ser o terceiro melhor brasileiro da história da Formula-1 ou para que sua última equipe ganhasse da Force India. Nunca alinhou as expectativas.Não o conheço e não sei se tratou de um tema de falta de auto-consciência ou se foram caprichos para agradar patrocinadores megalomaníacos, mas tenho certeza que se deixasse claro qual era a sua aspiração verdadeira, sua imagem junto público seria outra. Espero que depois de vinte anos e iniciando uma nova carreira, a negociação e a comunicação de suas expectativas sejam mais realistas. Ele já conseguiu um grande feito, recomeçar aos 40 anos, mas se vier a público, entusiasmado pela nova onda de assédio e começar a prometer sambadinha em Indianápolis repetirá o mesmo erro. Cabe a ele prometer menos e entregar mais…É assim que funciona o mundo corporativo.No esporte não é diferente.Ele já deve ter aprendido.

Raio, estrela e luar

Wando morreu. Do ponto de vista musical não acho que seja uma das maiores perdas para a música brasileira (ok, ele compôs Moça e Raio, Estrela e luar…), mas confesso que achava o Wando um grande personagem e um craque de marketing. Em um universo de cantores populares, ele conseguiu se diferenciar, criar uma marca própria e que fará com que seja lembrado por décadas. Wando definiu um posicionamento e foi fiel a ele até o final. Se colocava como um romântico, amante das mulheres e consolidou esta imagem se apropriando do símbolo máximo da intimidade feminina: as calcinhas. Seus shows (não, não compareci a nenhum) tinham banheiras, lençóis de cetim, cenas românticas e as fãs retribuíam atirando calcinhas no palco. Wando colecionava as calcinhas recebidas das fãs ( dizia ter mais de 17.000 peças ) e devolvia jogando calcinhas autografadas para a platéia. Virou até garoto propaganda de lingerie, a ponto da DuLoren, fabricante de peças íntimas ter enviado uma coroa de flores para o seu velório. Claramente era alguém que sabia se conectar com sua audiência e falar a sua linguagem. Preconceitos e estereótipos a parte era um craque na comunicação com a classe C. Provavelmente não se inspirou em Kotler ou em buscar um Oceano Azul para encontrar um diferencial como cantor, mas ainda que empiricamente, deu uma aula de marketing e de consistência de posicionamento, para várias marcas por aí.

Fatos e fotos

Esta semana a Kodak entrou em concordata para tentar escapar da falência. Difícil associar a Kodak ao mundo digital, impossível não lembrar das caixinhas amarelas, com filmes de diferentes poses e diferentes asas. Os únicos felizes devem ser os professores de Harvard que certamente já estão produzindo os seus cases e livros sobre a Kodak, falando dos perigos da arrogância do líder de um segmento não entender que o mundo está mudando e entrar em extinção. Tudo lindo de se dizer, especialmente depois que já passou…Já foi assim com a Olivetti, a Atari e outras mais…Enfim, com a Kodak ou sem a Kodak, as fotografias são uma chance de se perpetuar a história, de se transportar pelo tempo registros e de se entender melhor outras épocas. Esta semana a National Geographic (www.nationalgeographic.com) divulgou novas fotos da expedição do comandante Scott na sua fracassada tentativa de ser o pioneiro na conquista do pólo sul. As fotos tem exatamente 100 anos mas a força e a nitidez das imagens são tão grandes que parecem ter sido publicadas ontem no jornal.Você se sente dentro da expedição e compartilha um pouco de uma das histórias mais incríveis do século passado e que assim como no caso da Kodak, envolveu subestimar o novo mundo, não estar preparado para a mudança. Tudo fácil de falar e difícil de praticar.
Reflexões de administrador a parte, ainda bem que as memórias que as fotos nos trazem persistirão para sempre. As fotos serão bem maiores do que os fatos ! Viva a Kodak e seu legado! Viva Scott e sua fantástica e trágica expedição.

Eike Preguiça

Nas últimas semanas os meios de comunicação foram tomados por reportagens de celebração a fortuna do Eike Batista e sua ambição de se transformar no homem mais rico do mundo. O homem ficou onipresente e onipotente na mídia. Fala sobre qualquer assunto, é bajulado e venerado como a nova face de um Brasil que cresce. Eike construirá um shopping, Eike cria a maior empresa de energia do país, Eike deverá investir no segmento automobilístico,Eike garante que Bruno Senna correrá na Williams e pelo que vi na capa da Veja desta semana, Eike irá fantasiado de Deng Xiaoping aos bailes de carnaval do Rio de Janeiro.

Eike: esta capa é a fantasia para carnaval ?


Se o Eike atingir a sua meta e se transformar no maior bilionário da terra até 2015, a pergunta que eu faço, é o que mudará para o restante da população, exceto para os seus herdeiros e quem sabe para a Luma, que ainda deve ganhar um percentual de sua fortuna ? Nada….O meu interesse no tema é zero e confesso que não me sinto inspirado a ter carros estacionados dentro da minha sala para seguir o padrão estético do novo guru tupiniquim. Fiquei pensando até que ponto vai a vaidade humana e queria propor uma meta mais fácil para o Eike. Que tal lançar o desafio de ser eleito pela Forbes o homem mais vaidoso do mundo ? Acho que a concorrência será menor do que para se transformar no homem mais rico…Se no ranking da riqueza ele está em oitavo,no do ego, ele certamente já é top 5.

Incluir é não diferenciar

As grandes empresas no Brasil estão ficando mais responsáveis e atentas a importância de promoverem a diversidade em seu quadro de funcionários. Ainda que a lei que que determina cotas de pessoas com deficiência nas empresas precise de muitos ajustes , a verdade é que de modo geral, ela contribuiu para que os ambientes de trabalho fiquem mais inclusivos e um pouco menos preconceituosos. Há menos espaço e tolerância para discriminações motividadas por religião, sexo, cor ou deficiências físicas. A adaptação de espaços físicos começou a acontecer. Estamos engatinhando mas a minha sensação é que ao menos já existe a sensibilidade e a preocupação com o tema.
A comunicação externa e as propagandas das nossas empresas no entanto, ainda refletem bem pouco este despertar e ainda existe um modelo bastante rígido e inflexível de clones genéricas de Giseles. Isto poderia ser bem diferente. Vejam que interessante a história que encontrei no http://www.adweek sobre um menino de 9 anos, chamado Ryan e que é modelo fotográfico nos EUA. Ryan tem síndrome de Down e é uma das estrelas do catálogo de roupas da Target, depois de também já ter feito campanhas para a Nordstrom. A aparição de Ryan nas campanhas de ambas as empresas, gerou uma onda de mensagens positivas e simpatia, não pela presença do menino mas sobretudo pela maneira como ocorreu. Em ambas as campanhas, Ryan foi tratado como um menino qualquer, misturado a outras crianças, sem nenhum alarde, sem dizer que existiam roupas especiais para crianças especiais e sem apelo piegas ou com chantagem emocional. Inclusão pura e simples,sem diferenciação.

Tem gente querendo resgatar a Comic Sans das trevas…

Quem utiliza o computador há bastante tempo e foi criado sob a dominação do Word, tem como membros da família as fontes oferecidas pelo programa. Times New Roman, Arial e Comic Sans são velhos conhecidos. No meu caso particular, eu optei há alguns anos por expulsar da minha vida e deserdar completamente o Comic Sans.
Para quem não teve o prazer de ser apresentado, o Comic Sans é um tipo de letra que tenta reproduzir a escrita de uma criança de mais ou menos cinco anos. Tem a aspiração de ser engraçadinha e fofinha (no diminutivo mesmo). Já a vi sendo utilizada no mundo corporativo nos mais diversos documentos: coisas sombrias e macabras como documentos que tratavam de desligamentos de funcionários e projetos de viabilidade de fábricas eram alegremente redigidos de forma saltitante em Comic Sans. Esta exposição excessiva, nos locais menos adequados, contribuiu muito para a minha completa aversão a coitada da fonte. Descobri que não estava sozinho e existem sites como o http://www.bancomicsans, pedindo que a Comic Sans seja erradicada da Internet. Do meu mundo, ela já sumiu…foi para as trevas.
Como este é um espaço democrático, informo que na contramão da minha visão de universo, descobri no
http://www.mashable.com que dois designers franceses,Thomas Blanc and Florian Amoneau estão liderando um projeto para resgatar a imagem da Comic Sans. A base do projeto é mostrar para as pessoas como seria o mundo se as logomarcas mais conhecidas da face da terra utilizassem a fonte perseguida. Em alguns dias no ar, o site deles (http://comicsansproject.com/) recebeu uma chuva de manifestações de solidariedade a causa.

O que eles pretendem conquistar agora ? Inspirados pela “fama” repentina pretendem arranjar empregos em agências de publicidade em Paris. Quero ver se terão coragem de mandar os seus currículos redigidos em Comic Sans…

Acalmando a tropa

Em um post anterior (Cérebro de Canguru) mencionei a falta de habilidade da Qantas, companhia aérea da Austrália, em gerir a sua imagem nas redes sociais. O post de hoje é sobre uma outra companhia aérea, desta vez a Delta, e mostra como ela foi bem mais rápida e sensível em utilizar a web e as redes sociais para contornar uma crise que ameaçava a sua imagem. O fato ocorreu em Junho, quando um grupo de soldados americanos voltava para casa depois de servir no Afeganistão. Havia um “acordo de cavalheiros” de que a companhia no momento do check-in, toleraria até 4 malas de cada soldado que estava a serviço e não cobraria excesso de peso de ninguém. Naquele voo porém, a Delta resolveu cobrar US$ 200,00 de cada soldado por excesso de bagagem. O que os soldados fizeram ? Um vídeo dizendo que esta era a maneira como a companhia lhes dava as boas-vindas de volta ao seu país e que eles tiveram que pagar pelo transporte de armas que haviam sido utilizadas para “defender as suas vidas e as de cidadãos afegãos inocentes”. O vídeo foi postado e em um dia havia sido visto 200.000 vezes.
Imediatamente também foi criada uma página no Facebook pedindo o “Boicote a Delta em favor dos soldados”.A Delta reagiu…no dia seguinte a companhia veio a público através de sua assessoria de imprensa e se utilizando de todas as mídias disponíveis (Twitter, Facebook, Blog) pediu desculpas aos soldados com uma mensagem emocional, dizendo que a única coisa que os soldados deveriam sentir era a satisfação por estar voltando para casa e anunciando uma nova política de bagagem para os militares que passavam a ter oficialmente direito de transportar 4 volumes. Gestão de crise melhor do que a da Qantas…

iSad

 

Fiquei pensando um pouco sobre a morte do Steve Jobs.Reflexões que variaram desde como com todo o dinheiro do mundo ele não conseguiu se curar e morreu jovem, passando pela sua capacidade de ditar tendências e mudar a vida de milhões de pessoas. Mas o que pensei mesmo é que para mim ele sempre representou a negativa aos chavões clássicos de marketing…duvido que iPods, iTunes e iPads tenham aparecido depois de pesquisas quanti ou com alguém observando consumidores atrás de salas de espelhos. Sempre me identifiquei com a sua visão de que as coisas precisavam ser funcionais mas tinham que necessariamente ter uma estética e design. Quem já abriu uma caixa de um produto Apple sabe o que eu estou descrevendo. Enfim, a verdade é que este é um daqueles caras que eu gostaria de ter tido a oportunidade de conversar por pelo menos cinco minutos. Agora só quando eu encontrá-lo nas iClouds…

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