Yak e Yeti

Após mais uma noite com uma dormida coletiva, com direito até a mulher como companheira de quarto (mais um russo e um galês para completar a festa), saímos para caminhar umas 6:30h. Nenhum ditado é tão sábio quanto para baixo todo santo ajuda…

No caminho de volta do Annapurna Base Camp percebo todo o esforço da subida. O que impressiona mais é a fisionomia das pessoas que você vai cruzando. A maioria com cara de morto, finalista de maratona e você pimpão, ainda acelerando o passo para dar aquela humilhada. A auto-confiança é tanta que piso em uma pedra com gelo e lá vou eu para mais um chão na viagem. Ou melhor: água…Metade do corpo dentro de outro riacho geladinho. Yemanjá deve ter algum fetiche por mim porque mesmo na montanha ela continua me chamando.

A paisagem vai mudando, do gelo da montanha voltamos para o verde e para os rios. Começo o dia empacotado com três casacos e na medida em que desço começo um strip tease até ficar de camiseta. Caminhada de umas 5 horas e parada no mesmo lugar onde tive uma hospedagem provavelmente  menos luxuosa que a do Sérgio Cabral em Benfica. Caçaram o meu habeas corpus e volto exatamente para a mesma cela. O meu guia me fala que será impossível conseguir uma cama no próximo vilarejo e que devemos parar, embora ainda seja hora do almoço.

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Luxo e sofisticação em um resort nepalês

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Camas espaçosas. King size. Jogo de cama 1000 fios

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Privadas ergonômicas

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Duchas refrescantes com direito a banho de espuma

Para explicar a lógica do sistema de hospedagem: não há esquema de reserva prévia, nem online, nem offline e nem por sinal de fumaça. Em alguns trechos do trekking existe um gargalo de acomodação com mais turistas do que leitos. Como o número de quartos é inelástico, a solução é empilhar o maior número possível de pessoas no mesmo espaço, instalar barracas do lado de fora dos albergues ou colocar o povo  para dormir no refeitório. “Quartos” para dois, acolhem uma dúzia e assim vai. É algo parecido com classe econômica de companhia aérea. O milagre da multiplicação do espaço.

Minha reação ao tédio é diferente desta vez…é o que temos para o momento e deve ter alguma sabedoria neste processo de se desconectar do mundo. Com o reencontro com o calor eu ouso tomar banho frio e acho ótimo. Lá em cima não houve sequer esta possibilidade pois a água congelou  dentro do cano. Me sinto mais desapagado dos confortos da civilização e enxergo as coisas de outra maneira. A espelunca se transforma em hotel de luxo, a cama estreita é percebida como king size e o buraco no chão…bem embora ergonômico, continua sendo um buraco no chão…. Fico mais relaxado e dedico horas a um papo animado com o meu guia sobre a existência ou não de fantasmas. Ele me garante que eles existem em profusão e que naquela trilha já tinha visto alguns. Não encontrei fantasmas (não tinha expectativa, portanto ok !), Yetis (Yeti é o abominável homem das neves, o pé grande…também não enxergava este encontro como uma possibilidade real, portanto ok! ) e nem Yaks, que em uma definição meio tosca são como bisões da região dos Himalaias. Vivem acima dos 3500m e podem ser domesticados.

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Fonte: Google. Não vi nenhum Yak…

O não encontro com os Yaks me magoou, gerou uma grande frustração…não me conformo até agora. Fiquei um pouco com a sensação de ter ido a Roma e não ter visto o papa.  O guia tentou me convencer de que eles preferem as pastagens da região do Everest mas não fiquei nada convicto. Pensei em mentir para a família e forjar fotos mas concluí que não seria compatível com o espírito da viagem e da busca do auto-conhecimento. Melhor levar este vazio para o divã…Minha analista certamente vai me dizer que o yak simbolizava alguma coisa, talvez um ancestral. Freud explicará.

 

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