Branca de Neve – versão 2013

ades-maca-envenenada-anvisa-660x440[1]Era uma vez uma bela rainha que se espetou com a agulha enquanto costurava. De seu dedo caíram três gotas de sangue. Então a rainha fez um pedido:
– Quero ter uma filha de pele branca como a neve, cabelos pretos e boca vermelha como o sangue que saiu do meu dedo.
Alguns meses depois, a rainha deu à luz a uma menina como sonhou. Resolveu chamá-la de Branca de Neve. Mas a rainha morreu antes de criar a filha…
O rei chorou durante meses, até que conheceu uma princesa lindíssima com quem se casou. A nova rainha, apesar de bela, era orgulhosa e má. O dia todo ficava na frente do espelho, perguntando:
– Espelho, espelho meu, existe no mundo mulher mais bonita do que eu?
E o espelho dizia: – Não, rainha, você é a mais linda.
Um belo dia a rainha ouviu do espelho uma resposta que não esperava: – Sim, existe outra muito mais bonita que você. Branca de Neve!
Desde então a rainha começou a ameaçá-la. Branca de Neve com medo, foi se refugiar na floresta, na casa dos sete anões.
Foi muito bem aceita e todos eram felizes naquela casa.
Enquanto isso, a rainha preparou um plano sinistro e transformou-se em uma bruxa horripilante e má. A bruxa um belo dia surge na casa dos anõezinhos, encontra Branca de Neve e lhe pede água …
Branca de Neve, doce e meiga, atende ao pedido. Em retribuição, a bruxa generosamente oferece à Branca de Neve um litro de suco Ades, sabor maçã. A bruxa então, pede que Branca de Neve beba um gole do suco e faça um pedido. Mal sabia Branca de Neve que aquela velhinha, era na verdade a rainha, sua madrasta, aplicando-lhe um golpe fatal.
Infelizmente, Branca de Neve não resistiu à mistura de soja, maçã e produtos de limpeza e caiu dura, envenenada.
A tristeza tomou conta dos anõezinhos, até que um dia, um jovem príncipe aproxima-se da dormente Branca de Neve e lhe dá um beijo apaixonado. Imediatamente,Branca de Neve desperta, se levanta e vai embora com seu príncipe encantado. Moral da história: para serem felizes para sempre, príncipes, princesas e consumidores devem ficar atentos ao Ades sabor maçã! E pensar que a bruxa já tinha tentado este mesmo golpe com o Toddynho…

Primeiro dia

firstdaySeparar os materiais. Apontar os lápis. Olhar desconfiado para a capa do caderno novo. Encapar os livros. Arrumar a mochila.Perder o sono. Acordar mais cedo.Não almoçar. Trânsito na porta da escola. Coração disparado. Onde estão as listas com os nomes dos alunos ? Quem estará na minha classe ? Quem será minha professora ?
Levar os meus filhos à escola ontem foi uma volta no tempo. Foi vê-los sentir as mesmas angústias que eu sentia trinta e poucos anos atrás. Foi constatar que mudam as gerações mas a essência das pessoas não se transforma tanto assim.
O pior foi me ver fazendo exatamente as mesmas perguntas que meus pais me faziam. Nada diferente de “Como foi o primeiro dia de aula ?”
A resposta porém me surpreendeu.
– Mal. A professora é chata.
Tentei argumentar…Como assim ? Você já teve aula com ela antes ? Este é só o primeiro dia de aula e já deu para tirar conclusões ?
– Pai,no primeiro dia todos os professores fazem de tudo para agradar os alunos para parecerem legais. Se a professora foi chata hoje, será muito pior daqui para frente…
As perguntas podem ter ficado as mesmas mas as respostas certamente se modificaram ao longo das décadas…

O canto do Uirapuru

Hoje o game é diferente. Não tem joystick, não tem tela. É no meio do mato. O objetivo não é derrotar o exército amarelo ou exterminar alienígenas. Vamos tentar encontrar o uirapuru, o pássaro de canto mais bonito da Amazônia. Canta alto, forte, apesar de ter uns quinze centímetros de altura. O guia vai na frente da trilha com um gravadorzinho e um amplificador na mão. Dá play na fita cassete (IPods com MP3 ainda não são comercializados na filial da Best Buy de Alta Floresta), reproduzindo o canto do pássaro.

IMG_3536

O uirapuru começa a responder. Paciência… silêncio… seguimos o guia para tentar chegar mais perto e encontrar o pequeno cantor…meus filhos olham e seguem desconfiados. Nada disto estava no pacote de pedidos das crianças para o papai noel…O guia o localiza. As crianças comemoram e observam com binóculos e câmeras o Nelson Ned amazônico. Difícil acreditar que com este tamanho o Uirapuru cante tão alto. Esta experiência não tem na Disney, não tem no XBox. Fiquei feliz pelo encontro e pela experiência. Mesmo um pouco desconfiados e saudosos do conforto da sala de estar, meus filhos agora sabem que Uirapuru é mais do que uma alameda em Moema.

A princesa latina

A globalização chegou ao mundo da fantasia. Sofia, ganhou o status de primeira princesa latina do reino do Mickey Mouse e sua coroação ocorrerá em Novembro, quando um desenho animado narrando as suas peripécias estreará na Disney Channel. Na lógica da Disney, sendo latina, não era de se esperar que ela tivesse sangue azul e fosse preparada para lidar com os rituais e as exigências da realeza. A Sofia latina, mudou-se para um castelo depois que sua mãe, Miranda, casou-se com o Rei Roland II. Roteiro moderno…o Rei casou com uma mulher plebéia que já tinha uma filha. Moderno  mas não muito poético…Miranda, dona de uma loja de sapatos, conheceu o rei quando ele foi comprar um par de chinelos em sua loja de sapatos….

Será que o rei era cool é foi comprar Havaianas ? Terei que aguardar o filme para confirmar mas pelos traços do desenho que foram recém divulgados, esta não parece ser a tendência. É um clássico desenho Disney..Na verdade, o desenhista da Sofia deve ter se inspirado no que aconteceu com a pele do Michael Jackson. Se a Disney não tivesse anunciado a “latinidad” de Sofia em seus press releases, eu diria que ela é a primeira princesa irlandesa a merecer lugar em um desenho animado. Cabelos ruivos e olhos azuis fazem de Sofia uma latina um tanto única. Enfim, nada que uma legenda e uma boa assessoria de imprensa não resolvam. Provavelmente em função do potencial de seu mercado, os latinos finalmente mereceram um ingresso na família real…Depois da malandragem do Zé Carioca, a redenção veio através da princesa Sofia. De repente, pensando no futuro (Sofia 2, a missão), a Disney promove o casamento da Sofia com o  seu príncipe encantado, quem sabe Hugo Chavez…ao som de rumba em Maracaibo…aí sim o pacote seria mais completo e a ficção se aproximaria da realidade.

Piu-piu sem Frajola

Saída para o feriado, chuva, tédio. Dia das crianças…Hora de soltamos o playlist infantil para distrair a turma. A primeira conclusão é de que a trilha precisa ser rapidamente atualizada pois algumas músicas já estão completamente inadequadas para a faixa etária atual e para os interesses dominantes. Começa a tocar “Fico assim sem você ”  versão da Adriana, que era Calcanhoto mas para que para tentar vender mais discos, virou Partimpim.

“Avião sem asa,
Fogueira sem brasa,
Sou eu assim, sem você
Futebol sem bola,
Piu-piu sem Frajola,
Sou eu assim, sem você…”

Interrupção súbita por parte de uma das crianças:

– Como assim Piu-Piu sem Frajola ?

Outro rebate: – Frajola, o gato, aquele que vive brigando com o Piu-Piu. Eles se detestam mas não podem viver separados…

– Não, não é sobre isto que estou falando. Ela tem autorização da Looney Tunes para colocar o Piu-Piu e o Frajola na música ? Ela não pode fazer isto…

Algo me diz que meus filhos e os amigos andaram assistindo as sessões de julgamento do Mensalão na TV Justiça ao invés de Cartoon Network e Disney Channel. A polêmica sobre direitos autorais dominou o resto da viagem. No dia das crianças, meus filhos e seus amigos, estavam inconscientemente brincando de advogados e o carro se transformou em um tribunal. O veredicto ? Partimpim foi absolvida em um placar apertado. O derrotado quis levar o caso ao supremo, no caso, “eu”, mas diferente de alguns ministros da suprema corte, achei correto me abster por conflito de interesses.

Falafel

Seu filho de quase dez anos embarca para uma viagem a Paris. Você sabe que ele tirará fotos da torre Eiffel e do Arco do Triunfo, passeará as margens do Sena e visitará a Monalisa. Conhecerá Paris e guardará as suas lembranças de uma das cidades mais bonitas do mundo. Você fica feliz pela experiência que ele está tendo e ao mesmo tempo  um pouco triste pela saudade e frustrado de não estar mostrando a sua Paris para ele, da maneira egoísta e pretensiosa que você acredita que a cidade deva ser mostrada. A torre é de todos, a Monalisa é primeiro dos japoneses e depois de todo o resto mas você precisa mostrar para ele que tem um pedacinho de Paris que não é de todo mundo, que não pertence a multidão, é apenas para ele se lembrar de você.
– Filho, vá ao bairro do Marais (lembre-se de um Marreco…) e você verá um monte de restaurantes vendendo um sanduíche com um bolinho chamado Falafel. Experimente . Papai adora e você também irá gostar…
Os dias passam, os bolinhos de grão de bico caem no ostracismo e despretensiosamente você telefona para saber da vida
– E aí filho ? Como estão as coisas ? Foi na torre ? No Louvre ? Versailles ?
– Não pai, hoje estávamos andando pela rua e eu experimentei aquele bolinho que você me falou….É muito bom !
Nunca me senti tão conectado ao meu filho por causa de um falafel…O sabor  disto foi delicioso…infinitamente melhor do que o do sanduíche de bolinhos de grão de bico frito, foi gosto de sintonia ….de presença, mesmo a distância.

Bebê a bordo

Nada como um agradável voo de algumas horas com uma criancinha se esgoelando para despertar a insatisfação dos demais passageiros. Todos  discretamente lançam olhares fuzilantes para a mãe do rebento. Por vezes além do choro, você recebe de brinde alguns pontapés no seu assento ou um puxão de cabelos vindo do banco de trás.

A doce vingança dos executivos…

Li que a Malaysian Airlines, atendendo a pesquisas com seus “frequent flyers”‘ em sua maioria executivos, resolveu criar zonas child free a bordo de suas aeronaves. Em seus aviões que possuem dois andares, o andar superior agora tem acesso limitado a passageiros maiores de doze anos. Ou seja,  mammys e suas proles se quiserem viajar, tem que ir de classe econômica no andar de baixo do avião. A United Airlines também parece que cansou das traquinagens dos pequenos infantes e acabou com o privilégio de acesso prioritário para famílias  com crianças. Conseguiu gerar um abaixo-assinado de protesto de mães indignadas que colheu 30 mil assinaturas pedindo a reversão da medida. Os sisudos executivos, que sustentam o dia dia das companhias aéreas, estão derrotando as crianças, que continuarão voando e chorando mas em áreas limitadas dos aviões.

Aprendizado na neve

Uma das belezas da vida é a capacidade de se poder continuar aprendendo independentemente da idade. Esta semana lá fui eu para o desafio de tentar desenvolver minhas habilidades para conseguir  esquiar na neve. Se colocar no papel de ignorante não é das coisas mais fáceis de se fazer (ao menos para mim..),requer uma boa dose de humildade e um exercício para deixar a vaidade de lado, ainda mais quando vários dos seus colegas de “escola”  tem entre 3 e 5 anos de idade.É uma sensação um tanto estranha…você  tentando frear colocando os seus skis em uma bizarra posição de pizza e  sendo ultrapassado por crianças recém saídas das fraldas e que ainda fazem questão de passar ao seu lado descendo de costas e sorrindo. O mico se intensifica com o instrutor pedindo para fazer exercícios de equilíbrio que você não conseguiria fazer nem parado, no plano e sem nada nos pés, que dirá na descida e com skis nos pés…Você tem a impressão que a estação de ski inteira está se divertindo com os seus incríveis tombos desengonçados, que te deixam em posições dignas de um kama sutra, porém gelado e sem parceira. A perseverança vence e aos poucos você vai relaxando, se abrindo para a beleza da natureza, ignorando os outros e se realizando com as pequenas conquistas como não cair  na saída do teleférico, conseguir descer uma montanha de cima a baixo e ver que você não evolui sozinho: os seus filhos que alguns dias atrás nunca haviam visto neve, agora parece que nasceram em alguma província da Suiça. O prazer não vem do grau de dificuldade da pista e sim de conseguir superar os seus limites, aprender, continuar evoluindo e sair com a certeza que a próxima vez será ainda melhor. É duro mas realmente não existe aprendizado sem tombos.

Sorvete Napolitano

Durante um almoço em família  me reencontrei com um clássico da minha infância, o sorvete napolitano. Para quem não sabe, o sorvete napolitano vem em um pote, daqueles de 2 litros, com três sabores: creme, chocolate e morango. A dinâmica de consumo parece que  se manteve intacta nos últimos trinta anos….todas as crianças continuam se servindo gulosamente dos sabores creme e chocolate e o sorvete de morango sobrando, abandonado como um patinho feio do mundo dos gelados.

Como adulto consciente, preocupado com o desequilíbrio social e vendo o preconceito imperar naquela mesa, resolvi intervir. Sorrateiramente, enquanto distraía as crianças, passei a colocar nas suas taças, uma bolinha de sorvete de morango, camuflada, cercada por sorvete de creme e chocolate. Acreditava que estaria contribuindo com o bem estar da sociedade ao agir, ainda que veladamente, a favor da diversidade. Rapidamente porém, o meu plano de dar vazão ao estoque de morango e desacelerar o consumo dos outros sabores, se mostrou infrutífero. As crianças identificaram a trapaça e rejeitaram ainda mais o coitado do sorvete de morango. Por alguns instantes procurei ser solidário ao sabor morango…ele deve se sentir mais ou menos como a irmã da Gisele Bunchen. Todos dizem que é parte da família, que o Napolitano não existiria sem ele, mas na hora do vamos ver, as preferências aparecem e o coitado vai pouco a pouco se derretendo, envergonhado e abandonado, com uma baixíssima auto-estima. Para recuperá-lo estou pensando em expor os meus filhos a um pote de sorvete de Passas ao Rum…aí sim, eles verão que a discriminação contra o sorvete de morango é descabida e que existe coisa bem pior no mundo.

Jogo do banquinho

Enfrentar algumas horas de trânsito com crianças no carro, requer habilidade. Na medida em que o tempo passa e o tédio chega, começam os duelos bélicos por jardas no banco traseiro. Um faz questão de invadir o espaço do outro e o descanso de braço que deveria delimitar os territórios, se mostra inútil. Sintonizar na rádio 89,1 (que não é mais a rádio rock e agora é a rádio fast, patrocinada por um iogurte) e cantar junto com eles músicas da Lady Gaga, da Kate Perry ajuda um pouco mas quando a estação começa a falhar e sai do ar, o clima no carro esquenta de vez. Como forma de manter o entretenimento a bordo, lancei mão da fórmula consagrada do programa do Raul Gil com o seu jogo do banquinho.Todos os passageiros devem  dizer o que tem no supermercado com a letra A, na feira com a letra C e por aí vai… Quem erra, perde e todos cantam uma musiquinha para celebrar a eliminação. Espírito de programa de auditório. Além de manter o pessoal entretido, serve para estimular o cerébro e checar em que mundo os meus filhos estão vivendo. Ontem em uma das rodadas pedi que as crianças me dissesem o que tem na estrada com a letra P. Começaram bem, com pedágios, placas e afins…Depois de algumas rodadas, meu filho resolveu afirmar que nas estradas têm “periguetes”. Isto depois de me dizer que no shopping com a letra L , existia “lavagem cerebral”. Como guardião das regras, impugnei as duas respostas, por mais verdadeiras que elas fossem. O tempo da viagem passou mais depressa mas mostrou também que o tempo da inocência também está chegando ao fim. 

Posts anteriores

Enter your email address to follow this blog and receive notifications of new posts by email.

Rumo a um bilhão de hits

  • 79.731 hits

Páginas mais populares

Separando meninos de homens
Para lá de Kathmandu
Sonho de Ícaro
Descompressão
Número 2
Rotina de monge
Yak e Yeti
Annapurna, sua linda
Soletre: Machhapuchhere
Termas e Namaste
janeiro 2026
S T Q Q S S D
 1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031