Pele e alma

Você entrega o recibo de sua consulta médica para que a sua secretária peça o reembolso ao plano de saúde. Ela te diz:  claro, vou fazer. Em seguida te olha e dá uma risadinha…Não, o recibo do médico em questão não é de um urologista. É uma nota de prestação de serviços de um dermatologista. A partir de então ela passa a te olhar procurando sinais de enchimento de Botox em seus lábios, começa a imaginar que em vários lugares do seu corpo existam implantes de fios de ouro e passa a duvidar que os seus poucos cabelos ainda são naturais. O pior é o pensamento disfarçado de que o chefe dela dorme com uma máscara de creme de aveia na face com rodelas de pepino para proteger os olhos. Aquela nota fiscal automaticamente determinou a sua condenação ao papel de um metrosexual do mundo corporativo…um Cristiano Ronaldo que usa laptop e faz reuniões. Certamente sequer passou pela cabeça de sua secretária que a visita ao médico poderia estar relacionada a uma verruga, uma pinta, micose ou coisa do gênero. Começo a pensar  no meu médico…Ele faz parte de um grupo de dermatos que passou anos estudando, se especializou, tratou de queimados, viu perebas horríveis e se orgulha em explicar as diferenças entre dermatites de contato e seborreica.

Agora, em função do trabalho de vários de seus colegas, dermatos quase deixaram de ser vistos como médicos e  tem um perfil mais identificado com esteticistas ou hair stylists (o termo cabelereiro anda caindo em desuso), que vivem exibindo os seus pacientes e os extreme makeovers que promovem nas revistas de celebridades. Dizem que para a estética não há crise e talvez seja esta a razão desta mudança mas se eu fosse um dermato de verdade, médico de essência, preocupado com a saúde do paciente e não apenas em satisfazer as senhoras que querem estar bonitas nas festas  eu definitivamente me auto-proclamaria “perebólogo”…Os perebólogos deveriam fundar uma nova especialidade médica, dissociada dos dermatos e que refletisse que são médicos de fato, de pele e alma. Seria bom para eles e também ajudaria executivos desamparados quando apresentam os recibos no escritório…

Uma pele que requer nervos e estômago

Semana puxada, stress ? Que tal um cineminha para relaxar na noite de 6f ? Grande idéia. Já que não queremos ter os nossos pescoços sugados pela saga dos vampiros do Crepúsculo, nada mais óbvio do que nos atualizarmos para termos assuntos com os mais antenados e assistirmos “A pele que habito”, o mais novo filme do espanhol Pedro Almodóvar. Os ácaros em profusão da sala de cinema do Shopping Morumbi (fujam!!) já indicavam que a minha perspectiva de relaxamento iria por terra. Comecei o filme tenso, imaginando que em instantes teria uma crise de rinite alérgica. Meu corpo resolveu contribuir e se comportar, mas Almodovar não.

Fazia tempo que eu não saia do cinema com uma sensação de estômago tão embrulhado (estou excluindo “Rio”, “Um zelador animal” e “Carros 2” desta constatação). O filme é bem pesado e mais do que tentar decifrá-lo fiquei pensando que tipo de chá de cogumelos o roteirista tomou para elaborar uma história tão estapafúrdia e complexa. Vou me abster de contar o enredo pois cortaria metade da graça do filme mas para ter uma noção, ele começa com um cientista high tech (representado pelo Antonio Bandeiras e que está parecendo o Júlio Iglesias reloaded) que desenvolve uma pele artificial e no final você constata que está diante de uma mistura de Ivo Pitangui com Maníaco do Parque. O lado bom de tudo isto é perceber que se você resistir firme na poltrona, o filme tem realmente a capacidade de te incomodar e tirar o seu sono. Confesso que no final da noite estava procurando alguma reprise de filme com a Meg Ryan, tipo “Mensagem para você” para adoçar o começo do final de semana.

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