Viagem longa. A esteira começa a rodar. As malas surgem. Os passageiros retiram sua bagagem e seguem para os seu destinos. A esteira para. Permaneço olhando para o vazio, esperando que um milagre ocorra, minha mala surja e eu também possa prosseguir minha jornada. Entro em fase de negação, não é possível que justo a minha mala não apareça. Por que comigo ? Mais dois minutos de paralisia e a letargia é vencida. A mala não veio mesmo. Hora de procurar o balcão da empresa aérea. A funcionária,com aquele bom humor característico, me faz quase pedir desculpas por ter perdido minha mala e estar dando trabalho. Começa o interrogatório:
Arquivo mensal: junho 2012
Cadê minha mala ?
Internet nas nuvens
Viajar de avião é sempre uma grande surpresa. Quem será o passageiro que se sentará ao seu lado ? No meu caso, o meu processo de mapeamento e angústia começa na sala de embarque. Podem haver 200-300 passageiros para embarcar mas se houver uma freira, uma pessoa com obesidade mórbida ou um cidadão com visual de “Woodstock não terminou”, a estatística indica que em breve sentaremos lado a lado. É inevitável…Ontem não foi diferente e meu companheiro de fileira era uma versão reloaded do Kurt Cobain.
Para a minha alegria no entanto, fiz o meu primeiro vôo em que realmente consegui usar a internet do começo ao fim. Paguei US$ 10,00 por isto mas consegui fazer as minhas coisas e abstrair das músicas que vazavam pelo fone de ouvido do meu vizinho.
O avião tem que ter uma configuração especial , com wi-fi a bordo, mas depois você simplesmente conecta o www.gogoair.com, se cadastra e paga com cartão de crédito. Se comprar o plano ainda em terra, tem desconto (o difícil é saber se a sua aeronave terá wi-fi). Assim que o voo atinge a altitude de cruzeiro, o sinal é liberado. A velocidade de navegação é honesta , ainda mais para quem está habituado com o TIM 3G. A verdade é que o desconforto passou a ser outro…quando o Kurt viu que eu estava conectado, passou a pescoçar no que eu estava fazendo. De qualquer maneira, adorei a experiência. O dinheiro foi bem gasto, não apenas para me livrar do vizinho chato mas para me entreter e ficar conectado com o mundo.
Sorvete Napolitano
Durante um almoço em família me reencontrei com um clássico da minha infância, o sorvete napolitano. Para quem não sabe, o sorvete napolitano vem em um pote, daqueles de 2 litros, com três sabores: creme, chocolate e morango. A dinâmica de consumo parece que se manteve intacta nos últimos trinta anos….todas as crianças continuam se servindo gulosamente dos sabores creme e chocolate e o sorvete de morango sobrando, abandonado como um patinho feio do mundo dos gelados.
Como adulto consciente, preocupado com o desequilíbrio social e vendo o preconceito imperar naquela mesa, resolvi intervir. Sorrateiramente, enquanto distraía as crianças, passei a colocar nas suas taças, uma bolinha de sorvete de morango, camuflada, cercada por sorvete de creme e chocolate. Acreditava que estaria contribuindo com o bem estar da sociedade ao agir, ainda que veladamente, a favor da diversidade. Rapidamente porém, o meu plano de dar vazão ao estoque de morango e desacelerar o consumo dos outros sabores, se mostrou infrutífero. As crianças identificaram a trapaça e rejeitaram ainda mais o coitado do sorvete de morango. Por alguns instantes procurei ser solidário ao sabor morango…ele deve se sentir mais ou menos como a irmã da Gisele Bunchen. Todos dizem que é parte da
família, que o Napolitano não existiria sem ele, mas na hora do vamos ver, as preferências aparecem e o coitado vai pouco a pouco se derretendo, envergonhado e abandonado, com uma baixíssima auto-estima. Para recuperá-lo estou pensando em expor os meus filhos a um pote de sorvete de Passas ao Rum…aí sim, eles verão que a discriminação contra o sorvete de morango é descabida e que existe coisa bem pior no mundo.
Publicado em Família, Gastronômico, Kids
Jogo do banquinho
Enfrentar algumas horas de trânsito com crianças no carro, requer habilidade. Na medida em que o tempo passa e o tédio chega, começam os duelos bélicos por jardas no banco traseiro. Um faz questão de invadir o espaço do outro e o descanso de braço que deveria delimitar os territórios, se mostra inútil. Sintonizar na rádio 89,1 (que não é mais a rádio rock e agora é a rádio fast, patrocinada por um iogurte) e cantar junto com eles músicas da Lady Gaga, da Kate Perry ajuda um pouco mas quando a estação começa a falhar e sai do ar, o clima no carro esquenta de vez. Como forma de manter o entretenimento a bordo, lancei mão da fórmula consagrada do programa do Raul Gil com o seu jogo do banquinho.Todos os passageiros devem dizer o que tem no supermercado com a letra A, na feira com a letra C e por aí vai… Quem erra, perde e todos cantam uma musiquinha para celebrar a eliminação. Espírito de programa de auditório. Além de manter o pessoal entretido, serve para estimular o cerébro e checar em que mundo os meus filhos estão vivendo. Ontem em uma das rodadas pedi que as crianças me dissesem o que tem na estrada com a letra P. Começaram bem, com pedágios, placas e afins…Depois de algumas rodadas, meu filho resolveu afirmar que nas estradas têm “periguetes”. Isto depois de me dizer que no shopping com a letra L , existia “lavagem cerebral”. Como guardião das regras, impugnei as duas respostas, por mais verdadeiras que elas fossem. O tempo da viagem passou mais depressa mas mostrou também que o tempo da inocência também está chegando ao fim.













