Este final de semana finalmente fui assistir ao filme francês “Os Intocáveis” . O filme é inspirado em uma história real e conta a relação de Philippe, um milionário tetraplégico de Paris, e Driss, o seu improvável cuidador. Pobre, ex-presidiário, sem um currículo profissional mas cheio de vida e seguro de si, Driss acaba sendo o perfeito contraponto para Philippe e esta relação que começa restrita a patrão e empregado, acaba virando um elemento de transformação na vida de ambos. Este enredo tinha tudo para se transformar em um melodrama mexicano mas o tom do filme passa longe de ser piegas e o bom humor é marcante ao longo de toda a história. Classificar o filme como comédia porém, acaba sendo bem superficial. Não dá para sair do cinema e não pensar na vida…Comédias de verdade são esquecidas no caminho de volta para casa…Com “Os Intocáveis”, isto definitivamente não acontece e pelo menos para mim, sobrou aquele leve incômodo reflexivo. Fiquei pensando que talvez mais do que “Os Intocáveis”, talvez o filme devesse se chamar “Os Excluídos”. O ponto de união entre os personagens é justamente a exclusão social de ambos. Philippe, rico, refinado, excluído por suas limitações físicas. Driss, imigrante, malandro, excluído por sua origem. Dinheiro não compra a vitalidade e energia que Philippe tanto desejaria reconquistar…Driss provavelmente abriria mão de sua auto-confiança e poder de sedução, em troca de mais alguns passeios de Maseratti , banhos de banheira e restaurantes refinados. Escolher entre dinheiro e saúde sempre me pareceu óbvio mas ao terminar o filme e me colocar no lugar de Driss fiquei pensando se a minha visão é realmente universal. Fiquei com dúvidas….
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Os excluídos
Passado próximo
As fronteiras com os vizinhos da Croácia são bem próximas e resolvemos nos aventurar pelas terras da Bósnia e Herzegovina para conhecer Mostar. Mostar é reconhecida como um patrimônio da humanidade pela Unesco e é conhecida pelo seu centro histórico e por sua ponte do século XVI. Na verdade, a ponte original era do século XVI, a ponte atual tem menos de dez anos e foi reconstruída após a destruição da original em 1993, durante a guerra da Bósnia.
Entrar em contato com as marcas de uma guerra tão recente é perturbador e constrangedor. Como assim um bombardeio no meio da Europa em 1993 ? Eu já estava formado e trabalhando…Claro que eu já tinha ouvido falar na guerra da Bósnia mas quando você observa de perto que o pau comeu tão próximo de vizinhos tão poderosos e sem maiores interferências, dá uma certa vergonha da humanidade. Fora a ponte nova, você ainda encontra ruínas de várias casas derrubadas e diversas paredes furadas de balas…
Hoje em dia os turistas estão por todas as partes e se você quiser pode se concentrar apenas em tirar as suas fotos, comprar ímãs de geladeiras com a imagem da ponte e contribuir com algumas moedas para que um nativo dê um salto acrobático no rio mas a verdade é que mais do que um day trip, foi uma viagem a um passado muito próximo e muito feio.
Sonhos e gramática
O português tem as suas sutilezas. Os sonhos merecem um verbo, os pesadelos não. Os sonhos nos levam para frente, são cor de rosa e não machucam, apenas energizam. Algumas vezes são tão intangíveis que fogem…Queremos, mas não conseguimos lembrá-los. Os pesadelos nos despertam e perturbam, são escuros e nos forçam a refletir. Alguns deles se repetem e viram traumas…Queremos, mas não conseguimos esquecê-los. Gostamos de sonhar e detestamos “pesadelar”. A gramática se alinhou com a nossa mente…coerente e tranquilizador.
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Sala de Espera
Visita ao médico, aquele atraso de sempre… Você se senta e vê sobre a mesa de centro suas opções de leitura: uma edição da Veja que destaca a posse da Dilma ou a revista Exame que fala sobre o legado de Steve Jobs. Melhor é não ler nada. Você amaldiçoa o médico e tem certeza que o valor que você paga em uma consulta seria suficiente para comprar pelo menos quarenta revistas mais atualizadas. Vizinhos de espera conversam animadamente e se vangloriam de contar histórias dramáticas sobre porque estão lá, desfilam o seu conhecimento sobre patologias (os mais avançados são aqueles que falam sobre síndromes e doenças autoimunes…), medicamentos que tomam e todos os profissionais da área pelos quais já passaram. Estabelecem uma velada competição para ver quem está pior e quem é o mais hipocondríaco. Você, apesar de seu celular não ter sinal e as suas mensagens não poderem ser respondidas, finge que está trabalhando e procura se concentrar. O tempo vai passando, você pergunta para a recepcionista se irá demorar para ser atendido. Ela simpaticamente diz que o doutor é bastante atencioso e por isto por vezes se alonga em suas consultas. No máximo em meia hora o senhor será atendido. Você sorri…claro, o sofá é tão confortável e afinal você não tem mais nada para fazer. No retorno sua pequena fração de sofá já está ocupada por mais um que se junta ao pessoal da espera.
Você busca novos entretenimentos. Observa as gravuras e os móveis da sala de espera…se este homem foi capaz de fazer escolhas tão ruins em termos de decoração, será capaz de acertar o seu diagnóstico ? A dúvida te atormenta…O fato dele gostar de réplicas de estatuetas romanas deve desqualificá-lo como profissional ? Misturar máscaras balinesas com as homenagens a Júlio César significa que a receita dele também pode te levar a uma perigosa interação medicamentosa ? O chamado pelo seu nome te tira do transe. É hora de entrar e encontrar o admirador de imperadores romanos…Você entra lentamente, agora que a sua agenda do dia foi toda comprometida, não se importa em demorar bastante. É hora de fazer os outros esperarem.
Viagem do pensamento
Este final de semana fui assistir “Na Estrada”, o filme de Walter Salles que é uma adaptação para o cinema do livro “On the Road” de Jack Kerouac . O livro de 1957 (que eu não li) é uma retrato da juventude americana no pós-guerra, a geração ‘beatnik” e é centrado na história de Sal, Dean e Marylou e suas andanças pelas estradas dos Estados Unidos, Canadá e México. O filme tem uma fotografia bonita, bons atores mas em várias horas me senti como as crianças, perguntando se iria demorar muito para chegar ao destino, pois a viagem pelas horas do filme parecia interminável. Os momentos arrastados e contemplativos de “Na Estrada” porém, não desqualificam as reflexões que ele provoca e não há como não sentir uma pequena inveja do prazer e da irresponsabilidade que os personagens do filme transbordam. Ver o filme me levou de volta a uma pergunta clássica da juventude: o que aconteceria com a minha vida se amanhã ao invés de ir para a escola ou para o trabalho, eu resolvesse ir morar na praia ? E se eu pegasse o carro e dirigisse sem destino ? Hoje em dia as respostas que viriam de minha mente seriam pragmáticas, adultas e talvez um pouco amargas: em algum momento você não teria dinheiro para colocar gasolina e seu carro pararia ou antes disto você seria preso pelo não pagamento da pensão dos seus filhos. O bom do cinema e dos sonhos é que você pode escrever roteiros de ficção…as vezes eles se despedaçam junto com o toque do despertador mas ainda assim servem de alimento para uma grande viagem do pensamento.
9 anos em 2 minutos
Uma das coisas mais marcantes de ser pai é não cansar de se surpreender com a velocidade com que seus filhos crescem. Os momentos de choque acontecem quando você menos espera…No dia em que seu filho fala pela primeira vez, quando você o vê engatinhar , quando você tem que carregá-lo do sofá para a cama e percebe o quanto ele está pesado e mal cabe nos seus braços. Ou quando começam os questionamentos, as colocações estruturadas, que não são mais compatíveis com gugudadás. E as dúvidas para a lição da escola ? Você se sente incapaz de contribuir e só pensa como já podem expor o seu filho a coisas tão complicadas. São flashes, em que você percebe que seu filho está crescendo , que a vida está passando e que o tempo é implacável. Você olha para trás e nota que os anos se passaram em frações de segundo e que a criancinha da sua imaginação, não existe mais, já é parte do passado. Vi hoje este vídeo no www. mashable.com. Um holandês que fotografou o seu filho, todas as semanas , desde o seu nascimento até hoje. O menino tem 9 anos, o vídeo tem 127 segundos…9 anos em pouco mais de dois minutos. Não deu para não pensar no meu filho…Não deu para não refletir sobre o tempo.
















