Express kidnapping and ATM blasting

Depois de uma semana tomada por jantares corporativos e jogos críticos da Copa Libertadores, finalmente o blog retoma o seu ritmo de produção. A freqüência  destes jantares, muitas vezes com platéias repetidas, esgotou minha pauta de assuntos e curiosidades sobre o Brasil para entretê-los. Falar sobre o tamanho da população japonesa em São Paulo, conforme já descrevi em outro post, não foi suficiente. Constatei que o tema triste mas que fascina os gringos é a violência na cidade. Eles já chegam procurando histórias sobre o assunto…Começam perguntando se assaltos ocorrem por toda a cidade, se o hotel deles está em uma região perigosa, relatam coisas que ouviram de outros viajantes.

A catarse começa  quando descrevo o que é um “express kidnapping” , o transe prossegue com um breve relato sobre o processo de  “ATM blasting”   mas o ápice de fascinação é saber que algumas pessoas na mesa possuem carros blindados. Explicar para um canadense de Halifax que cidadãos normais, funcionários da mesma empresa que ele e que não são o Obama ou o Bento XVI, dirigem “armored cars é uma experiência antropológica. Ele não acredita…pede detalhes… e tenho certeza que saiu do jantar com a convicção que veio visitar o velho oeste, terra sem lei. Falei sobre o Brasil que cresce, que a nossa economia é a sexta do mundo, que seremos sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas, que temos praias lindas, riqueza cultural, florestas , um povo legal, uma democracia consolidada  mas tenho que admitir que o “awareness” do assunto violência foi bem maior. Triste mas real.

O Bom Pastor

Hoje ao assistir a corrida de Fórmula 1 e ver a vitória do venezuelano Pastor Maldonado no GP da Espanha, fiquei feliz pelo cidadão. É sempre legal ver algum novato ganhar pela primeira vez.  Durante a prova torci para  ele conseguir segurar o Alonso … Torcer pelo mais fraco é das coisas que mais dá prazer no esporte (embora se eu fosse  ser consistente com os mais fracos, deveria abrir um fã-clube coletivo para o Massa e para o Senna mas por eles, confesso que não está dando nem para torcer…). Como o milagre foi grande demais, durante a festa da equipe, pegou fogo nos boxes da Williams…Foi a famosa alegria que durou pouco…

O que não gosto nem de pensar é no uso político que farão da vitória do cidadão quando ele aparecer em Caracas. O nosso bom Pastor, corre patrocinado pelos muitos dólares da PDVSA, a companhia petrolífera estatal da Venezuela e é, nada mais nada menos,  que garoto propaganda de Hugo Chavéz. Misturar dinheiro público com esporte para mim é uma combinação bem esquisita. Nunca entendi nadadores patrocinados pelos Correios ou  judocas com quimonos de companhias elétricas . É monopólio, para que precisa de patrocínio ?  Com o Maldonado,  já consigo imaginar o desfile em carro aberto, o discurso em um estádio, Chavéz ao seu lado…a pregação do Pastor…Fora o rapaz, o governo da Venezuela patrocina outros 6 pilotos que estão na GP2, a categoria de acesso à Fórmula 1. Neste ritmo em breve teremos as 24 horas de Maracaibo ou as 500 milhas de Los Roques nos calendários automobilísticos mundiais…Valeu pela vitória mas confesso que seria mais legal se parasse por aqui, sem exploração messiânica do Pastor, mas pelo que aconteceu quando ele ganhou o campeonato da GP2, podemos esperar uns 3 dias de feriado nacional na Venezuela…

Bife com batatas

Ontem fomos jantar no L’Entrecote d’Olivier , mais um daqueles restaurantes que tem apenas um prato. Você vai lá e o máximo que faz é escolher a sua bebida e o ponto de sua carne. O resto está definido: salada verde, o entrecote (um bife com grife) e as batatas fritas. Não é muito diferente de ir ao Bolinha com sua feijoada ou a outros lugares que fizeram sua fama baseados em um prato só, como o Bar do Alemão com seu Bife à Parmeggiana. Sempre fiquei pensando na moleza que é administrar este tipo de restaurante em que todo mundo pede a mesma coisa: fornecedores definidos, compras em escala, giro mais rápido de mesa, menos treinamento dos garçons. Deve ser o sonho de qualquer dono de restaurante.

Durante o jantar  no entanto ,tive um insight na outra direção: como  deve ser difícil gerir a frustração do chef…O coitado não pode criar nada, não está autorizado a colocar sequer uma salsinha para enfeitar o prato e se o restaurante sobreviver, tem uma perspectiva de ficar fritando bifes com batatas pelas próximas décadas . Experiências em seu currículo ? Fritar bifes com batatas…Fiquei pensando no Olivier tentando motivá-lo…ninguém frita bifes como você ! A sua batata frita é a melhor do mundo, continue assim ! E os feedbacks ? Sinto que você pode melhorar no seu bife mal passado…ajuste um pouco mais a espessura da batata para que ela fique mais crocante… Deve ser um tédio… o coitado do chef tem que fazer produção industrial na sua cozinha e absolutamente ninguém reconhece as suas potenciais virtudes de inovação. Sensação parecida deve ter o diretor de arte premiado com leões em Cannes fazendo campanhas de dia das mães para as Casas Bahia…um verdadeiro choque de realidades em que a criatividade não tem muita vez. Ah, o jantar ? Comida honesta, mas a companhia estava bem melhor que o bife com batatas.

“Imagem e ação” virtual

O “Draw something” já se transformou no aplicativo mania dos últimos meses para Ipads e Iphones… Milhões e milhões de downloads nas últimas semanas e consequentemente, milhões de jogadores viciados. Para quem vive em outro planeta, o “Draw Something” é um tipo de “Imagem e Ação” virtual, em que você tenta advinhar o desenho feito na tela por um parceiro virtual. Na medida em que você e seu parceiro acertam, vão ganhado pontos que permitem a compra de novas cores e uma sotisficação maior dos desenhos. Você pode jogar e interagir com seus contatos, a quem se conecta via e-mail e Facebook, ou com estranhos espalhados por todos os cantos do mundo.

Os desenhos e a maneira de jogar falam muito sobre como são as pessoas na “vida real” e assim como na vida, no “Draw Something” se faz uma escolha dos parceiros com os quais você gosta de se relacionar. A vantagem do jogo é que é fácil romper relações…No meu caso, quando jogo com alguém que escreve a palavra ao invés de tentar desenhá-la, está decretada a sentença de morte…Eu erro de propósito e ainda coloco na minha resposta palavras meigas na tela. O pior de tudo é quando você faz um desenho que acredita ser espetacular , padrão Leonardo da Vinci, e que tem certeza que até seus sobrinhos de dois anos acertariam…algumas pessoas erram e fico com uma enorme vontade de aplicar um teste de QI online no meu oponente. Delicadamente o elimino de minha lista de oponentes…

Existem porém, as relações duradouras, em que você vai ganhando confiança e em que os estilos parecem combinar. Não conseguir advinhar o desenho e errar, te força a começar do zero depois de dezenas de rodadas. Algo deu errado…mas como a “amizade” é “velha”, vale a pena insistir e recomeçar em um exercício de tolerância e compreensão. Vamos ver quanto tempo a moda dura, mas confesso que o “Draw Something” tem sido um ótimo companheiro e definitivamente tomou o lugar das leituras que eu fazia no banheiro.

Fora de foco

São Paulo organiza um evento cultural com centenas de atrações, 4 milhões de pessoas vão às ruas e o foco está no caos para se conseguir comer a “galinhada” do Alex Atala. Entrevista-se o prefeito para que ele explique o  porquê da falta de  comida chique para a multidão.  A galinhada do Minhocão é tratada de forma similar aos brioches da Revolução Francesa.


O Rio de Janeiro tem uma final de campeonato de futebol, o Fluminense ganha de quatro, faz um gol de bicicleta e o principal destaque do jogo é uma gandula popozuda transformada em sex symbol na semana anterior. A gandula musa aparece em todos os programas possíveis, dá entrevistas e é elevada ao patamar de uma Angelina Jolie do Engenhão.



A chegada da Carolina Dieckmann a delegacia para prestar esclarecimentos sobre o extremamente relevante vazamento de suas fotos íntimas (que contribuíram para alegrar o final de semana de adolescentes por todo o país), tem cobertura de imprensa digna do julgamento de criminosos contra a humanidade. Depois de 7 horas de depoimento (como ela conseguiu falar 7 horas sobre isto ?), ela sai sem querer falar com a imprensa (quem sabe não haverá uma exclusiva no Fantástico ? Ou uma visita ao Faustão em que comentará sobre as lições do episódio, como daqui para frente utlizar um pen drive ou HD Externo para arquivar as suas brincadeirinhas …)

Neste últimos dias fiquei com a sensação que minha visão de mundo está um pouco desalinhada em relação as prioridades da  grande mídia. Estou fora de foco. Preciso rever meus conceitos…exigir galinhada de graça,  reverenciar a gandula como deusa e ficar com pena da ingenuidade da Carolina…

O verdadeiro grito

Esta semana leiloaram “O Grito” do pintor norueguês  Edvard Munch por US$ 120 milhões, quebrando o recorde de valor pago por uma obra de arte . O comprador não identificado, ao que tudo indica foi um colecionador particular. Fiquei pensando nas reações que o sr. Munch teve em seu túmulo…Certamente primeiro também gritou de espanto, não acreditando no  valor alcançado. Depois seu ego deve ter inflado…sou bom mesmo: esqueçam holandeses sem orelha, ou os espanhóis, sejam aqueles de bigodinhos duvidosos ou os outros que transformam suas mulheres em peças de quebra cabeças. O recorde é meu !

Depois da euforia, Munch deve ter refletido um pouco mais: foi para isto que pintei meus quadros ? Eu estava angustiado, deprimido, meus pais me controlavam, queria apenas me expressar e por isto fiz “O Grito”…  De repente a minha dor virou objeto de fetiche para enfeitar paredes de colecionadores milionários pelo mundo. Tenho quase certeza que os milhões pagos pelo “O Grito” vão muito além da satisfação de ter em casa a obra prima do expressionismo, o verdadeiro grito de quem o comprou é  :   “Ei amigos…o meu é maior que o seu… sou mais rico e  eu posso”… Satisfazer o ego pode valer mais do que US$ 120 milhões.

Extreme makeover no tênis

O tênis é um esporte que apesar das tradições e rituais tem procurado gradualmente se modernizar. Ainda se exigem uniformes inteiramente  brancos em Wimbledon mas ao mesmo tempo a tecnologia foi incorporada e os jogadores podem desafiar as decisões dos juízes. Desta vez porém, parece que exageraram na dose da inovação e isto tem gerado um grande debate entre os jogadores.

Para o aberto de Madrid, que se inicia esta semana, e é um dos campeonatos mais importantes do circuito , atrás apenas dos tradicionais torneios de Grand Slam (Austrália, Wimbledon, Roland Garros e Estados Unidos), resolveram mudar a cor do saibro. As quadras deixarão de ter a consagrada cor de tijolo e serão tingidas de azul . O principal argumento para este extreme makeover  é facilitar a visualização da bola e auxiliar as transmissões de TV. Nadal, Djokovic e cia. estão reprovando abertamente a mudança alegando que ela fere o espírito do esporte. Fiquei pensando em como seria um corrida de Fórmula 1 com asfalto amarelo ou uma competição de judô em um tatame cor de rosa. Pode melhorar a visualização do que quer que seja mas com certeza descaracteriza o esporte. Quero só ver se o saibro azul manterá o poder de manchar tênis e meias da mesma maneira que o seu primo avermelhado. Se não conseguir fazer isto, já terá perdido metade do charme.

Energia acumulada

Feriado: dias de chuva interminável na fazenda e oito crianças entre 8 e 10 anos para administrar. O dilúvio determina o ritmo das atividades : não tem cavalgada, não tem piscina, não tem jogo de bola. A situação de tédio não é nada diferente do que eu cansei de vivenciar na minha infância.

Me preparei para o desafio e desenhei o plano anti-aborrecimento : retomei mentalmente regras de jogos de cartas, as estratégias de partidas de WAR (Alaska ataca Vladivostok) ou Banco Imobiliário (comprar rápido a Avenida Atlântica),  lembrei da TV Globo com “Sessão da tarde” e seus clássicos como Flipper ou Digby ( “O maior cão do mundo”), e  relembrei  brincadeiras de   Esconde Esconde, Gato Mia e até pensei na de médico, que rapidamente achei mais prudente esquecer . Me julgava um “tio” capacitado para enfrentar a monotonia, com um arsenal de entretenimento que garantiu a minha sobrevivência por vários anos.  

Depois de 3 dias e vários mm de chuva, frustração absoluta: todas as propostas foram veementemente rejeitadas de maneira unânime … Estamos em 2012: 8 crianças, 8 Ipads. 8 soluções independentes e solitárias. Brigas agora são causadas pela posse dos  carregadores  para assegurar que nenhum equipamento descarregue e que os jogos virtuais não sejam interrompidos…

Ninguém é acusado de roubar, de mentir, de ter inventado regras. Os tablets não roubam e não mentem. As regras são soberanas. Ao invés de temer pela “morte de tédio” das crianças,  meu receio passou a ser que algum equipamento super aquecesse e explodisse no seu colo por excesso de uso. Continuou chovendo e fiquei com a  certeza que apesar de seus IPads haverem descarregado, a energia dos oito permaneceu acumulada.  Novos tempos, novas fórmulas.

Liguem para o Guardiola

Hoje Pep Guardiola anunciou que decidiu abandonar a função de técnico do Barcelona. Foram 4 anos , 13 títulos e uma revolução no jeito de jogar futebol , que certamente colocará este time do Barça como um dos melhores da história. Não sei o que o Guardiola vai fazer da vida. Ele até pediu desculpas a torcida dizendo que neste último ano já estava um pouco desmotivado e não se dedicou integralmente ao seu trabalho (feedback: fez o suficiente ao trucidar o Santos…). Parece que vai para um ano sabático mas seria bem interessante vê-lo no comando da seleção brasileira de futebol em tempos de pré-Copa do Mundo. A economia do Brasil está aquecida,  a Espanha está com uma taxa de desemprego de mais de 20% , o seu estilo de jogo poderia ajudar a resgatar as raízes do futebol brasileiro e  todos se fariam entender com um perfeito portunhol (lembrando que este não seria um grande problema, afinal mestre Joel Santana, com sua prancheta mágica, foi técnico da África do Sul, com um inglês (?) primitivo). Acho que pelo desafio futebolístico de comandar o Brasil em uma Copa do Mundo em casa, até poderiam convencê-lo (quem seria o melhor interlocutor para ligar e persuadí-lo: o Marin ou o Andrés Sanchez ? )…mas difícil mesmo é fazer com que largue as delícias de Barcelona.  Refleti depois de ver este vídeo que as chances realmente não são muito grandes. Acho que acabaremos indo de Mano ou Felipão.

9 anos em 2 minutos

Uma das coisas mais marcantes de ser pai é não cansar de se surpreender com a velocidade com que seus filhos crescem. Os momentos de choque acontecem quando você menos espera…No dia em que seu filho fala pela primeira vez, quando você o vê engatinhar , quando você tem que carregá-lo do sofá para a cama e percebe o quanto ele está pesado e mal cabe nos seus braços. Ou quando começam os questionamentos, as colocações estruturadas, que não são mais compatíveis com gugudadás. E as dúvidas para a lição da escola ? Você se sente incapaz de contribuir e só pensa como  já podem expor o seu filho a coisas tão complicadas.  São flashes, em que  você percebe que seu  filho está crescendo , que a vida está passando e que o tempo é implacável. Você olha para trás e nota que os anos se passaram em frações de segundo e que a criancinha da sua imaginação, não existe mais, já é parte do passado. Vi hoje este vídeo no www. mashable.com. Um holandês que fotografou o seu filho, todas as semanas , desde o seu nascimento até hoje. O menino tem 9 anos, o vídeo tem 127 segundos…9 anos em pouco mais de dois minutos. Não deu para não pensar no meu filho…Não deu para não refletir sobre o tempo.

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