Aprendizado na neve

Uma das belezas da vida é a capacidade de se poder continuar aprendendo independentemente da idade. Esta semana lá fui eu para o desafio de tentar desenvolver minhas habilidades para conseguir  esquiar na neve. Se colocar no papel de ignorante não é das coisas mais fáceis de se fazer (ao menos para mim..),requer uma boa dose de humildade e um exercício para deixar a vaidade de lado, ainda mais quando vários dos seus colegas de “escola”  tem entre 3 e 5 anos de idade.É uma sensação um tanto estranha…você  tentando frear colocando os seus skis em uma bizarra posição de pizza e  sendo ultrapassado por crianças recém saídas das fraldas e que ainda fazem questão de passar ao seu lado descendo de costas e sorrindo. O mico se intensifica com o instrutor pedindo para fazer exercícios de equilíbrio que você não conseguiria fazer nem parado, no plano e sem nada nos pés, que dirá na descida e com skis nos pés…Você tem a impressão que a estação de ski inteira está se divertindo com os seus incríveis tombos desengonçados, que te deixam em posições dignas de um kama sutra, porém gelado e sem parceira. A perseverança vence e aos poucos você vai relaxando, se abrindo para a beleza da natureza, ignorando os outros e se realizando com as pequenas conquistas como não cair  na saída do teleférico, conseguir descer uma montanha de cima a baixo e ver que você não evolui sozinho: os seus filhos que alguns dias atrás nunca haviam visto neve, agora parece que nasceram em alguma província da Suiça. O prazer não vem do grau de dificuldade da pista e sim de conseguir superar os seus limites, aprender, continuar evoluindo e sair com a certeza que a próxima vez será ainda melhor. É duro mas realmente não existe aprendizado sem tombos.

Sorvete Napolitano

Durante um almoço em família  me reencontrei com um clássico da minha infância, o sorvete napolitano. Para quem não sabe, o sorvete napolitano vem em um pote, daqueles de 2 litros, com três sabores: creme, chocolate e morango. A dinâmica de consumo parece que  se manteve intacta nos últimos trinta anos….todas as crianças continuam se servindo gulosamente dos sabores creme e chocolate e o sorvete de morango sobrando, abandonado como um patinho feio do mundo dos gelados.

Como adulto consciente, preocupado com o desequilíbrio social e vendo o preconceito imperar naquela mesa, resolvi intervir. Sorrateiramente, enquanto distraía as crianças, passei a colocar nas suas taças, uma bolinha de sorvete de morango, camuflada, cercada por sorvete de creme e chocolate. Acreditava que estaria contribuindo com o bem estar da sociedade ao agir, ainda que veladamente, a favor da diversidade. Rapidamente porém, o meu plano de dar vazão ao estoque de morango e desacelerar o consumo dos outros sabores, se mostrou infrutífero. As crianças identificaram a trapaça e rejeitaram ainda mais o coitado do sorvete de morango. Por alguns instantes procurei ser solidário ao sabor morango…ele deve se sentir mais ou menos como a irmã da Gisele Bunchen. Todos dizem que é parte da família, que o Napolitano não existiria sem ele, mas na hora do vamos ver, as preferências aparecem e o coitado vai pouco a pouco se derretendo, envergonhado e abandonado, com uma baixíssima auto-estima. Para recuperá-lo estou pensando em expor os meus filhos a um pote de sorvete de Passas ao Rum…aí sim, eles verão que a discriminação contra o sorvete de morango é descabida e que existe coisa bem pior no mundo.

Jogo do banquinho

Enfrentar algumas horas de trânsito com crianças no carro, requer habilidade. Na medida em que o tempo passa e o tédio chega, começam os duelos bélicos por jardas no banco traseiro. Um faz questão de invadir o espaço do outro e o descanso de braço que deveria delimitar os territórios, se mostra inútil. Sintonizar na rádio 89,1 (que não é mais a rádio rock e agora é a rádio fast, patrocinada por um iogurte) e cantar junto com eles músicas da Lady Gaga, da Kate Perry ajuda um pouco mas quando a estação começa a falhar e sai do ar, o clima no carro esquenta de vez. Como forma de manter o entretenimento a bordo, lancei mão da fórmula consagrada do programa do Raul Gil com o seu jogo do banquinho.Todos os passageiros devem  dizer o que tem no supermercado com a letra A, na feira com a letra C e por aí vai… Quem erra, perde e todos cantam uma musiquinha para celebrar a eliminação. Espírito de programa de auditório. Além de manter o pessoal entretido, serve para estimular o cerébro e checar em que mundo os meus filhos estão vivendo. Ontem em uma das rodadas pedi que as crianças me dissesem o que tem na estrada com a letra P. Começaram bem, com pedágios, placas e afins…Depois de algumas rodadas, meu filho resolveu afirmar que nas estradas têm “periguetes”. Isto depois de me dizer que no shopping com a letra L , existia “lavagem cerebral”. Como guardião das regras, impugnei as duas respostas, por mais verdadeiras que elas fossem. O tempo da viagem passou mais depressa mas mostrou também que o tempo da inocência também está chegando ao fim. 

Energia acumulada

Feriado: dias de chuva interminável na fazenda e oito crianças entre 8 e 10 anos para administrar. O dilúvio determina o ritmo das atividades : não tem cavalgada, não tem piscina, não tem jogo de bola. A situação de tédio não é nada diferente do que eu cansei de vivenciar na minha infância.

Me preparei para o desafio e desenhei o plano anti-aborrecimento : retomei mentalmente regras de jogos de cartas, as estratégias de partidas de WAR (Alaska ataca Vladivostok) ou Banco Imobiliário (comprar rápido a Avenida Atlântica),  lembrei da TV Globo com “Sessão da tarde” e seus clássicos como Flipper ou Digby ( “O maior cão do mundo”), e  relembrei  brincadeiras de   Esconde Esconde, Gato Mia e até pensei na de médico, que rapidamente achei mais prudente esquecer . Me julgava um “tio” capacitado para enfrentar a monotonia, com um arsenal de entretenimento que garantiu a minha sobrevivência por vários anos.  

Depois de 3 dias e vários mm de chuva, frustração absoluta: todas as propostas foram veementemente rejeitadas de maneira unânime … Estamos em 2012: 8 crianças, 8 Ipads. 8 soluções independentes e solitárias. Brigas agora são causadas pela posse dos  carregadores  para assegurar que nenhum equipamento descarregue e que os jogos virtuais não sejam interrompidos…

Ninguém é acusado de roubar, de mentir, de ter inventado regras. Os tablets não roubam e não mentem. As regras são soberanas. Ao invés de temer pela “morte de tédio” das crianças,  meu receio passou a ser que algum equipamento super aquecesse e explodisse no seu colo por excesso de uso. Continuou chovendo e fiquei com a  certeza que apesar de seus IPads haverem descarregado, a energia dos oito permaneceu acumulada.  Novos tempos, novas fórmulas.

9 anos em 2 minutos

Uma das coisas mais marcantes de ser pai é não cansar de se surpreender com a velocidade com que seus filhos crescem. Os momentos de choque acontecem quando você menos espera…No dia em que seu filho fala pela primeira vez, quando você o vê engatinhar , quando você tem que carregá-lo do sofá para a cama e percebe o quanto ele está pesado e mal cabe nos seus braços. Ou quando começam os questionamentos, as colocações estruturadas, que não são mais compatíveis com gugudadás. E as dúvidas para a lição da escola ? Você se sente incapaz de contribuir e só pensa como  já podem expor o seu filho a coisas tão complicadas.  São flashes, em que  você percebe que seu  filho está crescendo , que a vida está passando e que o tempo é implacável. Você olha para trás e nota que os anos se passaram em frações de segundo e que a criancinha da sua imaginação, não existe mais, já é parte do passado. Vi hoje este vídeo no www. mashable.com. Um holandês que fotografou o seu filho, todas as semanas , desde o seu nascimento até hoje. O menino tem 9 anos, o vídeo tem 127 segundos…9 anos em pouco mais de dois minutos. Não deu para não pensar no meu filho…Não deu para não refletir sobre o tempo.

93

Sempre que viajo trago junto comigo um pouco da minha avó . O seu físico não deixa mais que ela faça grandes acrobacias e limita os seus deslocamentos pelo mundo. Nada disto porém, jamais foi capaz de tirar a sua grande virtude querer aprender sempre mais. Seus pensamentos e seu entusiasmo com as minhas viagens fazem com que meus olhos e minhas observações sirvam de combustível para a paixão que minha avó tem por novas descobertas. É uma sede que não diminui depois de noventa e poucos anos e que alimenta a sua vida. Me sinto orgulhoso de poder ver, aprender e vivenciar todas estas experiências que as viagens oferecem mas me sinto ainda mais inspirado a fazer tudo isto e na volta poder materializar com fotos e histórias, a viagem imaginária que minha avó está fazendo junto comigo. Ela não precisa vir para cá para saber tudo sobre os meus destinos. Geografia, política, economia…Sei que seus pensamentos lá em São Paulo estão aqui do meu lado, em cada vulcão que vejo, cada duna que escalo  ou em qualquer comida diferente que experimento. É muito bom ter encontrado uma forma de compartilhar estas experiências com ela. Sei que este é o melhor presente de aniversário que posso dar para ela.

Janelas do mundo

Sempre que viajo a trabalho por aí, tenho o hábito de abrir a cortina do quarto do hotel, tirar uma foto da vista e mandar para a minha mulher. Ela faz a mesma coisa. É a maneira que encontramos de nos aproximarmos, mostrar ao outro onde estamos, em que lugar do mundo viemos parar e emprestar os nossos olhos para quem gostaríamos que estivesse conosco. Não importa se a vista é bonita ou feia, isto não é importante para o nosso pequeno ritual.
Hoje, entrei no meu quarto de hotel em New Jersey e lá fui eu abrir a cortina e olhar pela janela. Quando puxei a cortina dei de cara com a vista da construção da nova torre do World Trade Center, do outro lado do rio. O prédio que terá 104 andares, está com 90 pisos construídos e já se destaca muito no horizonte de Nova York. Ao invés de ver o futuro, confesso que vi o passado. Mesmo depois de quase 12 anos, olhei pela janela e não vi um prédio novo subindo…Vi o antigo desabando. Não tive vontade de fotografar, não tive vontade de lembrar. Mandei uma foto tirada meio de lado, que mostra um singelo supermercado que fica na direção oposta. Menos opulência, menos pensamentos ruins, mais acolhimento, mais cara de casa.

A dura vida de uma mula…

Sempre que alguém que conhecemos vai morar fora do Brasil temos algumas reações meio padronizadas. Se for alguém de quem gostamos, queremos que a pessoa volte logo, que tenha sucesso na sua experiência, sentimos saudades e queremos ir visitar (desde que o sujeito tenha ido morar em algum lugar legal, é claro). A pessoa está longe mas quando reencontramos parece que o tempo não passou e as história da vida são retomadas imediatamente, quase sem rupturas, apesar dos milhares de Km de distância.
Se for alguém por quem não temos muita simpatia, torcemos por invernos gelados com neve e escorregões no gelo, para que a Globo Internacional e o PPV do Campeonato Brasileiro não funcionem, para que os vizinhos sejam cruéis e reclamem de tudo…Não é um sentimento muito bonito, mas enfim, esta é a vida.
Quando além de gostarmos da pessoa,temos intimidade, o próximo passo é transformar a sua casa em um entreposto de entrega de mercadorias. Dizemos que são coisas pequenas, que não incomodam e para sermos educados, perguntamos se ele se incomodaria de trazer na próxima viagem ao Brasil. A criatura fica institucionalizada como uma espécie de FedEx doméstico, ou em português mais coloquial,uma “mula”, trazendo as encomendas da turma e também fazendo favorzinhos na volta, levando coisas para abastecer algum conhecido da comunidade brazuca.
Não é fácil a vida da “mula”…Se for uma “mula” vivendo nos Estados Unidos, sempre que mandamos alguma coisa para a casa do cidadão, ele como punição adicional ainda é adicionado ao mailing de catálogos do fabricante do produto que mandamos entregar. Ou seja, mesmo depois da entrega feita, a nossa “mula” querida, continua conversando com o serviço prestado ao abrir a sua caixa de correspondência. Talvez seja a nossa forma de ficar mais perto e fazer com que a pessoa não esqueça da gente…
PS: Este post não é baseado em fatos reais. É pura ficção

De volta para o futuro

Quantas vezes estamos em um lugar e nos deparamos com nossas memórias. O passado se mistura com o presente e nosso corpo está aqui mas nossa mente está divagando, puxando lembranças que ficaram perdidas e distantes. Parece um papo meio cabeça ? Que tal ver como o site http://www.dearphotograph.com permitiu a integração destes dois universos: passado e presente reunidos através de fotos. Você faz o upload e a união de 2 fotos tiradas em épocas completamente diferentes. É a mistura de memórias afetivas com o cotidiano.Os mesmos ambientes, os mesmos elementos, anos de diferença, fotos impressas e fotos digitais. Tudo capturado em um mesmo clic. É o sinal de que embora o tempo tenha passado e deixado suas marcas, o ambiente possa ter ficado igual, as pessoas se repaginaram e se modificaram de alguma maneira. A memória ficou…o mundo em alguns casos pode parecer igual por fora mas por dentro ele está bem diferente. Nada mais alinhado com o tema dos meus 50 minutos de divã de 5f passada…

Crônica de um dia em que começou a chover e não parou mais

Nestes dias eu deveria estar vendo o mar, aquele que fica perto da praia, mas consigo ver apenas o mar de chuva que cai dos céus. Começou a chover em 2011 e não parou mais…O dilúvio combinado com a completa falta de atrações esportivas na TV (é férias e não tem sequer taça SP de futebol Jr, ou desafio Rio x SP de veteranos em futebol de areia) leva a um quadro definido pelos especialistas como sendo de tédio . Pensamos em voltar para SP, para vivenciar o tédio sob uma perspectiva urbana mas tédio com trânsito na Rio Santos/ Imigrantes é uma combinação ainda mais explosiva.
O tédio tem suas virtudes e quando ele chega a um estágio muito avançado te força a ser pró-ativo e criativo. Revirei todos os canais da TV a cabo, reencontrando filmes que já julgava extintos juntamente com os dinossauros. E a busca pelas estantes da casa ? Localizei um livro açucarado da Danielle Steel e concluí que retrospectivas da TV Globo ainda seriam melhores opções do que me aventurar pelas histórias de amor de Peter Haskell e Olívia Thatcher, personagens que encontrei na orelha do livro. Ressurgem as idéias dos jogos de tabuleiros ou cartas mas nos damos conta que o nosso plano de fazer uma série histórica de melhor de 71 partidas no gamão ficou preterido pelo esquecimento do tabuleiro. Tem o gamão no IPad mas não tem a mesma graça… Jogar “Stop” com mais de 40 anos de idade é justificativa para interdição e os anos de experiência me falam que eu devo fugir das polêmicas de colocar “Havana”como cor com a letra H e “Namorado” (o peixe!) como animal com a letra N. Prefiro evitar. E a Internet, mãe salvadora dos desocupados ? Sim, quando ela funciona, tem sido terapêutica mas até eu já cansei de ler sobre queimas de fogos pelo mundo, tráfego nas estradas e enchentes e desabamentos de verão. O que nos restou ? Minha esposa optou pelo projeto de mimetizar um urso em fase de hibernação e dorme umas 16 horas por dia. Eu estou mais ativo e me coloquei uma meta mais ambiciosa de concluir um sonho antigo: eliminar todos os porquinhos verdes do Angry Birds, mas tem que ser com classe, com 3 estrelas…Se continuar chovendo e com este tédio, acho que chego lá.

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