Amendoim ou parafuso

Depois da epopéia da bomba do post anterior, eis que me deparo com um outro fato inusitado na viagem: greve da Lufthansa, a companhia aérea alemã. Como assim ?! Difícil imaginar a cena de aeromoças germânicas piqueteiras, batendo panelas e gritando palavras de ordem pelos terminais mas é isto que me aguarda amanhã. O motivo da greve é um impasse entre o índice de reajuste salarial desejado pelo pessoal de bordo e o oferecido pela Lufthansa. Coisa básica do capitalismo que logicamente tinha que acontecer quando me programo para sair uma semana de férias… É uma greve considerável mas na Alemanha a ordem ainda impera minimamente: o sindicato informará com seis horas de antecedência quais voos serão alvo de ação dos grevistas e possivelmente forçados a serem cancelados. Isto será divulgado em um site e por SMS para todos os passageiros impactados (espero não receber este SMS). A expectativa é que 400 voos (de um total de 1200 feitos pela empresa diariamente) não decolem. Amanhã verei o que me aguarda…mas se tiver que escolher entre greve de pessoal de bordo e dos mecânicos, ainda prefiro voar sem amendoim e barrinhas de cereal do que sem parafuso.

Explodieren

Pela manhã li que durante uma obra, havia sido  localizada uma bomba não explodida da segunda guerra mundial e isto havia gerado a evacuação de  2000 moradores durante a madrugada. Achei bizarro, aprendi que há uma estimativa de 2500 bombas dormentes só em Munique (onde estou)  e toquei minha vida… Não imaginei que a descoberta iria bagunçar tanto o meu dia. Faça uma simulação e imagine o que é entrar no metrô a caminho de volta para o seu hotel e ouvir mensagens em alemão informando que algumas estações estão fechadas em função da necessidade de detonação da senhora de 67 anos e 250 Kg .. Por mais que eu tenha me esforçado, se para os locais estava difícil, para os turistas estava impossível de decifrar o que estava se passando e como continuar.  Nordfriedhof, Giselastrasse e Kartoffelsalat são a mesma coisa nesta hora…Violando os meus princípios de macho desnorteado, fui obrigado a buscar informações…Tentei abordar um guardinha  e com ar de desamparo, mostrei no mapa o meu destino desejado.  Com uma marcante doçura germânica ele apenas me disse que  lá eu não chegaria de metrô. E ? Ele disse algo próximo de em,em,em Ihr Problem…Parti em busca de um taxi. Eu e a torcida do Bayern. Meia hora de caminhada e um taxi localizado. Não eram apenas as estações que estavam fechadas…as avenidas também. Uma hora de city tour não planejado e o bloqueio definitivo. De lá para frente apenas a pé…A beleza da história: o motorista do táxi me pediu desculpas  pela má impressão que eu poderia ter ficado da cidade. Disse que me cobraria metade do valor do taxímetro pois foi forçado a pegar uma rota mais longa e que aquele não seria o valor justo da corrida. Uma explosão de civilização para fechar o dia.

Olho no Lance

Pois é…Lance Armstrong desistiu de provar que é inocente nas denúncia de doping. Vai perder todos os seus títulos. Sua alegação é de que sempre foi um atleta limpo,fez mais de 500 exames anti-doping ao longo de sua carreira e que nunca se provou nada contra ele. Sempre foi tratado como exemplo de superação não apenas pelas suas conquistas esportivas mas sobretudo por ter conseguido tudo isto depois de um câncer heavy metal.

A agência anti-doping americana diz que as novas tecnologias permitem detectar coisas que seriam impossíveis há alguns anos. Em resumo: descongelaram o xixi do Lance de 15 anos atrás e lá se foi o mito esportivo. De quebra, subliminarmente insinuam que o seu câncer foi o resultado de anos de doping. O desfecho do caso Lance acaba de vez com a imagem do ciclismo como esporte decente. Até quando passo na ciclo faixa fico analisando para ver se alguém não tomou alguma coisinha para melhorar sua performance de final de semana, como conseguir pedalar na subida das pontes…

Imagino que agora uma série de gurus de auto-ajuda deve estar revendo os seus power points e deletando o case de história de vida de Lance Armstrong. A Nike também deve estar discretamente incinerando os seus estoques das pulseirinhas amarelas que foram praga há algum tempo. Lance seguramente ligou para o Ben Johnson e para a Marion Jones para saber como fica a vida depois do escândalo. Decepcionante…

Infinita highway

Final de semana. Você entra na estrada querendo chegar logo ao seu destino. Não importa para onde você vá, praia, campo, leste ou oeste, se o dia for de sol, estarão pelo caminho aquelas dezenas de motoqueiros. Confesso que fico bem interessado com o fenômeno. Tem a turma da Harley, em geral formada por senhores mais fortinhos e grisalhos e que não se importam com  a temperatura ambiente do nosso país tropical e vestem suas roupas de couro e capacetes em forma de tigela. Se orgulham de ostentar os brasões de seus grupos nas suas jaquetas…Angels,  Free Riders, Papa Léguas. Fantástico…Sempre fico na dúvida se eles estão passeando, estão a caminho de algum ritual sado masoquista em que o chicotinho está na caçamba ou se estão fazendo regime e o traje ajuda a transpirar e a perder peso. Em geral andam cautelosamente e se espalham por todas as pistas da estrada. Ultrapassar o grupo leva alguns minutos.

Alguns kilometros adiante você encontra a turma das motos velozes. Machos alfa,   frequentemente exibindo as suas conquistas na garupa. As presas se dividem entre abraçar fortemente os seus príncipes da velocidade ou puxar as calças para cima, tentando disfarçar o cofrinho que insiste em aparecer em função da posição desconfortável em que viajam. Também vestem roupas esquisitas mas abrem mão do preto, a tendência é usar macacões coloridos que para leigos, parecem collants desconfortáveis… Você chega perto e eles aceleram, barulhentos. Ficam brincando de pega pega entre si…um sai correndo e os outros correm atrás e pelo que entendi, os pedágios e os postos de gasolina são os piques.

Sempre pensei que uma moto fosse símbolo de independência e liberdade. Vento no rosto e andar sem destino. Andar em bando e uniformizado, para mim vai na direção oposta deste princípio. Quem sabe eu devesse experimentar o mundo de duas rodas para compreender melhor este fenômeno.

Novos ares

Quantas vezes não nos pegamos reclamando da rotina, do tédio e suplicando por novos ares. Férias e viagens tem este papel de nos oxigenar com  pequenas fugas do cotidiano. Viagens mais do que levar o corpo para outras terras, servem para levar a mente para outra dimensão. Porém, são fugazes. Nos deixam com boas lembranças e um enorme gosto de quero mais. Tentamos congelar estes momentos…Revemos as fotos, relembramos as histórias, compramos souvenirs e buscamos perpetuar as nossas experiências. Hoje vi no www.psfk.com que o fotógrafo tcheco Kirill Rudenko radicalizou na tentativa de fazer com que as pessoas se lembrem das pequenas doses de oxigênio que respiraram em suas andanças por aí. Ele acabou de lançar “ar” enlatado de algumas das principais cidades do mundo…Ar de Paris, ar de Nova York, ar de Berlim e por aí vai…Será que embalados pelo ritmo de Copa do Mundo e Olimpíadas teremos extensões de linha com latinhas brasileiras ? Poluição de São Paulo ? Queimadas da Amazônia ? Maresia do Rio de Janeiro ? Um detalhe…cada respirada do ar da sua cidade favorita custa $8 euros.

Sonhos e gramática

O português tem as suas sutilezas. Os sonhos merecem um verbo, os pesadelos não. Os sonhos nos levam para frente, são cor de rosa e não machucam, apenas energizam. Algumas vezes são tão intangíveis que fogem…Queremos, mas não conseguimos lembrá-los. Os pesadelos nos despertam e perturbam, são escuros e nos forçam a refletir. Alguns deles se repetem e viram traumas…Queremos, mas não conseguimos esquecê-los. Gostamos de sonhar e detestamos “pesadelar”. A gramática se alinhou com a nossa mente…coerente e tranquilizador.

Sala de Espera

Visita ao médico, aquele atraso de sempre… Você se senta e  vê sobre a mesa de centro suas opções de leitura:  uma edição da Veja que destaca a posse da Dilma ou a revista Exame que fala sobre o legado de Steve Jobs. Melhor é não ler nada. Você amaldiçoa o médico e tem certeza que o valor que você paga em uma consulta seria suficiente para comprar pelo menos quarenta revistas mais atualizadas. Vizinhos de espera conversam animadamente  e se vangloriam de contar histórias dramáticas sobre porque estão lá, desfilam o seu conhecimento sobre patologias (os mais avançados são aqueles que falam sobre síndromes e doenças autoimunes…), medicamentos que tomam e todos os profissionais da área pelos quais já passaram. Estabelecem uma velada competição para ver quem está pior e quem é o mais hipocondríaco. Você, apesar de seu celular não ter sinal e as suas mensagens não poderem ser respondidas, finge que está trabalhando e procura se concentrar. O tempo vai passando, você pergunta para a recepcionista se irá demorar para ser atendido. Ela simpaticamente diz que o doutor é bastante atencioso e por isto por vezes se alonga em suas consultas. No máximo em meia hora o senhor será atendido. Você sorri…claro, o sofá é tão confortável e afinal você não tem mais nada para fazer.  No  retorno sua pequena fração de sofá já está ocupada por mais um que se junta ao  pessoal da espera.

Você busca novos entretenimentos. Observa as gravuras e os móveis da sala de espera…se este homem foi capaz de fazer escolhas tão ruins em termos de decoração, será capaz de acertar o seu diagnóstico ? A dúvida te atormenta…O fato dele gostar de réplicas de estatuetas romanas deve desqualificá-lo como profissional ? Misturar máscaras balinesas com as homenagens a Júlio César significa que a receita dele também pode te levar a uma perigosa interação medicamentosa ? O chamado pelo seu nome te tira do transe. É hora de entrar e encontrar o admirador de imperadores romanos…Você entra lentamente, agora que a sua agenda do dia foi toda comprometida, não se importa em demorar bastante. É hora de fazer os outros esperarem.

Carta dourada

A Grã-Bretanha é um país fiel as suas tradições.As cabines telefônicas, os taxis londrinos, os pubs e até a rainha são alguns ícones que parecem imutáveis  ao longo de décadas e por vezes séculos. As Olimpíadas de Londres estão contribuindo para a transformação de um outro símbolo britânico que permanecia petrificado no tempo desde 1874: as caixas de correio ou para ficar mais chique “pillar boxes”. Como forma de se engajar no espírito olímpico e demonstrar o seu apoio aos atletas da casa, o UK Postal Service, decidiu homenagear os ganhadores das medalhas de ouro, pintando de dourado os “pillar boxes” mais próximos das residências dos medalhistas . Os “pillar boxes” tradicionalmente sempre foram vermelhos e nunca tinham mudado de cor em quase 150 anos.  Existem 115.000 caixas de correio espalhadas pelo Reino Unido…Por enquanto os pintores do correio não tiveram muito trabalho…apenas 11 medalhas de ouro foram conquistados e portanto 11 caixas foram pintadas mas até o final das Olimpíadas e com o início dos Jogos Paraolímpicos, os anfitriões estão otimistas em gastar bastante tinta dourada. Se a moda pega no Brasil, baseado na nossa performance até o momento, o coitado do pintor iria morrer de tédio e talvez um galão de tinta fosse suficiente…

Bonsai de ginasta

As olimpíadas continuam. Depois da tentativa de aprender os fundamentos do judô que relatei no post anterior, agora os meus olhares se voltaram para a ginástica olímpica. Não vou falar dos desagradáveis tombos da família Hypolito ou da aposentadoria da Daiane. Ontem quando liguei a televisão, tive certeza de quem estava representando o Japão era a Cecília, uma colega de escola da minha filha e que tem oito anos de idade. São ginastas miniaturas com corpo e fisionomia de crianças ! Cheias de maquiagem, pareciam que estavam brincando com o batom que pegaram escondido de suas mães. A sensação que elas passam quando dão piruetas naquela trave ou voam nas barras assimétricas é que vivem em Lilliput. Tudo aquilo parece ser super-dimensionado para elas…Os seus técnicos, quando as abraçam, parecem os gigantes do pé de feijão ! E quando as mini-atletas começam a chorar porque receberam notas baixas dos juízes ? É angustiante…eu como telespectador queria ir lá entregar um pirulito ou um sorvete para ver se elas se acalmavam. Parece exploração de trabalho infantil.

Quando você descobre a idade média delas, percebe que não são tão crianças assim…foram escolhidas para a prática do esporte justamente pelo seu biotipo. Me constrangeu um pouco… as atletas orientais parecem que  foram submetidas à técnica milenar do bonsai e se transformaram em  atletas mas em versão miniatura.
A ginástica é bonita mas a sensação de violência ao corpo é bem  desconfortável.

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