O elefante quase roeu a roupa do rei da Espanha

Não está fácil a vida do Rei da Espanha. Apareceu de bacia fraturada, foi operado, está caminhando de bengala mas ninguém está com nenhuma pena. A fratura aconteceu durante uma viagem de sua majestade a Botswana, para onde tinha ido com a nobre finalidade de caçar elefantes.

Detalhe é que  ninguém sabia da aventura e enquanto o rei se divertia, a Espanha enfrenta uma grave crise econômica com desemprego recorde e uma série de medidas austeras sendo tomadas pelo governo. Primeiro veio o desconforto de que a viagem estaria sendo paga com dinheiro público, agora se descobriu que quem pagou a conta foi um amigo saudita do rei, que tem uma série de negócios imobiliários na Espanha, configurando um pequeno conflito de interesses. Caçar elefantes também não parece ser uma atividade muito compatível com o cargo de presidente honorário da filial espanhola WWF (Fundo para Conservação da natureza), cargo que o rei também ocupa. O rei não teve escolha e veio a público pedir suas desculpas a população espanhola. Foi a primeira vez na história que sua realeza se dirigiu aos súditos para pedir perdão…Certamente compreendeu que seria melhor se desculpar do que ver crescer a pressão popular por um pontapé ainda maior em seu traseiro, que já está machucado. Fiquei pensando no que aconteceria se a mesma coisa ocorresse com o CEO de uma empresa e qual seria a posição  dos acionistas. Será que eles teriam a mesma paciência de elefante ?

Se eu fosse um marinheiro

Minha relação com o mar sempre foi de respeito e uma certa distância. Acredito muito no lema que diz que “água no umbigo é sinal de perigo” e gosto mais de olhar para o horizonte  do que  vivenciar aventuras submarinas ou sofrer com enjoos que insistem em aparecer em passeios de barco. Confesso  também que nem a praia se salva e tenho uma leve predileção por piscinas azulejadas, livres dos grãos de areia, que sempre  se escondem em rincões remotos do seu corpo por dias a fio. Ainda assim, desde pequeno achei as histórias dos navegadores absolutamente fascinantes. Começando com os descobridores do passado que se aventuravam em caixotes flutuantes, até a turma de  hoje em dia, que embarca em seus veleiros para cruzar os oceanos sem ter data para voltar.  Existe um espírito de desprendimento (não estou falando do iate de R$ 15 mi do Neymar) , companheirismo e uma integração com a natureza que me cativam.

Minha paixão pelas histórias do mar cresceu um pouco mais ao saber do  naufrágio do barco brasileiro “Mar sem fim” , que estava em uma expedição na Antártica . O “Mar sem fim”  acabou afundando,  retorcido pelo gelo que se acumulou ao seu redor depois de ter brigado com ondas gigantes e vendavais. O relato dos tripulantes descrevendo a luta do barco pela sobrevivência é emocionante e  não dá para ler e não sofrer junto com eles , especialmente quando descobrem que o “Marzão”, como o chamavam, não resistiu.  Me deu uma vontade enorme de  reler  “Velho e o Mar” , “Moby Dick” e  as histórias do Endurance de  Shackleton…Conclui que muito mais do que  do mar, gosto da maneira como  os “marinheiros” o respeitam e o admiram.

Pisando em ovos

Mais uma Páscoa se foi e sobraram ovos e mais ovos de chocolate empilhados em casa. Depois de algumas reflexões infrutíferas de porquê os ovos, apenas com forma e embalagens diferentes, custam tão mais caro que as barras de chocolate das mesmas marcas e com a mesma quantidade de chocolate, resolvi me concentrar em pensamentos menos materialistas sobre qual havia sido o balanço do feriado.
Com os meus filhos mais crescidos e acreditando menos no coelhinho da Páscoa decidimos eliminar o ritual de esconder os ovos pelo jardim.
A vingança foi sofrida… ao invés de questionarem pelo esconderijo dos chocolates, resolveram tentar encontrar coisas que por vezes estão escondidas em lugares mais profundos: respostas e explicações.
Ontem no jantar o assunto foi um interrogatório sobre como os gays faziam para ter filhos… Com direito à variações sobre gays homens e mulheres… E não no sentido bíblico que diz que pai é aquele que cria, mas no sentido mais carnal da discussão.
Sem dúvida é bem mais fácil esconder os ovos do que as explicações. O difícil é não pisar sobre eles quando resolvermos expor os nossos argumentos e as nossas teses.

“Up in the air” versão kids

Reencontrei meus filhos que chegavam de uma viagem internacional. Foi bom para matar saudades e para refletir que com menos de dez anos de idade eles já viajaram o que eu levei quase trinta para fazer. A relação deles com aviões, aeroportos e distâncias é muito diferente da que a minha geração tinha . Algo parecido com o que se fala sobre as diferenças que também temos na interação com a tecnologia. Sempre comentamos que a nova geração nasceu com controles remotos, Ipads e Iphones nas mãos, mas mais do que isto,eles nasceram bem mais cosmopolitas e globalizados. A internet trouxe o inglês para o cotidiano e o mundo para dentro de casa. Você pergunta, o Google responde, e te mostra, ao vivo, na sua tela. Já o Facebook te coloca em uma vila globalizada, com amigos de todos os cantos. Banalizar as viagens de avião está absolutamente alinhado com tudo isto.
As crianças chegaram em casa sem excitação, sem histórias fabulosas sobre pilotos, aeromoças, aeroportos, filmes assistidos a bordo. Pareciam executivos mirins, estilo George Clooney em “Up in the air”, em breve estarão orgulhosos de seus cartões de milhagem. Admirei a perspectiva de tê-los como cidadãos do mundo mas senti falta dos necessaires e cobertores trazidos malandramente de bordo, da dor de barriga da ansiedade, dos relatos entusiasmados de terem conhecido o comandante. Não teve mais inocência, teve profissionalismo.

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Sempre que viajo trago junto comigo um pouco da minha avó . O seu físico não deixa mais que ela faça grandes acrobacias e limita os seus deslocamentos pelo mundo. Nada disto porém, jamais foi capaz de tirar a sua grande virtude querer aprender sempre mais. Seus pensamentos e seu entusiasmo com as minhas viagens fazem com que meus olhos e minhas observações sirvam de combustível para a paixão que minha avó tem por novas descobertas. É uma sede que não diminui depois de noventa e poucos anos e que alimenta a sua vida. Me sinto orgulhoso de poder ver, aprender e vivenciar todas estas experiências que as viagens oferecem mas me sinto ainda mais inspirado a fazer tudo isto e na volta poder materializar com fotos e histórias, a viagem imaginária que minha avó está fazendo junto comigo. Ela não precisa vir para cá para saber tudo sobre os meus destinos. Geografia, política, economia…Sei que seus pensamentos lá em São Paulo estão aqui do meu lado, em cada vulcão que vejo, cada duna que escalo  ou em qualquer comida diferente que experimento. É muito bom ter encontrado uma forma de compartilhar estas experiências com ela. Sei que este é o melhor presente de aniversário que posso dar para ela.

Xu Xaine

Fim de viagem e volta ao Brasil. Estava tudo muito estranho e atípico em Cumbica: tinha vaga para o avião encostar no finger, não tinha fila para mostrar o passaporte, a mala já estava circulando pela esteira e foi chegar e passar direto pela deserta receita federal. Tudo tão rápido e eficiente que saí do aeroporto muito antes do que havia combinado com o motorista que iria me buscar. Fiquei do lado de fora esperando e aí Cumbica voltou a ser Cumbica e percebi que meu momento suiço tinha sido ilusório. Enquanto esperava, via todas as tripulações saindo em direção aos seus ônibus que os levariam aos hotéis para descansarem. No caminho todos eram abordados por meninos de rua, que gritavam e perguntavam “Xu Xaine ?”, “Xu Xaine ?”. Alguns tripulantes passavam reto e os ignoravam. Outros paravam esticavam os seus sapatos para uma sessão de “shoe shining” ou em bom português, para terem os seus sapatos engraxados. O pagamento ? Iogurtes, refrigerantes e restos de comida trazidos de bordo. Triste. Privatizamos os aeroportos, melhoraremos nossa infra estrutura mas ainda falta muito para o Brasil deixar de engraxar os sapatos dos outros.

Janelas do mundo

Sempre que viajo a trabalho por aí, tenho o hábito de abrir a cortina do quarto do hotel, tirar uma foto da vista e mandar para a minha mulher. Ela faz a mesma coisa. É a maneira que encontramos de nos aproximarmos, mostrar ao outro onde estamos, em que lugar do mundo viemos parar e emprestar os nossos olhos para quem gostaríamos que estivesse conosco. Não importa se a vista é bonita ou feia, isto não é importante para o nosso pequeno ritual.
Hoje, entrei no meu quarto de hotel em New Jersey e lá fui eu abrir a cortina e olhar pela janela. Quando puxei a cortina dei de cara com a vista da construção da nova torre do World Trade Center, do outro lado do rio. O prédio que terá 104 andares, está com 90 pisos construídos e já se destaca muito no horizonte de Nova York. Ao invés de ver o futuro, confesso que vi o passado. Mesmo depois de quase 12 anos, olhei pela janela e não vi um prédio novo subindo…Vi o antigo desabando. Não tive vontade de fotografar, não tive vontade de lembrar. Mandei uma foto tirada meio de lado, que mostra um singelo supermercado que fica na direção oposta. Menos opulência, menos pensamentos ruins, mais acolhimento, mais cara de casa.

“Luiza está no Canadá”,”Vada a bordo”. Nada a ver, tudo a ver…


Tudo começou com um comercial de um empreendimento imobiliário veiculado na Paraíba. O “ator” principal é Geraldo Rabello, uma espécie de Amaury Jr. local que foi contratado para discorrer sobre as maravilhas do Boulevard Saint Germain, um apartamento com 4 suítes, sala com 3 ambientes, varanda gourmet e grande área de lazer, perfeito para uma família da alta sociedade. Para dar ainda mais peso ao seu testemunhal, Geraldo, aparece no comercial ao lado da esposa e de dois filhos, e diz que estão todos lá para recomendar o empreendimento, menos a Luiza que está no Canadá. Pronto…Luiza uma adolescente de 17 anos que partiu para um intercâmbio em Agosto, de repente foi levada a condição de celebridade virtual, sem sequer saber o que estava acontecendo. “Menos Luiza que está no Canadá” se transformou em fenômeno brasileiro na internet, com o hashtag #LuizaEstanoCanada virando trend topic no Twitter.
Enquanto isto na Itália, o esculacho que o chefe da capitania dos Portos, Gregorio de Falco, deu no capitão Schettino, responsável por uma das maiores barbeiragens da história, também virou febre.”Vada a bordo,ca**o” explode na internet, com páginas e páginas nas redes sociais de homenagem ao comandante De Falco e o meme (ou bordão, para agradar a todos) é repetido exaustivamente.
Da Paraíba a Livorno, do fútil ao drama, tudo acaba convergindo. Muda a escala da repercussão, muda a origem do fato mas hoje tanto a “Luiza está no Canadá” como o “Vada a Bordo” dominam as conversas . Um não tem nada a ver com o outro, ambos tem tudo a ver.Uma semana atrás eles não existiam e daqui a dez dias serão passado. Luiza voltará ao Brasil, De Falco será homenageado. Ambos serão perseguidos pela mídia. Ambos sumirão. Tão diferentes, tão próximos…

De volta para o futuro

Quantas vezes estamos em um lugar e nos deparamos com nossas memórias. O passado se mistura com o presente e nosso corpo está aqui mas nossa mente está divagando, puxando lembranças que ficaram perdidas e distantes. Parece um papo meio cabeça ? Que tal ver como o site http://www.dearphotograph.com permitiu a integração destes dois universos: passado e presente reunidos através de fotos. Você faz o upload e a união de 2 fotos tiradas em épocas completamente diferentes. É a mistura de memórias afetivas com o cotidiano.Os mesmos ambientes, os mesmos elementos, anos de diferença, fotos impressas e fotos digitais. Tudo capturado em um mesmo clic. É o sinal de que embora o tempo tenha passado e deixado suas marcas, o ambiente possa ter ficado igual, as pessoas se repaginaram e se modificaram de alguma maneira. A memória ficou…o mundo em alguns casos pode parecer igual por fora mas por dentro ele está bem diferente. Nada mais alinhado com o tema dos meus 50 minutos de divã de 5f passada…

O lado pouco cor de rosa do encontro com os botos.

Confesso que tenho bastante preguiça dos eco-chatos que não usam fraldas descartáveis em seus filhos, não lavam louça com detergente e que dão a descarga uma vez ao dia para economizar a água do planeta. Para mim, o importante é se encontrar o meio do caminho entre conforto e proteção ambiental. O homem tem que ser capaz de produzir fraldas melhores que se desintegrem mais rápido, detergentes bio degradáveis e descargas inteligentes. Consciência ecológica sim, chatice e radicalismo não. O progresso deve existir para nos ajudar a conciliar os interesses…

Os botos sendo alimentados no "quintal"da casa . Um jeito sem graça de ver a natureza.


Existem algumas coisas no entanto, que me pareciam aceitáveis alguns anos atrás e que hoje me incomodam. Nesta viagem foi assim com nossa excursão para ver os botos cor de rosa, os primos dos golfinhos, que vivem nos rios da Amazônia. Os botos que vimos, seguem vivendo dentro do rio Negro mas foram condicionados por uma ribeirinha a receberem comida no mesmo lugar e na mesma hora, em uma espécie de quintal aquático na frente de sua casa, na beira do rio. É uma situação distorcida da natureza, artificial, que gera um incômodo. De um lado um animal bonito, em seu habitat, de outro alguém fazendo dinheiro as suas custas. Vi e conheci o boto mas fiquei mais chateado do que feliz. Foi um jeito cinza de encontrar o boto cor de rosa.
Animais selvagens, condicionados para entreter humanos deixaram de ter qualquer graça para mim. É bom que já existam circos sem animais e pressão sobre touradas e rodeios. Acho que quando nossos netos crescerem eles não entenderão como em um passado tão recente as pessoas se divertiam as custas dos animais.

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