Sorvete Napolitano

Durante um almoço em família  me reencontrei com um clássico da minha infância, o sorvete napolitano. Para quem não sabe, o sorvete napolitano vem em um pote, daqueles de 2 litros, com três sabores: creme, chocolate e morango. A dinâmica de consumo parece que  se manteve intacta nos últimos trinta anos….todas as crianças continuam se servindo gulosamente dos sabores creme e chocolate e o sorvete de morango sobrando, abandonado como um patinho feio do mundo dos gelados.

Como adulto consciente, preocupado com o desequilíbrio social e vendo o preconceito imperar naquela mesa, resolvi intervir. Sorrateiramente, enquanto distraía as crianças, passei a colocar nas suas taças, uma bolinha de sorvete de morango, camuflada, cercada por sorvete de creme e chocolate. Acreditava que estaria contribuindo com o bem estar da sociedade ao agir, ainda que veladamente, a favor da diversidade. Rapidamente porém, o meu plano de dar vazão ao estoque de morango e desacelerar o consumo dos outros sabores, se mostrou infrutífero. As crianças identificaram a trapaça e rejeitaram ainda mais o coitado do sorvete de morango. Por alguns instantes procurei ser solidário ao sabor morango…ele deve se sentir mais ou menos como a irmã da Gisele Bunchen. Todos dizem que é parte da família, que o Napolitano não existiria sem ele, mas na hora do vamos ver, as preferências aparecem e o coitado vai pouco a pouco se derretendo, envergonhado e abandonado, com uma baixíssima auto-estima. Para recuperá-lo estou pensando em expor os meus filhos a um pote de sorvete de Passas ao Rum…aí sim, eles verão que a discriminação contra o sorvete de morango é descabida e que existe coisa bem pior no mundo.

Desculpa não esfarrapada

Greve de metrô, pneu furado, consulta médica, morte na família….As desculpas para faltar ao trabalho embora sejam sempre parecidas, são infinitas. Um menino de 5 anos nos Estados Unidos, resolveu inovar e justificar a sua falta na escola alegando que estava em um compromisso com Barak Obama. Para que não restassem dúvidas, ele exibiu um cartão assinado pelo próprio presidente dos EUA, pedindo para o professor ser tolerante com o caso e justificando que de fato, Tyller Sullivan estava com ele. Tudo verdade: no dia anterior, Tyller foi a fábrica onde seu pai trabalha e que recebeu a visita de Obama, que ao ser apresentado ao menino, se prontificou a assinar o bilhete.  O professor, mesmo que seja republicano, não poderá dizer que a desculpa foi esfarrapada…

Jogo do banquinho

Enfrentar algumas horas de trânsito com crianças no carro, requer habilidade. Na medida em que o tempo passa e o tédio chega, começam os duelos bélicos por jardas no banco traseiro. Um faz questão de invadir o espaço do outro e o descanso de braço que deveria delimitar os territórios, se mostra inútil. Sintonizar na rádio 89,1 (que não é mais a rádio rock e agora é a rádio fast, patrocinada por um iogurte) e cantar junto com eles músicas da Lady Gaga, da Kate Perry ajuda um pouco mas quando a estação começa a falhar e sai do ar, o clima no carro esquenta de vez. Como forma de manter o entretenimento a bordo, lancei mão da fórmula consagrada do programa do Raul Gil com o seu jogo do banquinho.Todos os passageiros devem  dizer o que tem no supermercado com a letra A, na feira com a letra C e por aí vai… Quem erra, perde e todos cantam uma musiquinha para celebrar a eliminação. Espírito de programa de auditório. Além de manter o pessoal entretido, serve para estimular o cerébro e checar em que mundo os meus filhos estão vivendo. Ontem em uma das rodadas pedi que as crianças me dissesem o que tem na estrada com a letra P. Começaram bem, com pedágios, placas e afins…Depois de algumas rodadas, meu filho resolveu afirmar que nas estradas têm “periguetes”. Isto depois de me dizer que no shopping com a letra L , existia “lavagem cerebral”. Como guardião das regras, impugnei as duas respostas, por mais verdadeiras que elas fossem. O tempo da viagem passou mais depressa mas mostrou também que o tempo da inocência também está chegando ao fim. 

Crocs Rocks

Descobri que uma das piores invenções da sociedade contemporânea está completando dez anos: os calçados Crocs.  Quando pensei que os crocodilos já estavam condenados a extinção, me dou conta de que estão mais vivos do que nunca e pior do que isto: comemorando ! A Crocs,que um dia foi uma empresa de um calçado apenas, hoje tem uma linha com mais de 300 produtos, para todas as épocas do ano e um faturamento superior a US$ 1 bi . Criou até o site crocsaroundtheworld.com para que os aficcionados possam narrar as suas experiências com a marca e celebrar a data.

Tenho certeza que daqui alguns anos, qualquer criança que olhar as suas fotos  da infância e constatar que os pais a obrigavam a usar Crocs ,terá uma reação de revolta parecida com a minha quando vejo as minhas imagens do passado, vestindo macacão de frentista de posto Shell e cabelo tigela, como se eu fosse uma versão miniatura dos Beatles.  É terapia na certa…

Para os adultos que um dia tomaram a decisão consciente, sem estarem sob o efeito de nenhuma droga ilícita, de comprar um par de Crocs para uso próprio, o flagelo será ainda maior. Se adquiriram Crocs forradas de pele de carneiro e colocaram pins…punição dupla e nem duas sessões de análise por semana ajudarão a livrá-los do trauma por  terem cometido um atentado contra a estética universal. 

Os argumentos de que Crocs são confortáveis e práticas não bastarão e um dia todos serão condenados aos mesmos pesadelos eternos que acometem aqueles que tem que ver suas fotos do passado com  mullets nos cabelos, vestindo blazer com ombreira, calças baggy ou calçando tênis xadrez. Um dia o bom senso vencerá e pelo bem da humanidade espero que as Crocs não comemorem muitas décadas de vida…

Olho maior que a barriga

Durante esta semana estou em um daqueles hotéis gigantescos, com restaurantes igualmente enormes e aqueles buffets de um kilômetro.  Talvez em um restaurante por kilo as pessoas fiquem um pouco mais inibidas em encher os seus pratos, temendo que a sua gula seja punida pelo seu bolso. Nestes hotéis, em que tudo está incluído, esta restrição não aparece e todos  desfilam orgulhosos com seus pratos cheios de comida empilhada, que ficam parecendo miniaturas das pirâmides do Egito.

Além da torre alimentar em forma de monumento , impressionam as misturas.  As pessoas iniciam sua romaria pelo buffet pela panela do arroz e vão agregando carne, peixe, frango, salada, verduras, massas e um pãozinho para completar. É verdade que a organização do buffet, linear, com uma surpresa a cada caçarola, não ajuda a composição harmônica do prato. Todos colocam um pouco de cada coisa em seus pratos instintivamente, sem grandes reflexões.  Formam-se pratos que são verdadeiros mosaicos alimentares  que devem gerar pesadelos em nutricionistas.

Ir andando e não se servir,  por sua vez,  parece gerar uma sensação de insegurança, como se todos estivessem  em um campo de refugiados na Etiópia, sem acesso a alimentos e condenadas a inanição permanente.  Com este temor, vários entopem os seus pratos com uma quantidade de comida capaz de alimentar um batalhão por uma semana.

No final, desta jornada gastrônomica sempre sobra comida…Para combater o desperdício, a solução deveria ser  pesar o que restou no prato de cada um e cobrar pelos excessos.  Simples como isto. O bolso sempre ajuda a combater os excessos do olho maior que a barriga…

Fora dos trilhos

Em semana de greve de metrô e caos no trânsito sempre surgem discussões intermináveis sobre a escassez e a qualidade dos transportes públicos no Brasil.  Tudo parece estar fora dos trilhos…as linhas de metrô não atingem um nível de cobertura minimamente aceitável, servindo apenas um pedacinho de  São Paulo. Quando parece que o metrô irá crescer, uma hora aparece um buraco sugador de carros, depois um superfaturamentozinho que embarga as obras e aí surge a gente diferenciada, que se une e prefere se manter dependente dos carros. Estamos algumas décadas atrasados neste assunto…Não sei se na minha encarnação serei capaz de conseguir chegar de metrô até o aeroporto de Guarulhos…quem sabe os meus netos…Não precisava nem ir de trem bala…me contentaria com um trem estilingue ou uma  maria-fumaça, mas até isto está difícil.

Enquanto isto, como estímulo para aguardar o tempo passar, vale a pena ver este flash mob no metrô em Copenhagen…Violinos,flautas…Ficaria feliz se tivéssemos algo parecido por aqui, desde que começássemos  pelos trilhos e vagões…o ritmo dos músicos deixamos para discutir daqui uns 40 anos (até lá, quem sabe o sertanejo universitário tenha desaparecido).  Será uma longa viagem até o futuro…

Salsinha e coentro

Esta semana tive que entrevistar diversas pessoas para uma série de posições diferentes. Candidatos de perfis distintos, com competências e experiências variadas  e alguns com virtudes e defeitos bastante claros. Há um grupo de pessoas no entanto, que me intriga por se  encaixar em um perfil complexo: os medianos. São aquelas pessoas que se destacam por não se destacarem em absolutamente nada. Tem um perfil morno, sabor de chuchu e com isto não geram nem paixão nem tampouco grandes antipatias.  Falam corretamente o que os entrevistadores querem ouvir,  não derrapam, tem  experiência profissional mas não se posicionam e não conseguem brilhar em absolutamente nada.  São médios em tudo e vão sobrevivendo em função das rejeições que os demais candidatos causam ao longo do processo.

Para quem não é muito acostumado com o mundo corporativo, diria que estas pessoas são mais ou menos como a salsinha que se coloca para decorar o prato…não muda o gosto da comida, não agrega nada mas ninguém se incomoda e ela vai ficando…é muito diferente de um coentro por exemplo…capaz de gerar repulsas e paixões em função de sua personalidade. O pior é que os candidatos salsinha quando competem com um candidato coentro, daqueles que provocam indigestão na área de recursos humanos, tem grandes chances de vencer os processos, mesmo com uma personalidade sem graça, bege, da cor das divisórias. Se depender de mim, entrarão em extinção…hoje consegui erradicar uns dois salsinhas que estavam caminhando para a glória . O mundo corporativo precisa de mais personalidade, cor e de tempero…chega de salsinhas, chega de bege.

Papo cabeça

Em alguns eventos sociais nos últimos dias tenho identificado a proliferação de pessoas que adorariam ser classificadas como intelectuais. Querem fazer isto transformando qualquer conversa mundana em um papo cabeça…Você quer conversar sobre o Chelsea, campeão da Champions League, e quando vai ver o papo já derivou para o papel do futebol como elemento manipulador das massas. O assunto é cinema ? Alguém fala sobre “Os Vingadores” e  a pessoa resolve discorrer sobre o filme paquistanês em exibição no Cine Sesc. Falar sobre livros ? Nem pensar…O cidadão tentará te humilhar dizendo que na visão dele o jovem escritor etíope é barbada para o Prêmio Nobel de Literatura daqui a 2 anos (avalia que o etíope em questão ainda não atingiu o apogeu de sua maturidade criativa para merecer o prêmio em 2012). A postura é cheia de prepotência, querendo reforçar que existem os intelectuais como ele, membros de uma casta superior e os plebeus, simples mortais (no caso, você ). Realmente existem pessoas com o intelecto privilegiado  mas a minha estatística (viciada, é verdade) mostra que os verdadeiros intelectuais são aqueles que menos querem divagar em papos cabeça, ou melhor: sabem a hora e o local certo para fazerem isto. São diferenciados não apenas por verem filmes , lerem livros e ouvirem músicas que a grande massa não lê (isto é fácil !) , mas sobretudo porque conseguem transmitir o seu conhecimento e sua cultura de uma maneira acessível e simples, gerando reflexão e admiração. Hans Rosling é um estatístico sueco que consegue fazer isto…em 50 segundos, no meio da rua, apenas com palavras e com algumas pedrinhas .

Lenço branco

Estava dirigindo, trânsito engarrafado, motoboys barbarizando e de repente vejo surgir na janela do ônibus ao meu lado, a mãozinha do cobrador, me informando que eu seria gentilmente fechado pelo nobre coletivo. O gesto era suave, um leve balançar de mão direita, como se estivesse de posse de um lenço branco em uma cerimônia de despedida. Fiquei pensando se aquilo não era uma alucinação. Estamos em 2012 , todos os veículos  são dotados de pisca pisca, ninguém mais paga passagem de ônibus em dinheiro e ainda se o fizesse, poderia fazê-lo diretamente ao motorista. O fato é que os cobradores sobrevivem. Se reinventam…ajudam pouco na cobrança de passagens mas se transformaram em uma espécie de co-pilotos ou navegadores dos motoristas de ônibus . É uma tripulação a bordo ! Devo estar subestimando as outras virtudes dos distintos cobradores …de repente, se os passageiros não gostarem das habilidades do motorista ou se o condutor tiver algum contratempo, um mal súbito, convoca-se imediatamente o cobrador para asumir o volante . Ou pode ser que  esta seja a estratégia de Recursos Humanos das companhias de ônibus, treinamento on the job para sucessão de motoristas…um back up plan imediato, um banco de reservas  compostode cobradores. Sei lá, sei que se algum dia a minha profissão também ficar ameaçada de extinção, gostaria de ter a mesma capacidade de sobrevivência e reinvenção dos cobradores. Vou começar a treinar acenos pela janela desde já.

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