
Quantas vezes não nos pegamos reclamando da rotina, do tédio e suplicando por novos ares. Férias e viagens tem este papel de nos oxigenar com pequenas fugas do cotidiano. Viagens mais do que levar o corpo para outras terras, servem para levar a mente para outra dimensão. Porém, são fugazes. Nos deixam com boas lembranças e um enorme gosto de quero mais. Tentamos congelar estes momentos…Revemos as fotos, relembramos as histórias, compramos souvenirs e buscamos perpetuar as nossas experiências. Hoje vi no www.psfk.com que o fotógrafo tcheco Kirill Rudenko radicalizou na tentativa de fazer com que as pessoas se lembrem das pequenas doses de oxigênio que respiraram em suas andanças por aí. Ele acabou de lançar “ar” enlatado de algumas das principais cidades do mundo…Ar de Paris, ar de Nova York, ar de Berlim e por aí vai…Será que embalados pelo ritmo de Copa do Mundo e Olimpíadas teremos extensões de linha com latinhas brasileiras ? Poluição de São Paulo ? Queimadas da Amazônia ? Maresia do Rio de Janeiro ? Um detalhe…cada respirada do ar da sua cidade favorita custa $8 euros.
Novos ares
Sonhos e gramática
O português tem as suas sutilezas. Os sonhos merecem um verbo, os pesadelos não. Os sonhos nos levam para frente, são cor de rosa e não machucam, apenas energizam. Algumas vezes são tão intangíveis que fogem…Queremos, mas não conseguimos lembrá-los. Os pesadelos nos despertam e perturbam, são escuros e nos forçam a refletir. Alguns deles se repetem e viram traumas…Queremos, mas não conseguimos esquecê-los. Gostamos de sonhar e detestamos “pesadelar”. A gramática se alinhou com a nossa mente…coerente e tranquilizador.
Publicado em Reflexivo
Sala de Espera
Visita ao médico, aquele atraso de sempre… Você se senta e vê sobre a mesa de centro suas opções de leitura: uma edição da Veja que destaca a posse da Dilma ou a revista Exame que fala sobre o legado de Steve Jobs. Melhor é não ler nada. Você amaldiçoa o médico e tem certeza que o valor que você paga em uma consulta seria suficiente para comprar pelo menos quarenta revistas mais atualizadas. Vizinhos de espera conversam animadamente e se vangloriam de contar histórias dramáticas sobre porque estão lá, desfilam o seu conhecimento sobre patologias (os mais avançados são aqueles que falam sobre síndromes e doenças autoimunes…), medicamentos que tomam e todos os profissionais da área pelos quais já passaram. Estabelecem uma velada competição para ver quem está pior e quem é o mais hipocondríaco. Você, apesar de seu celular não ter sinal e as suas mensagens não poderem ser respondidas, finge que está trabalhando e procura se concentrar. O tempo vai passando, você pergunta para a recepcionista se irá demorar para ser atendido. Ela simpaticamente diz que o doutor é bastante atencioso e por isto por vezes se alonga em suas consultas. No máximo em meia hora o senhor será atendido. Você sorri…claro, o sofá é tão confortável e afinal você não tem mais nada para fazer. No retorno sua pequena fração de sofá já está ocupada por mais um que se junta ao pessoal da espera.
Você busca novos entretenimentos. Observa as gravuras e os móveis da sala de espera…se este homem foi capaz de fazer escolhas tão ruins em termos de decoração, será capaz de acertar o seu diagnóstico ? A dúvida te atormenta…O fato dele gostar de réplicas de estatuetas romanas deve desqualificá-lo como profissional ? Misturar máscaras balinesas com as homenagens a Júlio César significa que a receita dele também pode te levar a uma perigosa interação medicamentosa ? O chamado pelo seu nome te tira do transe. É hora de entrar e encontrar o admirador de imperadores romanos…Você entra lentamente, agora que a sua agenda do dia foi toda comprometida, não se importa em demorar bastante. É hora de fazer os outros esperarem.
Carta dourada
A Grã-Bretanha é um país fiel as suas tradições.As cabines telefônicas, os taxis londrinos, os pubs e até a rainha são alguns ícones que parecem imutáveis ao longo de décadas e por vezes séculos. As Olimpíadas de Londres estão contribuindo para a transformação de um outro símbolo britânico que permanecia petrificado no tempo desde 1874: as caixas de correio ou para ficar mais chique “pillar boxes”. Como forma de se engajar no espírito olímpico e demonstrar o seu apoio aos atletas da casa, o UK Postal Service, decidiu homenagear os ganhadores das medalhas de ouro, pintando de dourado os “pillar boxes” mais próximos das residências dos medalhistas . Os “pillar boxes” tradicionalmente sempre foram vermelhos e nunca tinham mudado de cor em quase 150 anos. Existem 115.000 caixas de correio espalhadas pelo Reino Unido…Por enquanto os pintores do correio não tiveram muito trabalho…apenas 11 medalhas de ouro foram conquistados e portanto 11 caixas foram pintadas mas até o final das Olimpíadas e com o início dos Jogos Paraolímpicos, os anfitriões estão otimistas em gastar bastante tinta dourada. Se a moda pega no Brasil, baseado na nossa performance até o momento, o coitado do pintor iria morrer de tédio e talvez um galão de tinta fosse suficiente…
Publicado em Marketing, Olimpíadas
Bonsai de ginasta
As olimpíadas continuam. Depois da tentativa de aprender os fundamentos do judô que relatei no post anterior, agora os meus olhares se voltaram para a ginástica olímpica. Não vou falar dos desagradáveis tombos da família Hypolito ou da aposentadoria da Daiane. Ontem quando liguei a televisão, tive certeza de quem estava representando o Japão era a Cecília, uma colega de escola da minha filha e que tem oito anos de idade. São ginastas miniaturas com corpo e fisionomia de crianças ! Cheias de maquiagem, pareciam que estavam brincando com o batom que pegaram escondido de suas mães. A sensação que elas passam quando dão piruetas naquela trave ou voam nas barras assimétricas é que vivem em Lilliput. Tudo aquilo parece ser super-dimensionado para elas…Os seus técnicos, quando as abraçam, parecem os gigantes do pé de feijão ! E quando as mini-atletas começam a chorar porque receberam notas baixas dos juízes ? É angustiante…eu como telespectador queria ir lá entregar um pirulito ou um sorvete para ver se elas se acalmavam. Parece exploração de trabalho infantil.
Quando você descobre a idade média delas, percebe que não são tão crianças assim…foram escolhidas para a prática do esporte justamente pelo seu biotipo. Me constrangeu um pouco… as atletas orientais parecem que foram submetidas à técnica milenar do bonsai e se transformaram em atletas mas em versão miniatura.
A ginástica é bonita mas a sensação de violência ao corpo é bem desconfortável.
Publicado em Esporte, Olimpíadas
Viagem do pensamento
Este final de semana fui assistir “Na Estrada”, o filme de Walter Salles que é uma adaptação para o cinema do livro “On the Road” de Jack Kerouac . O livro de 1957 (que eu não li) é uma retrato da juventude americana no pós-guerra, a geração ‘beatnik” e é centrado na história de Sal, Dean e Marylou e suas andanças pelas estradas dos Estados Unidos, Canadá e México. O filme tem uma fotografia bonita, bons atores mas em várias horas me senti como as crianças, perguntando se iria demorar muito para chegar ao destino, pois a viagem pelas horas do filme parecia interminável. Os momentos arrastados e contemplativos de “Na Estrada” porém, não desqualificam as reflexões que ele provoca e não há como não sentir uma pequena inveja do prazer e da irresponsabilidade que os personagens do filme transbordam. Ver o filme me levou de volta a uma pergunta clássica da juventude: o que aconteceria com a minha vida se amanhã ao invés de ir para a escola ou para o trabalho, eu resolvesse ir morar na praia ? E se eu pegasse o carro e dirigisse sem destino ? Hoje em dia as respostas que viriam de minha mente seriam pragmáticas, adultas e talvez um pouco amargas: em algum momento você não teria dinheiro para colocar gasolina e seu carro pararia ou antes disto você seria preso pelo não pagamento da pensão dos seus filhos. O bom do cinema e dos sonhos é que você pode escrever roteiros de ficção…as vezes eles se despedaçam junto com o toque do despertador mas ainda assim servem de alimento para uma grande viagem do pensamento.
Yuko,Waza-ari e Ippon
O mundo já está em ritmo de Olimpíadas de Londres. Primeiro veio a abertura..horas e horas de desfile de delegações. Serviu para ampliar o meu repertório geográfico e ter enormes vantagens competitivas caso eu jogue “Stop”, afinal Quirguistão, Tadjiquistão e Palau certamente valerão dez pontos pois praticamente ninguém os conhece . Cerimônia de abertura de Olimpíadas para mim está na mesma categoria de desfile de escola de samba ou musicais da Broadway . Ou seja: serve para você ter assunto durante o jantar em família com a sua avó mas se você tiver alguma coisa melhor para fazer na hora que estiver passando na TV, faça.
Depois da festa, ontem finalmente começaram as competições e a participação do Brasil. A judoca Sara Menezes avançava e resolvi acompanhá-la em suas lutas. Foi muito interessante…Fiquei feliz por ela ter ganho a sua medalha de ouro mas tenho que admitir que não tenho a menor idéia de porque ela foi a vencedora. Entender o judô para mim foi um enigma digno de esfinge. As lutas levam cinco minutos. Durante mais ou menos quatro minutos e cinquenta e oito segundos a única coisa que acontece é uma lutadora ficar puxando a manga do judogui da outra (japonês para leigos: não, o traje dos judocas não se chama kimono… kimono quer dizer apenas “roupa” enquanto judogui quer dizer “roupa para a prática do judô”). Elas se agarram, a faixa na cintura se solta e os cabelos ficam todos desarrumados. Fica parecendo um duelo de descabeladas, Jumas Marruás sobre o tatame. O juiz para a luta, as lutadoras se arrumam e segundos depois voltam a se atracar . De repente alguém cai…se caiu de lado é uma coisa, se caiu de costas é outra e se caiu de cabeca não é nada…De uma hora para outra cartão de advertência para uma das lutadoras. Será que é porque o cabelo ficou desarrumado ? A faixa ficou fora do lugar ? Xingou o juiz ? Sei lá. Foi complexo…
Para o espectador ignorante como eu ,Yukos, Waza-aris e Ippons foram como aquelas primeiras visitas a um restaurante japonês, tentando diferenciar sunomono, harumaki e misoshiro. Você sabe que são coisas completamente diferentes mas não as reconhece… sabe apenas que é melhor ter confiança no garçom do que tentar aprender…Você não tem idéia do que comeu mas gostou da experiência…com o judô e seus golpes tive uma sensação bem parecida. Incríveis yukos (?), waza-aris (??) e ippons (???). Ouro para a Sara. Isto é o que importa…
Publicado em Esporte, Gastronômico, Olimpíadas
Falafel
Seu filho de quase dez anos embarca para uma viagem a Paris. Você sabe que ele tirará fotos da torre Eiffel e do Arco do Triunfo, passeará as margens do Sena e visitará a Monalisa. Conhecerá Paris e guardará as suas lembranças de uma das cidades mais bonitas do mundo. Você fica feliz pela experiência que ele está tendo e ao mesmo tempo um pouco triste pela saudade e frustrado de não estar mostrando a sua Paris para ele, da maneira egoísta e pretensiosa que você acredita que a cidade deva ser mostrada. A torre é de todos, a Monalisa é primeiro dos japoneses e depois de todo o resto mas você precisa mostrar para ele que tem um pedacinho de Paris que não é de todo mundo, que não pertence a multidão, é apenas para ele se lembrar de você.
– Filho, vá ao bairro do Marais (lembre-se de um Marreco…) e você verá um monte de restaurantes vendendo um sanduíche com um bolinho chamado Falafel. Experimente . Papai adora e você também irá gostar…














