Bento e o RH

Bento– Sr. Bento, o senhor trouxe a sua carta de demissão ?
– Sim, está aqui. Fiz de próprio punho conforme me pediram.
– Ótimo. Pelo que estou lendo,está tudo ok. Sua saída fica efetiva a partir do dia 28.
– Preciso que o senhor me devolva os equipamentos que utilizava.
– Deixei na sala: a batina, o cajado, os sapatos vermelhos e o anel do trono de Pedro.
– Perfeito. E o celular com o qual o senhor mandava tweets ?
– Pois é…Queria perguntar se posso ficar com ele. Gostaria de manter o número. É complicado mudar depois de 8 anos.
– Infelizmente isto é contra a nossa política. O senhor terá que devolvê-lo. Já solicitei inclusive, o bloqueio do seu usuário. Se for de seu interesse, alguém do IT poderá imprimir as mensagens de despedida que o senhor recebeu de seus colegas.
– Ok, seria bom. Aqui está o telefone. Aproveitando: queria saber se há uma maneira de prorrogar a vigência do meu plano de saúde. Não quero ficar descoberto e no castelo faz mais frio do que aqui…Temo pelo meu pulmão.
– Infelizmente isto é contra a nossa política. Como o senhor alegou motivos de saúde para nos deixar, vou discutir com o cardeal de RH para ver o que pode ser feito.
– Muito obrigado. Queria saber também se eu conseguiria levantar o meu fundo de garantia. Quero contribuir com a paróquia onde passarei a viver e este dinheiro ajudaria muito.
– Sr. Bento, esta é uma exceção que não abrimos. Poderia criar um precedente perigoso e outros poderiam querer o mesmo benefício.
– Compreendo. E o veículo ? Tenho direito de comprar o papamóvel ??
– Há quantos anos o sr. estava com este carro ? Que Kilometragem tinha ?
– Está comigo há uns 5 anos anos mas é pouco rodado…Só usava aqui no Vaticano para dar voltas na praça.
– Entendo, sr. Bento, Neste caso, como o veículo não atingiu o limite estabelecido pela empresa, o sr. não tem direito a compra. O papamóvel ficará para quem substituí-lo.
– Sei…
– O sr. trouxe o seu crachá ?
– Nem me lembrava que eu tinha crachá…Sempre que eu chegava na capela os guardas a abriam para mim sem mostrar nada. Já me conheciam. Deve estar na gaveta do oratório. Vou procurar. Envio aos seus cuidados ou ao carmelengo ?
– Agradeço. Pode ser aos meus cuidados. Algo mais que o senhor gostaria de saber. Alguma dúvida ?
– Está tudo claro. Posso pedir uma carta de recomendação pelos serviços que prestei ?
– Sr. Bento, seria um prazer, mas espero demorar muito tempo para encontrar o seu chefe e pegar a assinatura dele nesta carta.

As partes e o todo

IMG_4771Estive no Japão para assistir o Corinthians jogar o Mundial de Clubes. Muito mais do que o título, o que gerou uma enorme repercussão foi a nossa torcida. Torcida no sentido coletivo. O bando que atravessou o mundo, a festa, a interação com os japoneses. Ninguém falou dos indivíduos que estavam lá. Provavelmente o idiota que atirou o sinalizador e matou o menino na Bolívia, passeou pelas ruas de Tokyo e quem sabe não  confraternizou comigo após o gol do Guerrero. Mas isto não importou em dezembro: o todo era maior do que as partes e nós como corinthianos sentimos um orgulho enorme disto. Sempre dissemos que somos uma torcida que tem um time e não vice versa…Nos auto-proclamamos nação.

O fogueteiro agora tem que ser encontrado e punido mas indiretamente ao matar o garoto, ele conseguiu um outro feito: feriu o coletivo. O peito estufado com que eu fico quando conto as aventuras da epopéia japonesa deu lugar a uma vergonha equivalente  por conta do falatório pós-jogo de Oruro. A nossa torcida foi novamente notícia em todo o mundo mas com manchetes bem diferentes das que vimos no Japão. O orgulho deu lugar a uma vontade de se esconder por um tempo…O sujeito manchou a nossa imagem. Isolar a história e dizer que foi um ato independente, que não tem nada a ver com o Corinthians me incomoda…Não será o fulano desaparecido que ficará com a fama de assassino. Seremos todos nós, aqueles mesmos que ficaram com a fama de loucos apaixonados na invasão do Maracanã, na invasão japonesa e em tantos outros momentos da história de nosso time. Jogar com os portões fechados ficou barato e acho que a nossa torcida ao invés de reclamar e protestar da decisão, deveria acatar , concordar e reconhecer que pisamos (no sentido coletivo…) feio na bola. Isto é postura de líder…Isto nos faz diferentes. É tempo de dar uma pausa…respirar um certo luto futebolístico e três jogos com estádios vazios podem fazer este papel.

A caçada na tela

Hora mais escuraInspirado pela falta de luz dos últimos dias fui assistir “A hora mais escura”, dirigido por Kathryn Bigelow. O filme não narra a minha epopéia com a Eletropaulo, mas sim a caçada a Osama Bin Laden e está indicado a 5 Oscar.

Como o desfecho do filme é conhecido de todos (a morte de Bin Laden…), eu estava um pouco temeroso de assistir a uma obra ufanista, com “Stars and Stripes” por todos os lados…O filme é bem mais do que isto…O foco não está no fim da história e sim nos bastidores da caçada a Bin Laden e escancara sessões de tortura contra prisioneiros suspeitos, conflitos políticos internos dentro da CIA e a obstinação que dedicaram vários anos de suas vidas a missão de encontrar e eliminar um homem. Isto é nobre ? Os fins justificam os meios ? Cabe ao espectador avaliar e achei o filme imparcial neste sentido .

Hora mais escura 2Nada de poesia, nada de romantismo. O filme é seco, tenso e intenso.O realismo da tortura incomoda, a vingança como combustível da aparentemente frágil e delicada Maya, a agente da CIA e personagem principal, é desconfortável e o realismo das cenas de invasão da fortaleza de Bin Laden, filmadas em tom esverdeado, padrão “visão noturna”, geram dúvidas se aquilo não é um documentário feito com imagens dos soldados. Tem que tomar cuidado para não engasgar com a pipoca em algumas cenas mais fortes mas gostei bastante do filme.

A era das trevas

trevasHá alguns milhões de anos o Brasil pode ser definido como um país tropical. Não deveria ser muita surpresa que durante o verão, que no hemisfério sul normalmente ainda ocorre entre dezembro e março, se registrem as maiores temperaturas e as maiores chuvas do ano.

Época de chuvas em São Paulo significa carros boiando, pernilongos robustos, mais bombados que as musas da Sapucaí e um frequente caos. Nada muda há décadas e é incrível mas não se consegue preparar a cidade para a temporada de chuvas. A culpa é sempre do coitado do São Pedro…Poderiam aliviar a responsabilidade do santo e aceitar que mesmo daqui a alguns milhares de anos, ainda continuará chovendo forte por aqui durante o verão…

A este tão agradável repertório sazonal, posso adicionar mais um item: falta de luz. Parece ter ocorrido um fenômeno de condicionamento pavloviano em meu bairro: começam a cair as primeiras gotas, vem o ruído do transformador explodindo,  a escuridão e o súbito desaparecimento da Eletropaulo por horas. Estão todos sincronizados e atuando em perfeita sinergia…Neste final de semana se superaram: chuva, transformador e atendimento Eletropaulo trabalhando em equipe, como um time de alta performance, atingiram o novo recorde de dezoito horas sem luz em minha casa. O verão que deveria ser a época com dias mais longos e mais horas de luz, em minha casa se transformou na era das trevas…

Há compensações porém: vejo uma nuvem mais escura no céu e posso me preparar  o programa forçado de condicionamento físico Eletropaulo, que envolve subir até o oitavo andar pelas escadas, dieta com poucas calorias pois não enxergo o prato e sauna natural durante a noite, sem ventilador ou ar condicionado. Não sei como ainda não começaram a cobrar por este benefício indireto nas contas …E tem consumidor que ainda reclama !

Unidos do Vaticano

papa-bento-xvi-chapeuvermelhoE Bento resolveu se aposentar…Para quem casa e se depara com as dificuldades da vida a dois ele recomendaria aguentar firme, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença…No caso dele, decidiu que não era bem assim e lá se foi, inaugurando a carreira de ex-papa para se dedicar a leituras e orações. Tenho certeza que se manterá  firme em seus propósitos e em sua clausura, evitando que alguma empresa tenha a luminosa idéia de querer  contratá-lo para falar em convenções de vendas sobre liderança e trabalho em equipe.

Enfim, estava no seu direito mas algo me diz que ele escolheu deliberadamente a segunda-feira de carnaval para o seu gesto, afinal nesta data o maior país católico do mundo fica sensivelmente mais próximo da luxúria e da tentação do que de qualquer  coisa celestial. Parece que queria passar uma mensagem…Conseguiu espaço no noticiário e agitou o carnaval. O resultado desta mistura na mídia ? Um pouco de cardeal com bacanal, comissão de frente com conclave, papa com rei momo, silicone com hóstia, Sapucaí com Vaticano, carnavalesco com camerlengo. Neste feriado, o Grêmio Eclesiástico Unidos do Vaticano mereceu nota 10 com seu fantástico enredo…ninguém tinha feito algo parecido nos últimos 500 anos.

Você tem sede de que ?

gatorade-showerVocê consegue vencer a preguiça. Coloca a fantasia de esportista e resolve se exercitar. Fica orgulhoso por estar transpirando em função de uma atividade física e não porque o ar condicionado de sua sala não está funcionando. Apesar do cansaço pós-exercício, vem aquela sensação de bem estar e realização pessoal. Possuído pela alma de atleta, sente que é hora de recompor suas vitaminas e sais minerais. Água ? Nem pensar…Você é um homem de marketing e resolve prestigiar os seus colegas marketeiros que criaram a água tingida que supostamente tem estas virtudes e que atende pelo nome de Gatorade. Você sente inveja desta criação: R$ 5,00 por soro caseiro com sabor de frutas…Quem inventou é realmente brilhante…É o exemplo perfeito do “valor agregado”…o tão sonhado produto que possui margens de contribuição desejadas por qualquer capitalista.
Você esquece as reflexões marketeiras e volta para a vida. Suado, tenta matar logo a sede com o seu Gatorade. Primeiro passo, tirar o lacre de plástico que reveste a tampa. Parece gincana do programa do Gugu…Há um serrilhado mínimo, sua mão escorrega e você apela para a dentada. Aproveita que já está com a bota na botija para puxar o bico da embalagem com os dentes. Aleluia…Faz pose para saciar a sede e poder beber logo o seu néctar de atleta mas nada desce…Não pode ser…Será que o bico está entupido ? Não…Tira a rosca da tampa e descobre que há um segundo lacre. Também impossível de ser retirado, merece uma nova dentada. Quase desidratado e revoltado por não ter ido direto ao bebedouro, finalmente você tem acesso ao conteúdo de seu Gatorade. Questão de segurança e qualidade dirão alguns…por isto tantos lacres. Obrigado ! Agradeço mas alguém precisa se lembrar que antes de me livrar de um potencial envenenamento, eu queria apenas matar a sede rapidamente. Não posso gastar mais tempo para abrir uma garrafinha plástica do que fazendo os meus exercícios. Queria mexer os meus músculos e não testar a força de meus dentes. Marketeiros, saiam a campo e ao invés de se dedicarem a criação de sabores exóticos, se esforcem para criar uma embalagem que funcione! Pronto: Arrumei o pretexto que precisava para não fazer mais ginástica…

Meu reino por um cavalo

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Um dia eu era rei. Poderoso, mandava nas terras da Inglaterra. Matei dois sobrinhos inconvenientes para garantir o meu acesso ao trono. Eu era sanguinário e temido. Cheguei a oferecer o meu reino em troca de um cavalo, afinal eu sempre soube que ficar a pé, na hora dos duelos sangrentos não parecia ser algo recomendável. De fato não foi e eu Ricardo III, acabei morto em batalha. Derrotado e humilhado pelo chato do Henrique VII, não tive direito a pompas e circunstâncias em meu funeral. Fui para um cemitério de uma capelinha franciscana…O tempo foi passando, a cidade foi crescendo e acabei despejado de meu modesto repouso. Nem sei direito onde fui parar…De vez em quando ouvia um barulho de carro, uns manobristas passando por cima de minha cabeça, umas freadas bruscas mas nada que perturbasse o meu sono. Se passaram 500 anos e fui despertado. Me viraram de cabeça para baixo e fizeram todos os tipos de exame, tudo para confirmar que eu era quem nunca deixei de ser. Eles deveriam saber: quem foi rei nunca perde a majestade ! Bastava ter me perguntado. Eis que agora vejo uma enorme excitação porque foram me encontrar enterrado embaixo de um estacionamento em Leicester. Como pode ser esta a manchete dos jornais ? Estão me depreciando…O corpo do último rei da Inglaterra morto em batalha, encontrado sob um estacionamento ? E as minhas conquistas ? Minhas vitórias em outras batalhas ? Eu queria um cavalo e não carros ! Nada disto aparece na mídia…Aposto que o Henrique VII está por trás disto….

O homem da nota de US$ 5,00

us_5_obverseFui assistir “Lincoln”, dirigido por Steven Spielberg e indicado para uma montanha de Oscars. Resumo: Ótima interpretação de Daniel Lee Lewis, bons atores coadjuvantes, um pouco de aula de história para poder replicar para os amigos e uma nova visão sobre o homem da nota de US$ 5,00 que de vez em quando passa pela minha mão.

Não é fácil se manter alerta nas duas horas e meia do filme…o roteiro tem alguns detalhes históricos difíceis de serem absorvidos por não americanos, exceto por algumas práticas de compra de votos de parlamentares que foram  globalizadas e fazem com que o espectador brasileiro se sinta em casa em vários momentos…São citados personagens, batalhas e fatos que dificultam a conexão. Nada que impeça a compreensão geral de “Lincoln” mas uma apostila de cursinho ajudaria.

A iluminação, os figurinos e os planos sempre fechados te dão a impressão que você está em um estúdio construído no Projac com personagens de um museu de cera. Admito que deu um certo sono, ainda mais estimulado por vários colegas de sessão que roncavam sem constrangimento. O filme deve ganhar mesmo um monte de coisas porque é tecnicamente correto, segue a formulinha, mas não tem a proposta de gerar nenhum “uau” nos espectadores.  Eu diria que é um filme burocrático que vale pelo seu elenco…images

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