Sol na laje

As experiências de praia sem a existência de uma praia propriamente dita prosseguiram nos nossos últimos dias em Dubrovnik, na Croácia. Desta vez, em nosso hotel tivemos uma legítima sensação de como é tomar sol na laje. O rochedo abaixo do hotel, foi todo cimentado, criando pequenos platôs, onde espreguiçadeiras são colocadas…Quer sentar na primeira fila, mais próximo do mar ? Reservas na recepção e pagamento de 25 euros por cadeira. Nos contentamos em ficar um pouco mais longe da água, afinal por 25 euros Iemanjá em pessoa deveria vir nos receber…

Fiquei pensando como conseguiram bater lajes e descaracterizar  o paredão de pedras sem serem destruídos por ecologistas…Enfim…lá estávamos nós, como lagartos tropicais em cimentão croata….Para a experiência ficar plena, tivemos a companhia de poleiro de um grupo animado de brasileiros. Abordaram o garçom e pediram ” very much beer with very much ice in the bucket”. Apesar do dialeto, conseguiram se comunicar, receber um baldinho cheio de cervejinhas  e beber felizes e animados. Não precisaram nem do pagodinho ou do little mimi barbecue para completar a dominação absoluta….Falando alto e virando uma cerveja atrás da outra, o território era brazuca. Aha, uhu, a laje é nossa….era sinal que estava chegando a hora de voltar para casa.

Passado próximo

A ponte de Mostar,Bósnia

As fronteiras com os vizinhos da Croácia são bem próximas e resolvemos nos aventurar pelas terras da Bósnia e Herzegovina para conhecer Mostar. Mostar é reconhecida como um patrimônio da humanidade pela Unesco e é conhecida pelo seu centro histórico e por  sua ponte do século XVI.  Na verdade, a ponte original era do século XVI, a ponte atual tem menos de dez anos e foi reconstruída após a destruição da original em 1993, durante a guerra da Bósnia.

Paredes furadas por balas ainda estão por todos os lados

Entrar em contato com as marcas de uma guerra tão recente é perturbador e constrangedor. Como assim um bombardeio no meio da Europa em 1993 ?  Eu já estava formado e trabalhando…Claro que eu já tinha ouvido falar na guerra da Bósnia mas quando você observa de perto que o pau comeu tão próximo de vizinhos tão poderosos e sem maiores interferências, dá uma certa vergonha da humanidade. Fora a ponte nova, você ainda encontra ruínas de várias casas derrubadas e diversas paredes furadas de balas…

Hoje em dia os turistas estão por todas as partes e se você quiser  pode se concentrar apenas em tirar as suas fotos, comprar ímãs de geladeiras com a imagem da ponte e contribuir com algumas moedas para que um nativo dê um salto acrobático no rio mas a verdade é que mais do que um day trip, foi uma viagem a um passado muito próximo e muito feio.

 

Hvar: Um pouco de Ilhabela, Angra e Maresias

A nossa temporada de praia continuou e nos últimos dias fomos para Hvar, a maior das ilhas da Croácia. 2 horas de ferry boat saindo de Split e mudamos de paisagem. Hvar é uma mistura de Ilhabela, Angra e Maresias. O lado Ilhabela aparece na quantidade enorme de veleiros de todos tamanhos e nacionalidades que circulam por aqui estimulados por um vento que sopra bem forte (não encontramos borrachudos para ficar ainda mais parecido). Já o lado Angra se manifesta na vida nas diversas ilhas próximas e no vai e vem de gente em barcos de todos os tamanhos. Já a faceta Maresias (a referência pode estar desatualizada pois baladas não fazem mais parte do meu repertório…) faz de Hvar um grande centro de badalação em que algumas das ilhas próximas são transformadas em raves, com festas rolando o dia inteiro. Há uma vida em terra firme e outra a bordo dos barcos.

No meio de todos estes mundos e em função de nossa idade , o nosso cotidiano foi mais ou menos fácil de estabelecer. Acordávamos e pegávamos uma taxi boat (nome sofisticado para barquinho lotação) para alguma das ilhotas. As ilhas são bonitas porém áridas, com pouca vegetação e muitas pedras. As praias são pequenas baías, com águas transparentes e logicamente,  pedras para todos os lados. Deitar no chão é um exercício de tortura chinesa e você acaba alugando uma cadeira. Mais do que topless, o nudismo é bastante tolerado e  praticado por senhores e senhoras que já perderam qualquer pudor de exibir os seus corpos. Você sai para dar uma caminhada até a ponta da prainha e lá está o senhorzinho, nú, com o bimbo “esturricando” nas pedras. Decidi poupar os demais turistas de praticar o nudismo, do contrário, a Europa nunca mais seria a mesma.

No meio do caminho tinham umas pedras

Depois da tempestade vieram o sol e o calor. Dia perfeito para conhecermos Trogir e Split, cidades próximas e parecidas entre si. Split é maior e tem maior relevância histórica. Lá ficam as ruínas do palácio onde viveu Diocleciano, imperador romano que nasceu e morreu na Dalmácia por volta dos anos 300. Ambas são muradas e recortadas por vielinhas estreitas e charmosas com dezenas de cafés e restaurantes.Do lado de fora dos muros em compensação, a arquitetura deixa de ter inspiração e charme romano e ganha a delicadeza e beleza dos grandes conjuntos habitacionais de legítimo padrão soviético. Muito feio..

É final de verão e ainda está escurecendo quase as 8 pm. e para aproveitar o dia ao máximo, depois do passeio, nos aventuramos em nosso primeiro banho no mar Adriático. A sensação foi bem esquisita…Não pela água, que tinha temperatura gostosa e era verdinha e cristalina mas deitar em uma espreguiçadeira em uma praia de cascalho é no mínimo estranho. As pedrinhas parecem material de construção e a praia dá a impressão de estar em obras…Você tem certeza que o próximo passo será asfaltá-la. Caminhar de seu lugar até o mar se transforma em algo próximo a um pagamento de promessa ou castigo por mau comportamento. Quem diria que eu teria que reconhecer que a areia, tão amaldiçoada quando gruda em lugares esquecidos do corpo, faz bastante falta…

Lagos,cachoeiras e muita chuva

Conseguimos chegar na Croácia sem problemas. As aeromoças piqueteiras da Lufthansa decidiram atrapalhar apenas os passageiros de Frankfurt, o que não era o nosso caso. Um reconhecimento rápido e uma noite em Zagreb e partimos para os 140 Km até o parque Nacional de Plitvice, patrimônio da Unesco, com dezenas de cachoeiras e lagos com água azul turquesa. Demorou quase tanto tempo para chegar ao parque quanto para achá-lo no GPS, afinal Plitvička-jezera, que depois descobrimos ser o que deveríamos inserir no equipamento, não se escreve  exatamente igual a Plitvice, como os guias de viagem se referem ao lugar… Esqueça pontos de interesse, buscas recentes ou coisas assim…A versão de GPS croata que recebemos é movida pelo endereço e nada mais.

O lugar é muito bonito, permite que você caminhe por  horas, vendo paisagens incríveis em um intensivão de contato com a natureza. O nosso único problema é que chovia tanto que estava difícil diferenciar a cachoeira que despencava das nuvens das cachoeiras originais, que aparecem nos cartões postais do parque. O nosso figurino summer, prontos para o verão europeu, também não combinava muito com a temperatura de 12 graus que encontramos no parque. Acabamos o dia com os nossos tênis com um mais ou menos um litro de água em cada pé, como se fossem réplicas em miniatura dos lagos que visitamos. Encharcados mas felizes, dirigimos nossa arca por mais três horas de dilúvio até chegarmos a Split. Detalhe: fazia quatro meses que não chovia na Croácia…

Amendoim ou parafuso

Depois da epopéia da bomba do post anterior, eis que me deparo com um outro fato inusitado na viagem: greve da Lufthansa, a companhia aérea alemã. Como assim ?! Difícil imaginar a cena de aeromoças germânicas piqueteiras, batendo panelas e gritando palavras de ordem pelos terminais mas é isto que me aguarda amanhã. O motivo da greve é um impasse entre o índice de reajuste salarial desejado pelo pessoal de bordo e o oferecido pela Lufthansa. Coisa básica do capitalismo que logicamente tinha que acontecer quando me programo para sair uma semana de férias… É uma greve considerável mas na Alemanha a ordem ainda impera minimamente: o sindicato informará com seis horas de antecedência quais voos serão alvo de ação dos grevistas e possivelmente forçados a serem cancelados. Isto será divulgado em um site e por SMS para todos os passageiros impactados (espero não receber este SMS). A expectativa é que 400 voos (de um total de 1200 feitos pela empresa diariamente) não decolem. Amanhã verei o que me aguarda…mas se tiver que escolher entre greve de pessoal de bordo e dos mecânicos, ainda prefiro voar sem amendoim e barrinhas de cereal do que sem parafuso.

Explodieren

Pela manhã li que durante uma obra, havia sido  localizada uma bomba não explodida da segunda guerra mundial e isto havia gerado a evacuação de  2000 moradores durante a madrugada. Achei bizarro, aprendi que há uma estimativa de 2500 bombas dormentes só em Munique (onde estou)  e toquei minha vida… Não imaginei que a descoberta iria bagunçar tanto o meu dia. Faça uma simulação e imagine o que é entrar no metrô a caminho de volta para o seu hotel e ouvir mensagens em alemão informando que algumas estações estão fechadas em função da necessidade de detonação da senhora de 67 anos e 250 Kg .. Por mais que eu tenha me esforçado, se para os locais estava difícil, para os turistas estava impossível de decifrar o que estava se passando e como continuar.  Nordfriedhof, Giselastrasse e Kartoffelsalat são a mesma coisa nesta hora…Violando os meus princípios de macho desnorteado, fui obrigado a buscar informações…Tentei abordar um guardinha  e com ar de desamparo, mostrei no mapa o meu destino desejado.  Com uma marcante doçura germânica ele apenas me disse que  lá eu não chegaria de metrô. E ? Ele disse algo próximo de em,em,em Ihr Problem…Parti em busca de um taxi. Eu e a torcida do Bayern. Meia hora de caminhada e um taxi localizado. Não eram apenas as estações que estavam fechadas…as avenidas também. Uma hora de city tour não planejado e o bloqueio definitivo. De lá para frente apenas a pé…A beleza da história: o motorista do táxi me pediu desculpas  pela má impressão que eu poderia ter ficado da cidade. Disse que me cobraria metade do valor do taxímetro pois foi forçado a pegar uma rota mais longa e que aquele não seria o valor justo da corrida. Uma explosão de civilização para fechar o dia.

Olho no Lance

Pois é…Lance Armstrong desistiu de provar que é inocente nas denúncia de doping. Vai perder todos os seus títulos. Sua alegação é de que sempre foi um atleta limpo,fez mais de 500 exames anti-doping ao longo de sua carreira e que nunca se provou nada contra ele. Sempre foi tratado como exemplo de superação não apenas pelas suas conquistas esportivas mas sobretudo por ter conseguido tudo isto depois de um câncer heavy metal.

A agência anti-doping americana diz que as novas tecnologias permitem detectar coisas que seriam impossíveis há alguns anos. Em resumo: descongelaram o xixi do Lance de 15 anos atrás e lá se foi o mito esportivo. De quebra, subliminarmente insinuam que o seu câncer foi o resultado de anos de doping. O desfecho do caso Lance acaba de vez com a imagem do ciclismo como esporte decente. Até quando passo na ciclo faixa fico analisando para ver se alguém não tomou alguma coisinha para melhorar sua performance de final de semana, como conseguir pedalar na subida das pontes…

Imagino que agora uma série de gurus de auto-ajuda deve estar revendo os seus power points e deletando o case de história de vida de Lance Armstrong. A Nike também deve estar discretamente incinerando os seus estoques das pulseirinhas amarelas que foram praga há algum tempo. Lance seguramente ligou para o Ben Johnson e para a Marion Jones para saber como fica a vida depois do escândalo. Decepcionante…

Infinita highway

Final de semana. Você entra na estrada querendo chegar logo ao seu destino. Não importa para onde você vá, praia, campo, leste ou oeste, se o dia for de sol, estarão pelo caminho aquelas dezenas de motoqueiros. Confesso que fico bem interessado com o fenômeno. Tem a turma da Harley, em geral formada por senhores mais fortinhos e grisalhos e que não se importam com  a temperatura ambiente do nosso país tropical e vestem suas roupas de couro e capacetes em forma de tigela. Se orgulham de ostentar os brasões de seus grupos nas suas jaquetas…Angels,  Free Riders, Papa Léguas. Fantástico…Sempre fico na dúvida se eles estão passeando, estão a caminho de algum ritual sado masoquista em que o chicotinho está na caçamba ou se estão fazendo regime e o traje ajuda a transpirar e a perder peso. Em geral andam cautelosamente e se espalham por todas as pistas da estrada. Ultrapassar o grupo leva alguns minutos.

Alguns kilometros adiante você encontra a turma das motos velozes. Machos alfa,   frequentemente exibindo as suas conquistas na garupa. As presas se dividem entre abraçar fortemente os seus príncipes da velocidade ou puxar as calças para cima, tentando disfarçar o cofrinho que insiste em aparecer em função da posição desconfortável em que viajam. Também vestem roupas esquisitas mas abrem mão do preto, a tendência é usar macacões coloridos que para leigos, parecem collants desconfortáveis… Você chega perto e eles aceleram, barulhentos. Ficam brincando de pega pega entre si…um sai correndo e os outros correm atrás e pelo que entendi, os pedágios e os postos de gasolina são os piques.

Sempre pensei que uma moto fosse símbolo de independência e liberdade. Vento no rosto e andar sem destino. Andar em bando e uniformizado, para mim vai na direção oposta deste princípio. Quem sabe eu devesse experimentar o mundo de duas rodas para compreender melhor este fenômeno.

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