Múltipla escolha

Chimpanzé

A operação “abafa protestos populares” teve o seu ponto alto nos últimos dias com a sugestão de um plebiscito para tratar do tema da reforma política. Automaticamente viajei no tempo e me lembrei da época de estudante, em véspera de provas. Vez por outra, a professora informava que o teste, ao invés de ser dissertativo, seria de múltipla escolha. Por menos que eu estivesse preparado e mesmo não tendo a menor idéia do conteúdo sobre o  qual eu seria avaliado, eu me sentia mais confiante, energizado para enfrentar o desafio. Nada mais lógico, afinal estatisticamente um chimpanzé fazendo cruzinhas randômicas nas alternativas, tenderia a acertar cerca de 20% das questões. Eu não poderia ter uma performance inferior a de um chimpanzé e confiava que com minha capacidade de chutes, o risco de eu zerar na prova diminuiria sensivelmente. O meu conhecimento sobre o tema era zero mas já que me davam a chance de chutar livremente, eu chutava…

Pois bem, não dá para brincar de superar o chimpanzé e escrever “x” em um assunto como uma reforma política. Não é uma questão binária…É querer transformar  um tema complexo e completamente técnico, que já deveria ter sido discutido há anos pelo congresso nacional em uma espécie de releitura do programa do Silvio Santos de antigamente…Antes acendia a luz vermelha e a criança respondia se queria trocar um tênis Montreal por um bicicleta…Agora ao acender a luz da urna o eleitor deverá responder singelamente se está disposto a trocar  o sistema atual pelo voto distrital ou por alguma outra coisa do gênero ?…Não pode ser sério… Estou convencido que algumas destas idéias brilhantes devem estar brotando do cérebro de algum primata que eu insistia em querer derrotar nas  minhas provas de múltipla escolha da  juventude…Só pode ser…

Pacato Cidadão

protestosOs protestos dos últimos dias em São Paulo geraram comentários intransigentes sobre o papel da polícia nos episódios (tem a turma dos pró, tem a turma dos contra), tratados ideológicos sobre o que representam R$ 0,20 ( tem a turma do “isto não é nem troco”, tem a turma do “imagine o impacto do aumento para quem vive com menos de um salário mínimo”). O que mais me chama a atenção no entanto, é a visão semi-unânime de crítica a quem está comandando as manifestações, que  não seriam aqueles que realmente precisam. São jovens brancos, barbudinhos e tatuados que documentam os seus protestos com IPhones e Androids e os compartilham em redes sociais. Eles estariam no lugar errado…Eles não teriam direito de protestar. Esta causa não lhes pertenceria.Tem uma vida boa, portanto deveriam se calar. No máximo poderiam se mobilizar para falar da falta de cobertura da rede 4G de seus celulares, da fila na Polícia Federal quando chegam de viagens internacionais ou do preço dos ingressos dos shows. Os mesmos que os acusam de arruaceiros e rebeldes sem causa, são os que os chamam de alienados e não politizados. Que resgatam histórias distantes de juventude nas ruas para pedir eleições diretas para presidente ou para reivindicar o impeachment de Fernando Collor….Na visão geral, brigar pelo preço da tarifa de ônibus deveria ser um direito apenas de quem efetivamente utiliza transporte público. Esquecem que ter acesso a  transporte público de qualidade é um direito de todos, independentemente da classe social de que se venha. Antes de ser “jovens classe média”, são todos cidadãos. Pacatos cidadãos. Se como cidadãos estão se mobilizando pelos seus direitos que deveriam ser assegurados pelo estado como transporte, educação, saúde, porque criticá-los ? Que bom que acordaram e perceberam que eles também tem direitos e podem exigí-los…Tenho dificuldade de entender o que há de errado nisto e não estou falando que algo justifique quebra quebra ou depredação…Estou falando da mobilização e da tomada da consciência da maioria e a maioria não é composta por vândalos e nem por depredadores. Não acredito que alguém queira se arriscar a tomar uns tiros de bala de borracha (por enquanto ainda são de borracha…) apenas para ter um roxo no corpo para poder postar e ter likes no Instagram e no Facebook…É subestimar demais o papel e a inteligência dos jovens.Estamos acordando.

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