Viagem longa. A esteira começa a rodar. As malas surgem. Os passageiros retiram sua bagagem e seguem para os seu destinos. A esteira para. Permaneço olhando para o vazio, esperando que um milagre ocorra, minha mala surja e eu também possa prosseguir minha jornada. Entro em fase de negação, não é possível que justo a minha mala não apareça. Por que comigo ? Mais dois minutos de paralisia e a letargia é vencida. A mala não veio mesmo. Hora de procurar o balcão da empresa aérea. A funcionária,com aquele bom humor característico, me faz quase pedir desculpas por ter perdido minha mala e estar dando trabalho. Começa o interrogatório:
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Cadê minha mala ?
Internet nas nuvens
Viajar de avião é sempre uma grande surpresa. Quem será o passageiro que se sentará ao seu lado ? No meu caso, o meu processo de mapeamento e angústia começa na sala de embarque. Podem haver 200-300 passageiros para embarcar mas se houver uma freira, uma pessoa com obesidade mórbida ou um cidadão com visual de “Woodstock não terminou”, a estatística indica que em breve sentaremos lado a lado. É inevitável…Ontem não foi diferente e meu companheiro de fileira era uma versão reloaded do Kurt Cobain.
Para a minha alegria no entanto, fiz o meu primeiro vôo em que realmente consegui usar a internet do começo ao fim. Paguei US$ 10,00 por isto mas consegui fazer as minhas coisas e abstrair das músicas que vazavam pelo fone de ouvido do meu vizinho.
O avião tem que ter uma configuração especial , com wi-fi a bordo, mas depois você simplesmente conecta o www.gogoair.com, se cadastra e paga com cartão de crédito. Se comprar o plano ainda em terra, tem desconto (o difícil é saber se a sua aeronave terá wi-fi). Assim que o voo atinge a altitude de cruzeiro, o sinal é liberado. A velocidade de navegação é honesta , ainda mais para quem está habituado com o TIM 3G. A verdade é que o desconforto passou a ser outro…quando o Kurt viu que eu estava conectado, passou a pescoçar no que eu estava fazendo. De qualquer maneira, adorei a experiência. O dinheiro foi bem gasto, não apenas para me livrar do vizinho chato mas para me entreter e ficar conectado com o mundo.
Jogo do banquinho
Enfrentar algumas horas de trânsito com crianças no carro, requer habilidade. Na medida em que o tempo passa e o tédio chega, começam os duelos bélicos por jardas no banco traseiro. Um faz questão de invadir o espaço do outro e o descanso de braço que deveria delimitar os territórios, se mostra inútil. Sintonizar na rádio 89,1 (que não é mais a rádio rock e agora é a rádio fast, patrocinada por um iogurte) e cantar junto com eles músicas da Lady Gaga, da Kate Perry ajuda um pouco mas quando a estação começa a falhar e sai do ar, o clima no carro esquenta de vez. Como forma de manter o entretenimento a bordo, lancei mão da fórmula consagrada do programa do Raul Gil com o seu jogo do banquinho.Todos os passageiros devem dizer o que tem no supermercado com a letra A, na feira com a letra C e por aí vai… Quem erra, perde e todos cantam uma musiquinha para celebrar a eliminação. Espírito de programa de auditório. Além de manter o pessoal entretido, serve para estimular o cerébro e checar em que mundo os meus filhos estão vivendo. Ontem em uma das rodadas pedi que as crianças me dissesem o que tem na estrada com a letra P. Começaram bem, com pedágios, placas e afins…Depois de algumas rodadas, meu filho resolveu afirmar que nas estradas têm “periguetes”. Isto depois de me dizer que no shopping com a letra L , existia “lavagem cerebral”. Como guardião das regras, impugnei as duas respostas, por mais verdadeiras que elas fossem. O tempo da viagem passou mais depressa mas mostrou também que o tempo da inocência também está chegando ao fim.
Olho maior que a barriga
Durante esta semana estou em um daqueles hotéis gigantescos, com restaurantes igualmente enormes e aqueles buffets de um kilômetro. Talvez em um restaurante por kilo as pessoas fiquem um pouco mais inibidas em encher os seus pratos, temendo que a sua gula seja punida pelo seu bolso. Nestes hotéis, em que tudo está incluído, esta restrição não aparece e todos desfilam orgulhosos com seus pratos cheios de comida empilhada, que ficam parecendo miniaturas das pirâmides do Egito.
Além da torre alimentar em forma de monumento , impressionam as misturas. As pessoas iniciam sua romaria pelo buffet pela panela do arroz e vão agregando carne, peixe, frango, salada, verduras, massas e um pãozinho para completar. É verdade que a organização do buffet, linear, com uma surpresa a cada caçarola, não ajuda a composição harmônica do prato. Todos colocam um pouco de cada coisa em seus pratos instintivamente, sem grandes reflexões. Formam-se pratos que são verdadeiros mosaicos alimentares que devem gerar pesadelos em nutricionistas.
Ir andando e não se servir, por sua vez, parece gerar uma sensação de insegurança, como se todos estivessem em um campo de refugiados na Etiópia, sem acesso a alimentos e condenadas a inanição permanente. Com este temor, vários entopem os seus pratos com uma quantidade de comida capaz de alimentar um batalhão por uma semana.
No final, desta jornada gastrônomica sempre sobra comida…Para combater o desperdício, a solução deveria ser pesar o que restou no prato de cada um e cobrar pelos excessos. Simples como isto. O bolso sempre ajuda a combater os excessos do olho maior que a barriga…
Publicado em Cotidiano, Gastronômico
Fora dos trilhos
Em semana de greve de metrô e caos no trânsito sempre surgem discussões intermináveis sobre a escassez e a qualidade dos transportes públicos no Brasil. Tudo parece estar fora dos trilhos…as linhas de metrô não atingem um nível de cobertura minimamente aceitável, servindo apenas um pedacinho de São Paulo. Quando parece que o metrô irá crescer, uma hora aparece um buraco sugador de carros, depois um superfaturamentozinho que embarga as obras e aí surge a gente diferenciada, que se une e prefere se manter dependente dos carros. Estamos algumas décadas atrasados neste assunto…Não sei se na minha encarnação serei capaz de conseguir chegar de metrô até o aeroporto de Guarulhos…quem sabe os meus netos…Não precisava nem ir de trem bala…me contentaria com um trem estilingue ou uma maria-fumaça, mas até isto está difícil.
Enquanto isto, como estímulo para aguardar o tempo passar, vale a pena ver este flash mob no metrô em Copenhagen…Violinos,flautas…Ficaria feliz se tivéssemos algo parecido por aqui, desde que começássemos pelos trilhos e vagões…o ritmo dos músicos deixamos para discutir daqui uns 40 anos (até lá, quem sabe o sertanejo universitário tenha desaparecido). Será uma longa viagem até o futuro…
Publicado em Cotidiano
Lenço branco
Estava dirigindo, trânsito engarrafado, motoboys barbarizando e de repente vejo surgir na janela do ônibus ao meu lado, a mãozinha do cobrador, me informando que eu seria gentilmente fechado pelo nobre coletivo. O gesto era suave, um leve balançar de mão direita, como se estivesse de posse de um lenço branco em uma cerimônia de despedida. Fiquei pensando se aquilo não era uma alucinação. Estamos em 2012 , todos os veículos são dotados de pisca pisca, ninguém mais paga passagem de ônibus em dinheiro e ainda se o fizesse, poderia fazê-lo diretamente ao motorista. O fato é que os cobradores sobrevivem. Se reinventam…ajudam pouco na cobrança de passagens mas se transformaram em uma espécie de co-pilotos ou navegadores dos motoristas de ônibus . É uma tripulação a bordo ! Devo estar subestimando as outras virtudes dos distintos cobradores …de repente, se os passageiros não gostarem das habilidades do motorista ou se o condutor tiver algum contratempo, um mal súbito, convoca-se imediatamente o cobrador para asumir o volante . Ou pode ser que esta seja a estratégia de Recursos Humanos das companhias de ônibus, treinamento on the job para sucessão de motoristas…um back up plan imediato, um banco de reservas compostode cobradores. Sei lá, sei que se algum dia a minha profissão também ficar ameaçada de extinção, gostaria de ter a mesma capacidade de sobrevivência e reinvenção dos cobradores. Vou começar a treinar acenos pela janela desde já.
Publicado em Cotidiano
Energia acumulada
Feriado: dias de chuva interminável na fazenda e oito crianças entre 8 e 10 anos para administrar. O dilúvio determina o ritmo das atividades : não tem cavalgada, não tem piscina, não tem jogo de bola. A situação de tédio não é nada diferente do que eu cansei de vivenciar na minha infância.
Me preparei para o desafio e desenhei o plano anti-aborrecimento : retomei mentalmente regras de jogos de cartas, as estratégias de partidas de WAR (Alaska ataca Vladivostok) ou Banco Imobiliário (comprar rápido a Avenida Atlântica), lembrei da TV Globo com “Sessão da tarde” e seus clássicos como Flipper ou Digby ( “O maior cão do mundo”), e relembrei brincadeiras de Esconde Esconde, Gato Mia e até pensei na de médico, que rapidamente achei mais prudente esquecer . Me julgava um “tio” capacitado para enfrentar a monotonia, com um arsenal de entretenimento que garantiu a minha sobrevivência por vários anos. 
Depois de 3 dias e vários mm de chuva, frustração absoluta: todas as propostas foram veementemente rejeitadas de maneira unânime … Estamos em 2012: 8 crianças, 8 Ipads. 8 soluções independentes e solitárias. Brigas agora são causadas pela posse dos carregadores para assegurar que nenhum equipamento descarregue e que os jogos virtuais não sejam interrompidos…
Ninguém é acusado de roubar, de mentir, de ter inventado regras. Os tablets não roubam e não mentem. As regras são soberanas. Ao invés de temer pela “morte de tédio” das crianças, meu receio passou a ser que algum equipamento super aquecesse e explodisse no seu colo por excesso de uso. Continuou chovendo e fiquei com a certeza que apesar de seus IPads haverem descarregado, a energia dos oito permaneceu acumulada. Novos tempos, novas fórmulas.

















