Sintam-se em casa

92C9E03758C5443BA36755D70F936A08Todo mundo já leu sobre as defesas do Cássio, sobre o gol do Guerrero, sobre a multidão que se encontrava em cada esquina do Japão com o mesmo mantra de “Vai Corinthians”…Antes e depois do jogo, o Facebook foi inundado com comentários eufóricos dos “prós”, com os comentários depreciativos dos “contra”, como sempre ocorre quando há a rivalidade. A rivalidade estimula, provoca, machuca e diverte.Fiquei pensando que historicamente os rivais do Corinthians pejorativamente sempre disseram se tratar de um time sem expressão internacional, que só vencia quando jogava em casa, que faltava passaporte…Ao assistir aos dois jogos aqui no Japão, fui obrigado a concordar com eles, afinal ganhamos jogando em casa !  É verdade que o time de azul não era o Cruzeiro nem o São Caetano, que a estação do Metrô não era a Clínicas, que a PM não se vestia de cinza e tinha olho puxado, que a venda de cerveja no estádio era permitida e que no lugar do pernil tinha sushi.  Estava um pouco mais frio que o habitual, talvez uma massa de ar polar vinda da Argentina, o que forçava alguns torcedores a vestirem gorros e cachecóis, mas tudo continuava preto e branco. A Gaviões estava lá, era proibido gritar gol antes da hora, ninguém assistiu o jogo sentado…Estas são as regras da nossa casa.

Como sempre acontece com os anfitriões, disseram para que os convidados se sentissem em casa. Fizemos isto. Abrimos a geladeira e  fizemos xixi de porta aberta. A casa foi nossa como nunca tinha sido. Acho que os nossos rivais ficaram ainda mais convictos de nossa fama, o que eles aprenderam de vez é que a dimensão da nossa casa não é a que eles imaginavam. Somos latifundiários, prontos para seguir conquistando. Não falamos do vizinho, do bairro, da cidade ou do país. Falamos do mundo e por isto seremos sempre um time caseiro. Jogamos em casa em qualquer lugar, no Pacaembu, em La Bombonera, no Itaquerão ou em Yokohama. Pensem se querem mesmo nos convidar…Nós acabaremos sendo os donos da casa.

O início da epopéia

Chegar ao aeroporto e ter a convicção que você está no estádio gera uma sensação de alucinação, como se você estivesse imaginando coisas…. Em todos os guichês de check in, independentemente do destino: Londres, Cingapura e Paris, a cena se repetia…Passageiros vestidos de preto e branco por todos os lados. A passagem pela polícia federal lembrava a entrada do Pacaembu, onde se respeitar filas não é um hábito muito consolidado. Na minha rota, via Londres, todos os meus vizinhos de voo estavam uniformizados criando uma cumplicidade diferente a bordo. Viajavam contidos…nada de gritos de guerra ou batucadas.Todos calmos e comportados, guardando energia para a sua longa jornada.

Falar inglês não parecia ser a principal virtude da maioria e depois de interceder para ajudar um comissário que obtinha “Coke” como resposta a sua oferta de English Newspapers, fui informalmente nomeado por ele como seu ajudante na vizinhança. Ele me perguntou incrédulo se era verdade que todos ali viajavam para o Japão e quanto tempo duraria o tal campeonato. Quando respondi que eram dois jogos, vi surgir aquele leve sorriso irônico britânico e ele me disse: espero que seu time ganhe, senão o voo de volta será um pouco longo…A simpatia só foi retomada na chegada a Londres, quando o comissário, depois de agradecer a todos pela preferência e lembrar para não esquecer os pertences de mão, desejou boa sorte aos corinthianos. Aí não teve jeito…o avião virou arquibancada.

Algumas horas de espera, tempo para visitar a rainha e felicitar a Kate pela gravidez. Mais 12 horas , atualização completa dos filmes e cheguei ao Japão. A viagem está começando !

 

Temporada Japonesa

Hoje começa a temporada japonesa do Blog. Ver o Corinthians jogar era o pretexto perfeito para eu me aventurar pelo oriente. Umas 10.000 pessoas tiveram a mesma idéia. Mais do que uma viagem de turismo, esta experiência tem tudo para ser uma grande experiência antropológica. Haverá a cultura local, os templos, os samurais, as gueixas, a modernidade, o respeito, a disciplina e tudo isto se encontrando com um bando capaz de cruzar o mundo para ver seu time jogar . Ganhar ou perder será o menos importante, o mais divertido será testemunhar este encontro. O Japão jamais esquecerá estes dias e eu tenho certeza que não faltarão histórias para contar.


Caiu de maduro

E o Palmeiras caiu…Ou melhor, acabou de cair de maduro porque nem o mais otimista dos matemáticos ainda via salvação. De verdade, eu não sei porque tanto drama. Jogar a segunda divisão é ótimo para recuperar a auto-estima. Depois do trauma do rebaixamento vem um período de glórias…É como sofrer com o fim de um namoro e cair na vida na semana seguinte. Você não vai em busca de grandes conquistas…se satisfaz com a quantidade e adota a filosofia do “caiu na rede é peixe”. Com o Palmeiras será assim, se achará poderoso quando golear o CRB e o ABC de Natal…Se orgulhará quando disparar na ponta da tabela da série B. O problema é quando é só isto que te resta: quantidade e nivelamento por baixo. Chega uma hora que você precisa apresentar suas conquistas para a família e esta é a hora da verdade. O Palmeiras definitivamente não levará o troféu da série B para o almoço de domingo, levará bronca do pai dizendo que está na hora de tomar juízo mas o resto da família continuará apoiando. Siga na luta, um dia isto passa, é só uma fase… ainda não apareceu alguém que te mereça. Esta série A era chata mesmo…jogar aos domingos não tem nada a ver.

Vai Palmeiras, se esbalde na série B, seja o rei do submundo, galã dos inferninhos, terror das feinhas. Esta será sua sina em 2013

Último capítulo

Mulheres em geral nunca foram capazes de entender como os homens após acompanharem uma partida de futebol, transmitida ao vivo, tem paciência para assistir programas esportivos que nada fazem além de recontar a história do jogo e  estabelecer debates épicos sobre a existência ou não de um penalti, se o impedimento foi corretamente marcado e se o jogador deveria ou não ter sido expulso. O resultado já está definido, nada mais mudará, os comentaristas desfilam um festival de obviedades mas lá estamos nós, homens do Brasil, prestigiando as chamadas “mesas redondas” com seus cenários toscos, anunciantes bizarros e conteúdos ocos. Neste final de semana, descobri que além da mesa redonda futebolística, criou-se no país uma enorme mesa redonda novelística. Com um agravante…era impossível mudar de canal ou desligar as pessoas. Em cada lugar que você ia, recomeçava o debate…E aí ? O que você achou do final da novela ? Pronto…horas e horas de discussão e comentários sobre a morte do Max, o destino da Carminha, a chatice da Nina, a idolatria ao Tufão. Isto não bastava…as pessoas queriam criar finais diferentes e davam vazão a sua imaginação, criticando ou defendendo apaixonadamente o autor da novela . Confesso que como alguém que não é noveleiro, me senti voltando de uma temporada na lua, completamente alienado . Tenho certeza que um monte de gente assistiu a reprise do último capítulo para ver se o final se modificava e ficava mais próximo de suas fantasias criativas. Alías, deveriam ter feito um “Você decide” para este capítulo e cobrado R$ 10,00 por cada  voto… O engajamento era tamanho que com a renda obtida a Globo poderia ter mandado a turma do Divino em bloco para a Capadócia para animar a próxima sessão de  tortura (neste caso turca e não chinesa) da Glória Perez ou se existisse um apelo mais social, financiado uns dez anos de “Criança Esperança versão Lixão”, tirando todos os personagens da miséria. Quem sabe não adaptam esta idéia para o “Vale a Pena Ver de Novo” de Avenida Brasil , que se dependesse da maioria, poderia estrear amanhã. A verdade é que depois de um final de semana de ressaca de “Avenida Brasil”, ganhei um crédito quase vitalício para  assistir “Linha de Passe”, “Terceiro Tempo”, “Cartão Verde”, “Bem Amigos”  e para a vingança ficar ainda mais doce, zapeando de um canal para o outro e com direito a merchand do Milton Neves, no lugar do Oi,Oi,Oi. 

Alegria,ousadia e paciência

Ninguém parece ter muita dúvida que as chances de sucesso do Brasil na Copa do Mundo de 2014 passam pelo humor (ou pelos pés) do Neymar. Melhor jogador que apareceu no Brasil nos últimos anos, destoa do resto da turma e é capaz de decidir jogos e mais jogos praticamente sozinho. Saltos ornamentais espetaculares , coreografias ao comemorar os gols e cabelos que se alternam entre chapinhas japonesas, espanador e moicano também fazem parte de seu repertório e da construção de  sua imagem  de ídolo. Parabéns para o Neymar…Movido pelo seu lema de alegria e ousadia, ele chegou lá e carrega a esperança futebolística da nação. Isto dito, alguém por favor tire este cara dos breaks comerciais e preserve sua imagem (e minha paciência!) . Ok, que grande parte de seu salário vem de seus patrocínios pessoais mas não dá para um cidadão ao mesmo tempo mostrar a marca de sua cueca, aparecer como motorista de um Golzinho vermelho, fazer apologia de como trata a frieira de seus pés, divulgar marca de bateria de carro, celular, de chuteira, banco e agora aparecer vestido de Elvis e de vaquinha malhada para vender sorvete.  Tem que ter alguma lógica…fica difícil mostrar o corpo para a Lupo em poses de ex-BBB para o Paparazzo e ao mesmo tempo se fantasiar de leãozinho de pelúcia… Dirão os gurus do meio que são targets diferentes e que Neymar é o ícone do momento para todas as faixas etárias e sociais e que não há conflito. Outros dirão que por três milhões de reais por mês eu aceitaria até me vestir de odalisca..Sobre a odalisca eu precisaria refletir um pouco mas com conflito ou sem conflito, já deu. Estou quase cantando “eu quero tchu, eu quero tcha, mas me poupem do Neymar”…

Tatu bola

Já tinha achado a ilustração do mascote da Copa do Mundo de 2014 bastante esquisita. Um tatu não me pareceu ser algo extremamente representativo de nosso país. Se não poderia ser um tucano pela conotação política, poderiam ter se inspirado nas araras da Amazônia, nas sucuris do Pantanal ou até mesmo nas antas que são abundantes em todas as regiões de nossa nação. Resolvi ser tolerante…Tatu, Tatu bola, bola, futebol, Copa do Mundo…Ok, passa. Quando eu vi as opções de nome para o monstrinho, sinceramente eu não acreditei. Escolher entre Amijubi, Fuleco ou Zuzeco é algo indiscritível. Os iluminados que sugeriram os nomes explicaram: Amijubi remete a amizade + júbilo, Fuleco combina futebol com ecologia e Zuzeco faz referência ao azul. Já que estamos em tempos de eleição e democracia e a Fifa gostou dos nomes terminados em “eco” pelo seu apelo ecológico, eu proporia Cacareco, Treco ou Traveco. Traveco é o meu favorito… me parece o mais simpático e inclusivo dos nomes, livre de preconceitos ou discriminação.O tatu Traveco poderia entrar no buraco que desejasse e aparecer com a bola na mão sem qualquer problema…seria um sucesso !

Arigatô

 

Demorei um pouco para escrever sobre a final da copa Libertadores e as mil e uma peripécias do Sheik que não é das Arábias mas sim das Américas. Queria esperar a poeira baixar, ter tempo para descarregar dúzias de sms e mensagens infames contra todos aqueles que azucrinaram por anos com piadinhas sobre falta de passaporte, Tolima e afins.  48 horas depois dá para dizer que o bullying futebolístico dará uma longa pausa. Os corinthianos ganharam sua alforria. Fiquei pensando em metáforas menos sexistas mas a verdade é que  antes éramos tratados como os meninos que ainda não tinham beijado, os adolescentes virgens, com espinhas e voz esquisita. Agora tudo mudou…ficamos com a menina mais  desejada da classe, levamos para a cama na  primeira noite e ela ainda mandou mensagem para as amigas impressionada com a nossa performance. O resto da turma está com muita inveja…Ganhamos do Boca, uma espécie de top model futebolística. Chegar perto já provocaria  respeito, dar um beijinho renderia história mas comer e todo mundo saber faz muito bem para o ego narcisista dos corinthianos. Agora que estamos de peito estufado e confiantes no nosso poder de sedução seguiremos viagem para novas conquistas no Japão. Arigatô…


Romarinho e eu

Vai começar a partida. Você esta se virando bem. Arruma uma rede wi-fi que parece honesta e que te permitirá assistir  o jogo em seu IPad através do aplicativo da justin.tv. Começou. A imagem congela, você não ve muito bem a partida, acompanha um duelo de sombras brancas  contra azuis, mas é o famoso “bem melhor que nada”. O Paulinho chuta…quase gol…Você se empolga, manda um sms de “quase” para a sua mulher. A resposta é fria : você só viu agora ? Nossa, que delay enorme…Falta compaixão com as condições sub-humanas a que você estava sendo submetido  e ao seu estado emocional. Você torce para que, como sempre acontece, o voo atrase e você possa continuar assistindo. A pontualidade desta vez é total. Última chamada para embarque. Desliga o IPad. Entra no avião…o sinal de seu celular vai embora, não há “banda” para continuar assistindo pela internet. Plano B: liga para casa, transforma sua mulher em seu Galvão Bueno particular. Ela narra o que está acontecendo….ri, fala que o Sheik é engraçado e destaca como o Riquelme envelheceu. Falta foco, mas é companheira e te informa do fim do primeiro tempo. Empate… por enquanto está bom.
O verdadeiro martírio começa: desliguem os seus equipamentos eletrônicos. Você confunde a aeromoça americana com o garçom da pizzaria, que sempre acompanha os jogos e pergunta se ela tem informações sobre como está a partida. Ela faz cara de conteúdo e segue a sua rotina. Surge na telinha um vídeo do presidente da United – ele diz que está investindo mais de US$ 500 mi em tecnologia para que as pessoas sigam conectadas a bordo… aviões com TV e wi-fi. Fanfarrão…esqueceu de colocar  este avião neste pacote. Resta esperar 9:30 horas de voo para saber o desfecho da partida. Você passa a acompanhar o mapinha…Falta pouco para chegar.  Você cria roteiros imaginários, pensando no que ocorreu durante o segundo tempo.  Avião começa a baixar, você marotamente liga o celular. Espertalhão. Se em terra não funciona, vai funcionar voando ? Nada….Pousou.  Você conecta…
Chegam as mensagens: 1×1, com direito a gol de Romarinho, o mito, e bola na trave no  finalzinho. Alívio. Na próxima 4f o drama continua mas pelo menos será vivido em tempo real…

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