Cadê minha mala ?

Viagem longa.  A esteira começa a rodar. As malas surgem. Os passageiros retiram sua bagagem  e  seguem para  os seu destinos. A esteira para. Permaneço olhando para o vazio, esperando que um milagre ocorra, minha mala surja e eu também possa prosseguir minha jornada. Entro em fase de negação, não é possível que justo a minha mala não apareça. Por que comigo ? Mais dois minutos de paralisia e a letargia é vencida. A mala não veio mesmo. Hora de procurar o balcão da empresa aérea. A funcionária,com aquele bom humor característico, me faz quase pedir desculpas por ter perdido minha mala e estar dando trabalho. Começa o interrogatório:

-How is your suitcase ? Describe it to me.
Samsonite , black, medium size, 4 wheels
– This is not distinctive ! There are many black bags
Pois é…esta é a realidade do mundo…
– What do you have in the bag ?
– One suit, shirts, paints,underwear…
– This is not distinctive  !
O que ela esperava que eu dissesse ? Que eu tinha uma fantasia de Homem Aranha ?
Tento argumentar que de fato existem milhares de Samsonites pretas, com um terno, camisas, calças e cuecas mas que aquela era minha realidade. Argumento que o melhor jeito de reconhecer a dita cuja é mesmo pelo comprovante de bagagem. Contrariada, a general parece concordar e procura pela mala em seu sistema.
Vou embora para o hotel e depois de pouco tempo  a eficiência americana finalmente aparece. Uma chuva de e-mails seguidos da cia aérea pedindo desculpas  e me direcionando para o www.whereismysuitcase.com (sim,isto existe), onde fui informado que a mala havia sido encontrada, quem era o motorista que a traria e finalmente confirmando o horário e para quem a mala foi entregue.  Reencontrei a minha Samsonite preta intacta depois de algumas horas. Dá um alívio…

Internet nas nuvens

Uma potencial vizinha de voo

Viajar de avião é sempre uma grande surpresa. Quem será o passageiro que se sentará ao seu lado ? No meu caso, o meu processo de mapeamento e angústia começa na sala de embarque. Podem haver 200-300 passageiros para embarcar mas se houver uma freira, uma pessoa com obesidade mórbida ou um cidadão com visual de “Woodstock não terminou”, a estatística indica que em breve sentaremos lado a lado. É inevitável…Ontem não foi diferente e meu companheiro de fileira era uma versão reloaded do Kurt Cobain.

Para a minha alegria no entanto,  fiz o meu primeiro vôo em que realmente consegui usar a internet do começo ao fim.  Paguei US$ 10,00 por isto mas consegui fazer as minhas coisas e abstrair das músicas que vazavam pelo fone de ouvido do meu vizinho.

O avião tem que ter uma configuração especial , com wi-fi a bordo, mas depois  você simplesmente conecta o www.gogoair.com, se cadastra e paga com cartão de crédito. Se comprar o plano ainda em terra, tem desconto (o difícil é saber se a sua aeronave terá wi-fi). Assim que o voo atinge a altitude de cruzeiro, o sinal é liberado.  A velocidade de navegação é honesta , ainda mais para quem está habituado com o TIM 3G. A verdade é que o desconforto passou a ser outro…quando o Kurt viu que eu estava conectado, passou a pescoçar  no que eu estava fazendo. De qualquer maneira, adorei a experiência. O dinheiro foi bem gasto, não apenas para me livrar do vizinho chato mas para me entreter e ficar conectado com o mundo.

Sorvete Napolitano

Durante um almoço em família  me reencontrei com um clássico da minha infância, o sorvete napolitano. Para quem não sabe, o sorvete napolitano vem em um pote, daqueles de 2 litros, com três sabores: creme, chocolate e morango. A dinâmica de consumo parece que  se manteve intacta nos últimos trinta anos….todas as crianças continuam se servindo gulosamente dos sabores creme e chocolate e o sorvete de morango sobrando, abandonado como um patinho feio do mundo dos gelados.

Como adulto consciente, preocupado com o desequilíbrio social e vendo o preconceito imperar naquela mesa, resolvi intervir. Sorrateiramente, enquanto distraía as crianças, passei a colocar nas suas taças, uma bolinha de sorvete de morango, camuflada, cercada por sorvete de creme e chocolate. Acreditava que estaria contribuindo com o bem estar da sociedade ao agir, ainda que veladamente, a favor da diversidade. Rapidamente porém, o meu plano de dar vazão ao estoque de morango e desacelerar o consumo dos outros sabores, se mostrou infrutífero. As crianças identificaram a trapaça e rejeitaram ainda mais o coitado do sorvete de morango. Por alguns instantes procurei ser solidário ao sabor morango…ele deve se sentir mais ou menos como a irmã da Gisele Bunchen. Todos dizem que é parte da família, que o Napolitano não existiria sem ele, mas na hora do vamos ver, as preferências aparecem e o coitado vai pouco a pouco se derretendo, envergonhado e abandonado, com uma baixíssima auto-estima. Para recuperá-lo estou pensando em expor os meus filhos a um pote de sorvete de Passas ao Rum…aí sim, eles verão que a discriminação contra o sorvete de morango é descabida e que existe coisa bem pior no mundo.

Desculpa não esfarrapada

Greve de metrô, pneu furado, consulta médica, morte na família….As desculpas para faltar ao trabalho embora sejam sempre parecidas, são infinitas. Um menino de 5 anos nos Estados Unidos, resolveu inovar e justificar a sua falta na escola alegando que estava em um compromisso com Barak Obama. Para que não restassem dúvidas, ele exibiu um cartão assinado pelo próprio presidente dos EUA, pedindo para o professor ser tolerante com o caso e justificando que de fato, Tyller Sullivan estava com ele. Tudo verdade: no dia anterior, Tyller foi a fábrica onde seu pai trabalha e que recebeu a visita de Obama, que ao ser apresentado ao menino, se prontificou a assinar o bilhete.  O professor, mesmo que seja republicano, não poderá dizer que a desculpa foi esfarrapada…

Jogo do banquinho

Enfrentar algumas horas de trânsito com crianças no carro, requer habilidade. Na medida em que o tempo passa e o tédio chega, começam os duelos bélicos por jardas no banco traseiro. Um faz questão de invadir o espaço do outro e o descanso de braço que deveria delimitar os territórios, se mostra inútil. Sintonizar na rádio 89,1 (que não é mais a rádio rock e agora é a rádio fast, patrocinada por um iogurte) e cantar junto com eles músicas da Lady Gaga, da Kate Perry ajuda um pouco mas quando a estação começa a falhar e sai do ar, o clima no carro esquenta de vez. Como forma de manter o entretenimento a bordo, lancei mão da fórmula consagrada do programa do Raul Gil com o seu jogo do banquinho.Todos os passageiros devem  dizer o que tem no supermercado com a letra A, na feira com a letra C e por aí vai… Quem erra, perde e todos cantam uma musiquinha para celebrar a eliminação. Espírito de programa de auditório. Além de manter o pessoal entretido, serve para estimular o cerébro e checar em que mundo os meus filhos estão vivendo. Ontem em uma das rodadas pedi que as crianças me dissesem o que tem na estrada com a letra P. Começaram bem, com pedágios, placas e afins…Depois de algumas rodadas, meu filho resolveu afirmar que nas estradas têm “periguetes”. Isto depois de me dizer que no shopping com a letra L , existia “lavagem cerebral”. Como guardião das regras, impugnei as duas respostas, por mais verdadeiras que elas fossem. O tempo da viagem passou mais depressa mas mostrou também que o tempo da inocência também está chegando ao fim. 

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